
01
O tamanho da base
O Crime Brasil foi construído pra responder uma pergunta simples: quantos crimes acontecem no meu bairro, e isso está piorando ou melhorando?
Pra responder isso no Rio Grande do Sul, a gente raspa, normaliza e geocodifica todos os boletins abertos da SSP desde janeiro de 2022. A base tem hoje:
- 2.988.995 ocorrências individuais (Lei 15.610/2021)
- 497 municípios cobertos
- 79.024 bairros únicos normalizados (lidando com 208+ variantes de grafia que a SSP mistura)
- 99,99% geocodificadas — só 417 registros em 3M não têm lat/lon
- Atualização diária a partir do portal da SSP
Os cinco achados abaixo são os que mais mudaram minha percepção do estado. Cada um tem uma análise dedicada no Crime Brasil — trate este texto como um índice.
02
Homicídios em queda acelerada
Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
De 1.644 mortes em 2022 pra 984 em 2025. Uma queda de 40,1% em quatro anos, e o mais importante: a queda acelerou a cada ano.
- 2023 vs 2022: -3,2%
- 2024 vs 2023: -15,1%
- 2025 vs 2024: -27,2%
Isso é raro. Quando um estado começa a reduzir homicídios, normalmente a queda é linear ou desacelera. O RS fez o contrário — o último ano foi o melhor da série.
Comparando com o RJ no mesmo período, que caiu só 7%, os dados de criminalidade do Rio Grande do Sul apontam para 8,6 homicídios por 100 mil habitantes em 2025 — contra 16,4 do Rio. Em 2022 os dois estavam mais próximos (14,3 vs 17,6). A distância dobrou.
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Leitura completa: O RS caiu 40% nos homicídios. O RJ caiu 7%. Por que as trajetórias são tão diferentes?
03
Mulheres são maioria das vítimas registradas
Esse é o achado mais contraintuitivo da base. Contando todas as ocorrências com sexo da vítima informado:
- Feminino: 1.331.183 (52,9%)
- Masculino: 1.183.569 (47,1%)
Isso não significa que mulheres sofrem mais violência letal — em homicídios dolosos os homens ainda são 85%+ das vítimas. O que puxa o agregado pra cima são três categorias específicas onde mulheres são maioria registrada:
- Ameaça (429 mil ocorrências, a mais comum da base)
- Violência doméstica e lesão corporal em contexto familiar
- Estelionato (349 mil ocorrências, especialmente as modalidades digitais)
É um retrato do registro policial, não da realidade completa — mas diz algo sobre o que as pessoas registram no boletim. Homens tendem a registrar menos quando são vítimas, e quando registram, costuma ser em contextos patrimoniais.
Leitura completa: Mulheres no RS: o que os dados dizem sobre quem registra e quem é registrada · Divisão sexual do crime no RS
04
Pico ao meio-dia, não à noite
Todo mundo supõe que crime é coisa de madrugada. Os dados dizem o oposto pro RS.
As 10h da manhã concentram 239.674 ocorrências em 4 anos. Mais que às 22h (106 mil) e às 23h (93 mil) somadas.
Por quê? Duas razões:
- Fluxo urbano. Mais gente na rua → mais oportunidade → mais crime patrimonial (furto, estelionato, ameaça).
- Janela de registro. Muita ocorrência que aconteceu à noite só vai ao boletim no dia seguinte, quando a vítima acorda e vai até a delegacia ou o site. O horário de registro contamina o horário de fato.
A segunda explica parte. A primeira explica a maior parte.
Consequência prática: segurança pública no horário comercial pesa tanto quanto à noite. Boa parte do gasto público em patrulhamento noturno cobre uma fatia menor do problema do que parece.
05
Feminicídio: estabilização preocupante
Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
A curva é uma boa notícia incompleta. De 109 feminicídios em 2022 pra 73 em 2024 — uma queda de 33%. Mas 2025 subiu levemente, pra 77. A série não está mais caindo; está estabilizando.
Em média, uma mulher é morta em contexto de feminicídio a cada 4,7 dias no RS desde o início de 2024. A queda dos últimos anos não elimina o problema — apenas move o piso pra cerca de 75-80 casos/ano.
A distribuição geográfica também diz muito: a Região Metropolitana concentra a maioria dos casos, mas a taxa (por 100 mil habitantes) é maior em cidades menores da Serra.
Leitura completa: Feminicídio: metrópole vs serra — onde a violência letal contra mulheres é mais intensa no RS
06
O que vem depois
Esse texto é um índice. Cada um dos cinco pontos acima tem uma análise dedicada. Mais algumas leituras que expandem o quadro:
- Os bairros mais seguros de Porto Alegre — ranking com contexto populacional · ver mapa de criminalidade em Porto Alegre
- Estelionato: o crime que mais cresce no RS, e por que as autoridades estão atrás
- Enchentes de 2024 e o que aconteceu com a criminalidade
- Criminalidade no RS está subindo ou caindo? Depende do crime.
- Estados mais violentos do Brasil — ranking 2024
A base continua crescendo — dados de fevereiro/2026 chegam em maio, e novas análises saem todo mês. Se quiser acompanhar, assine a newsletter ou siga @Crime_Brasil no X.
metodologia e limites
Base: 2.988.995 ocorrências individuais da SSP/RS, 2022-01 a 2026-01, licença Lei 15.610/2021 (dados abertos). Geocodificação: 99,99% (417 registros sem lat/lon descartados das análises geográficas). Normalização de bairros: 208+ variantes de grafia tratadas (ex: BOMFIM vs BOM FIM, PASSO PEDRAS vs PASSO DAS PEDRAS).
Os números de homicídio doloso incluem o enquadramento "HOMICIDIO DOLOSO" puro — não inclui latrocínio nem morte por intervenção policial (categorias MVI mais amplas). Feminicídios: enquadramento "FEMINICIDIO" específico.
Todos os recortes deste texto podem ser reproduzidos pela API pública em crimebrasil.com.br — documentação em crimebrasil.com.br/imprensa.
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