O senso comum coloca a violência nas grandes cidades. Mais gente, mais crime — a lógica parece óbvia. Mas os dados de feminicídio no Rio Grande do Sul contam outra história.

Entre 2024 e 2025, 150 mulheres foram mortas em contexto de violência de gênero no estado. Setenta e três por cento desses casos — 109 de 150 — aconteceram fora da região metropolitana de Porto Alegre e fora da Serra Gaúcha. O problema não está concentrado nas capitais ou nas cidades mais ricas. Está espalhado pelo interior, nas cidades médias e pequenas onde a rede de proteção raramente chega.
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O PANORAMA 2024-2025
Setenta e três casos em 2024. Setenta e sete em 2025. A taxa estadual fica em torno de 0,65 por 100 mil habitantes em 2024 e 0,69 em 2025 — uma leve alta, mas dentro da margem de variação esperada pra números dessa escala.
O que chama atenção não é a variação anual. É a distribuição geográfica.
1.73% dos feminicídios registrados no RS em 2024-2025 ocorreram fora da metro e da serra
A região metropolitana de Porto Alegre (12 municípios, ~4 milhões de habitantes) respondeu por 32 casos — 21% do total. A Serra Gaúcha (8 municípios, ~900 mil habitantes) teve 9 casos — 6%. O interior restante, com 109 casos, concentra quase três quartos de todos os feminicídios do estado.
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METRO E SERRA: UMA FATIA MENOR DO QUE SE IMAGINA
| Região | 2024 | 2025 | Total | % do total |
|---|---|---|---|---|
| Metro POA (12 municípios) | 18 | 14 | 32 | 21% |
| Serra Gaúcha (8 municípios) | 4 | 5 | 9 | 6% |
| Interior restante | 51 | 58 | 109 | 73% |
| RS total | 73 | 77 | 150 | 100% |
A metro tem quase 4 milhões de habitantes e responde por 21% dos casos. A taxa aproximada fica em torno de 0,40 por 100 mil por ano. A Serra Gaúcha, com ~900 mil habitantes, fica em torno de 0,50 por 100 mil. O interior como um todo carrega o restante — e dentro dele, municípios pequenos aparecem com números que, per capita, são alarmantes.
A metro caiu de 18 casos em 2024 pra 14 em 2025. A serra subiu de 4 pra 5. O interior subiu de 51 pra 58. As tendências são opostas: enquanto a metro mostra queda, o interior cresce.
2.O interior registrou 109 casos — mais que metro e serra somadas quase 3 vezes
Metro (32) + Serra (9) = 41 casos. O interior teve 109. A relação é de quase 3 pra 1 em favor do interior — uma diferença que não se explica apenas pelo tamanho da população.
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OS MUNICÍPIOS NO TOPO DO RANKING
Porto Alegre lidera com 14 casos em dois anos — menos de 10% do total estadual. Uma cidade com 1,3 milhão de habitantes. A taxa fica em torno de 0,54 por 100 mil por ano, abaixo da média estadual.
Rio Grande aparece em segundo com 6 casos. Uma cidade de ~200 mil habitantes no litoral sul. Imbé, com 3 casos e uma população estimada em menos de 30 mil, tem uma taxa per capita que supera qualquer cidade grande da lista.
Uruguaiana, Itaqui, Cruz Alta, Bagé — cidades do interior gaúcho, algumas com menos de 100 mil habitantes, aparecem com 3 casos cada. Pra municípios desse tamanho, 3 feminicídios em dois anos representam uma taxa acima da média estadual.
O padrão é claro: os números absolutos são dominados pela capital, mas o peso per capita fica no interior.
Veja os dados de Porto Alegre
Compare os registros de violência por bairro no mapa interativo.

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QUEM SÃO AS VÍTIMAS
A faixa etária mais atingida é 30-44 anos — 39% das vítimas. Não são as mais jovens, nem as mais velhas. São mulheres em plena vida adulta, muitas em relacionamentos de longa data onde a violência escalou ao longo do tempo.
A faixa 18-29 responde por 30%. As duas juntas — 18 a 44 anos — concentram 69% de todos os casos. Mulheres acima de 45 anos somam 28% dos registros, o que mostra que o problema não termina quando a mulher envelhece.
| Faixa etária | Casos | % |
|---|---|---|
| Menos de 18 anos | 5 | 3% |
| 18-29 anos | 45 | 30% |
| 30-44 anos | 58 | 39% |
| 45-59 anos | 30 | 20% |
| 60 anos ou mais | 12 | 8% |
Sobre raça/cor: 76% das vítimas eram brancas (114 casos), 9% pardas (13 casos) e 8% pretas (12 casos). Outros 7% não tinham informação registrada. O RS tem uma população majoritariamente branca, o que explica o número absoluto. Mas a sub-representação de mulheres negras nos registros oficiais é um problema conhecido — parte da subnotificação recai exatamente sobre as mais vulneráveis.
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O PADRÃO MENSAL
Janeiro de 2024 foi o mês mais letal dos dois anos: 12 feminicídios em um único mês. Em 2025, os picos foram distribuídos: abril, julho, agosto e outubro registraram 10 casos cada.
Não há um padrão estável entre os dois anos. Em 2024, o início do ano concentrou os maiores números — e o segundo semestre teve dois picos seguidos (outubro e novembro com 10 cada). Em 2025, a distribuição é mais irregular, com meses de queda brusca (2 em maio) seguidos de picos altos.
O único mês que aparece consistentemente baixo nos dois anos é março. O que isso significa — mudança de comportamento das delegacias, sazonalidade real, variação aleatória — não dá pra concluir com essa amostra.
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O QUE OS DADOS NÃO DIZEM
Os 150 casos registrados são o que chegou à polícia, foi tipificado como feminicídio e permaneceu com esse enquadramento no momento da extração. A realidade é maior.
Feminicídio depende de uma cadeia de decisões: a vítima (ou alguém por ela) precisa acionar o sistema, o delegado precisa reconhecer a motivação de gênero, o registro precisa ser feito com a tipificação correta. Cada passo filtra casos. No interior gaúcho, onde a distância até a delegacia pode ser de horas e onde "resolver em família" ainda é uma pressão real, essa filtragem é mais severa.
O que esses números não capturam:
- A violência que antecede a morte. Agressões, ameaças, estrangulamento não-letal, perseguição. Pra cada feminicídio registrado, existe um histórico de episódios que em muitos casos nunca viraram BO.
- As reclassificações. Um caso registrado como feminicídio pode ser reclassificado como homicídio doloso ao longo do inquérito. Os dados refletem o enquadramento no momento do boletim, não o resultado do processo.
- A distribuição dentro das cidades. O Crime Brasil permite explorar dados por bairro em Porto Alegre e outras cidades do RS — mas feminicídio tem volumes baixos demais pra análise por bairro ser confiável.
- Cada número é uma mulher. 150 feminicídios em dois anos. Cento e cinquenta mulheres assassinadas em contexto de violência de gênero no Rio Grande do Sul. A análise estatística existe pra identificar padrões. Não pra transformar mortes em abstração.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), registros individuais de boletins de ocorrência disponibilizados sob a Lei Estadual 15.610/2021.
Período: janeiro de 2024 a dezembro de 2025.
Tipos incluídos: Feminicídio e Feminicídio Art. 121 §2º VI (enquadramentos SSP/RS: FEMINICIDIO e FEMINICIDIO ART 121 PAR 2 VI).
Região metropolitana (12 municípios): Porto Alegre, Canoas, Gravataí, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Viamão, Alvorada, Cachoeirinha, Guaíba, Esteio, Sapucaia do Sul e Eldorado do Sul.
Serra Gaúcha (8 municípios): Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Farroupilha, Garibaldi, Carlos Barbosa, Flores da Cunha, São Marcos e Nova Prata.
Totais verificados: 2024 = 73 casos, 2025 = 77 casos, total = 150. Metro: 32 (21%), Serra: 9 (6%), interior: 109 (73%).
Estimativas populacionais: aproximações baseadas no Censo 2022 do IBGE. RS: ~11,2 milhões. Metro POA: ~4 milhões. Serra (8 municípios): ~900 mil. Usadas apenas para contextualização per capita, não para cálculo de taxas formais.
Taxas calculadas: RS 2024 ≈ 0,65/100K; RS 2025 ≈ 0,69/100K; metro ≈ 0,40/100K/ano; Serra ≈ 0,50/100K/ano.
Limitações: feminicídio depende de tipificação policial no momento do registro. Reclassificações posteriores não são capturadas. Os números absolutos são pequenos, o que amplifica a variação percentual e limita inferências estatísticas. Esta é uma análise descritiva — não fazemos inferências causais.
Reprodutibilidade: gerado pelo sistema de publicação do Crime Brasil. Extração em 2026-03-24.