Mais da metade das vítimas de crimes registrados no Rio Grande do Sul são mulheres. O dado é consistente em todos os anos da série: 2022, 2023, 2024, 2025. Não é uma anomalia — é um padrão estrutural.
Este artigo descreve esse padrão com os dados de 2025. Quais crimes mais atingem mulheres. Quais faixas etárias são mais vulneráveis. E onde, em Porto Alegre, os registros se concentram.
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O PANORAMA GERAL
Entre 2022 e 2025, o RS registrou quase 1,3 milhão de ocorrências com vítimas do sexo feminino. Isso representa 53% do total de 2,99 milhões de vítimas no período — uma maioria consistente em todos os anos.
| Ano | Vítimas femininas |
|---|---|
| 2022 | 311.298 |
| 2023 | 336.720 |
| 2024 | 327.494 |
| 2025 | 329.282 |
2023 foi o ano com mais registros: 336 mil. O dip de 2024 pode ter sido afetado pelas enchentes de maio, que reduziram registros em toda a série. 2025 retornou a patamar próximo ao pico.
1.Mulheres são 53% das vítimas de crimes registrados no RS — em todos os anos analisados
O dado é estrutural, não pontual. Em 2022, 2023, 2024 e 2025, mulheres representaram mais de metade das vítimas registradas. Isso reflete tanto a incidência de violência doméstica e de gênero quanto a maior propensão de mulheres a registrar ocorrências de crimes como ameaça e estelionato.
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OS TIPOS DE CRIME
O perfil dos crimes contra mulheres é diferente do perfil geral. Ameaça lidera com folga — 18% de todos os registros. Estelionato aparece em segundo lugar, o que indica uma crescente vulnerabilidade de mulheres a golpes digitais e fraudes.
| Tipo de crime | Ocorrências | % do total |
|---|---|---|
| Ameaça | 60.325 | 18,3% |
| Estelionato | 39.746 | 12,1% |
| Lesão corporal | 24.424 | 7,4% |
| Outros crimes | 21.159 | 6,4% |
| Vias de fato | 14.904 | 4,5% |
| Injúria | 12.022 | 3,7% |
| Outras fraudes | 11.456 | 3,5% |
| Descumprimento de medida protetiva | 10.931 | 3,3% |
O item que mais chama atenção é o descumprimento de medida protetiva: quase 11 mil registros em 2025. Cada um representa um agressor que violou uma ordem judicial que deveria proteger uma mulher. É o dado mais direto sobre falha de proteção que os boletins de ocorrência conseguem capturar.
Ameaça e lesão corporal juntos passam de 84 mil registros. São os crimes que mais nitidamente apontam para violência doméstica e de gênero — o contexto predominante de ambos quando a vítima é mulher.
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A FAIXA ETÁRIA DAS VÍTIMAS
Mulheres de 30 a 44 anos são as mais atingidas: 34% de todas as vítimas femininas com idade registrada. Mas a distribuição por faixa etária revela algo importante: nenhuma faixa está imune.
| Faixa etária | Vítimas | % |
|---|---|---|
| 30–44 anos | 111.660 | 33,9% |
| 45–59 anos | 73.656 | 22,4% |
| 18–29 anos | 73.643 | 22,4% |
| 60+ anos | 53.515 | 16,3% |
| 0–17 anos | 16.807 | 5,1% |
Mulheres acima de 60 anos somam mais de 53 mil vítimas — 16% do total. Idosas são especialmente vulneráveis a estelionato e fraudes, que crescem como proporção dos crimes nessa faixa. E as quase 17 mil vítimas menores de 18 anos são um dado que exige atenção específica: crimes contra meninas incluem desde ameaças até crimes sexuais.
2.Mulheres de 30-44 anos são as mais atingidas — mas a faixa 60+ representa 16% das vítimas
A concentração na faixa 30-44 é consistente com o perfil de violência doméstica, onde a maioria das vítimas está em relacionamentos ou tem filhos pequenos. Já as mulheres idosas aparecem mais nas estatísticas de estelionato e fraude — um perfil de vitimização completamente diferente.
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OS BAIRROS DE PORTO ALEGRE
Em Porto Alegre, os bairros com mais registros de crimes com vítimas femininas em 2025 refletem tanto a densidade populacional quanto a presença de populações vulneráveis.
| Bairro | Ocorrências 2025 |
|---|---|
| Centro Histórico | 2.543 |
| Restinga | 2.467 |
| Partenon | 1.869 |
| Sarandi | 1.800 |
| Rubem Berta | 1.764 |
| Centro | 1.626 |
| Lomba do Pinheiro | 1.407 |
| Petrópolis | 1.389 |
| Mário Quintana | 1.207 |
| Menino Deus | 1.177 |
Centro Histórico e Centro aparecem no topo por uma razão óbvia: são áreas de alto fluxo. Mas Restinga, Partenon, Sarandi, Rubem Berta e Lomba do Pinheiro — bairros da periferia — estão entre os primeiros, o que indica concentração de violência doméstica e de gênero nessas regiões.
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O QUE OS DADOS NÃO CAPTURAM
Os números desta análise representam o que foi registrado. Não o que aconteceu.
A subnotificação da violência doméstica no Brasil é estimada em mais de 50%. Muitas mulheres não registram boletim de ocorrência por medo de represálias, por dependência econômica do agressor, por falta de acesso a uma delegacia ou simplesmente porque acreditam que o sistema não vai ajudar.
Isso significa que os quase 330 mil registros de 2025 são um piso — não um teto.
Além disso, os dados não distinguem contextos. Uma ameaça de ex-parceiro e uma ameaça entre vizinhos aparecem no mesmo tipo. Lesão corporal inclui desde agressões domésticas até conflitos na rua. O boletim de ocorrência captura o tipo penal, não a relação entre vítima e agressor.
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ONDE BUSCAR AJUDA
Se você ou alguém que você conhece está em situação de violência:
- Central de Atendimento à Mulher: ligue 180 — gratuito, 24 horas, confidencial. Orientação, encaminhamento e denúncia de violência doméstica.
- CVV (Centro de Valorização da Vida): ligue 188 — apoio emocional, 24 horas, gratuito. Para momentos de crise e sofrimento.
- Delegacia da Mulher (DEAM) — registre o boletim de ocorrência. Em Porto Alegre: Av. Ipiranga, 1180.
- Casa-abrigo — abrigo sigiloso para mulheres em risco. Acesso via 180 ou DEAM.
Pedir ajuda não é fraqueza. É o primeiro passo mais difícil — e o mais importante.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), registros individuais de boletins de ocorrência disponibilizados sob a Lei Estadual 15.610/2021.
Período: janeiro de 2022 a dezembro de 2025, com foco em 2025 para o perfil detalhado.
Critério de seleção: ocorrências onde o campo de sexo da vítima principal é classificado como feminino (F) nos registros da SSP/RS.
Limitações: subnotificação é estrutural na violência contra mulheres — especialmente violência doméstica, sexual e psicológica. Os dados refletem apenas o que foi registrado em boletins de ocorrência. Não fazemos inferências sobre a criminalidade real.
Distribuição etária: baseada nos campos de faixa etária da vítima nos registros individuais da SSP/RS. Casos sem informação de idade foram excluídos da análise por faixa etária.
Bairros: restritos a Porto Alegre, onde o volume é suficiente para análise granular. Bairros sem correspondência de geocodificação foram excluídos.
Reprodutibilidade: extração realizada em 22 de março de 2026. Scripts disponíveis no repositório do projeto Crime Brasil.
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