O crime de rua está em queda. Roubo a pedestre caiu pela metade. Furto simples também recua. Mas enquanto isso acontece, o estelionato não para. Em 2025, somando estelionato tradicional, fraude eletrônica e ativos virtuais, o RS registrou mais de 100 mil ocorrências — o maior volume já registrado.
A criminalidade não desapareceu — ela migrou de endereço.
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A DIVERGÊNCIA: UMA SOBE, A OUTRA CAI
Os dados de 2022 a 2025 mostram duas trajetórias opostas. Roubo a pedestre, que chegou a 25 mil registros em 2022, está em colapso. Estelionato oscila num patamar alto e não cede.
| Ano | Estelionato* | Roubo a pedestre | Furto simples |
|---|---|---|---|
| 2022 | 90.325 | 25.063 | 16.896 |
| 2023 | 95.452 | 21.128 | 26.908 |
| 2024 | 96.841 | 11.197 | 24.604 |
| 2025 | 100.064 | 9.287 | 22.967 |
*Inclui estelionato tradicional, fraude eletrônica e ativos virtuais (todos os subtipos registrados como ESTELIONATO na SSP/RS).
Roubo a pedestre caiu 63% de 2022 a 2025. Furto simples também recua. Estelionato foi na direção oposta: cresceu 11% no mesmo período, chegando a mais de 100 mil ocorrências em 2025.
O que explica a queda dos crimes de rua? Algumas hipóteses: menor circulação de dinheiro físico, expansão do PIX que reduziu o valor de roubar celulares e carteiras, maior presença de câmeras urbanas, e o efeito residual das enchentes de 2024 que manteve parte da população deslocada.
O que explica a persistência do estelionato? O crime digital não tem fricção geográfica. Não depende de a vítima estar em determinado lugar. Não exige presença física do criminoso. E a entrada no crime é muito mais acessível — qualquer pessoa com um celular pode aplicar golpes.
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O PICO DE JANEIRO DE 2025
O maior número mensal de estelionatos já registrado no RS foi em janeiro de 2025: 9.353 ocorrências em um único mês.
1.9.353 estelionatos em janeiro de 2025 — o maior mensal da série histórica do RS
Janeiro concentra fatores propícios: décimo terceiro salário ainda circulando, férias escolares, Black Friday acabou de passar (golpes de entrega falsa se estendem por semanas). Além disso, é quando mais pessoas tomam decisões financeiras de início de ano — investimentos, renovações de contrato, compras maiores.
O pico de janeiro não é exclusivo de 2025. Em vários anos, o primeiro mês do ano aparece entre os maiores da série. Mas 2025 bateu o recorde absoluto — e isso aconteceu num contexto onde as enchentes de 2024 comprimiram os números dos meses anteriores.
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QUEM SÃO AS VÍTIMAS
O perfil das vítimas de estelionato surpreende quem acha que golpe digital é problema de jovem. Quase metade das vítimas tem mais de 45 anos.
| Faixa etária | Vítimas | % |
|---|---|---|
| 30–44 anos | 28.510 | 29,5% |
| 45–59 anos | 26.617 | 27,5% |
| 60+ anos | 26.219 | 27,1% |
| 18–29 anos | 15.150 | 15,7% |
| 0–17 anos | 222 | 0,2% |
Somando 45-59 e 60+, chegamos a quase 55% das vítimas. A faixa 60+ sozinha representa 27% — mais de um quarto de todos os estelionatos registrados.
A lógica é perversa mas simples: pessoas mais velhas tendem a ter mais recursos, a confiar mais em autoridades (golpe do falso policial, falso banco), e a ter menos familiaridade com os padrões de golpe que circulam nas redes sociais.
2.27% das vítimas de estelionato têm 60 anos ou mais — idosos são o alvo preferencial
O golpe do falso banco, o golpe do neto preso, o falso investimento — são todos formatados pra explorar confiança, urgência e menor familiaridade digital. Falar com familiares mais velhos sobre esses padrões é uma das medidas preventivas mais eficazes.
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OS BAIRROS DE PORTO ALEGRE
Uma das perguntas mais comuns: estelionato se concentra em algum bairro específico? A resposta curta: não tanto quanto os crimes de rua.
| Bairro | Ocorrências (últ. 12 meses) |
|---|---|
| Sarandi | 591 |
| Centro | 568 |
| Santana | 541 |
| Rubem Berta | 480 |
| Menino Deus | 480 |
| Partenon | 454 |
| Centro Histórico | 402 |
| Restinga | 363 |
| Petrópolis | 355 |
| Cavalhada | 298 |
O dado mais revelador não é o topo da lista — é a amplitude dela. Sarandi, Menino Deus, Petrópolis e Cavalhada representam perfis socioeconômicos completamente diferentes. Estelionato não escolhe bairro nobre ou periférico. Aparece em todos.
A concentração no Centro e Centro Histórico provavelmente reflete mais o alto fluxo de pessoas do que uma vulnerabilidade específica dessas populações. Sarandi e Rubem Berta, na Zona Norte, aparecem em primeiro por volume populacional e vulnerabilidade socioeconômica.
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POR QUE ISSO ACONTECE
A migração do crime de rua pro crime digital tem uma lógica clara. O crime de rua tem fricções: precisa de presença física, tem risco de confronto, depende de receptação do produto roubado. O crime digital não tem nada disso.
Um golpista pode operar de qualquer lugar do Brasil, usando números de telefone temporários, contas laranja e aplicativos de mensagens. O rastreamento é difícil. A punição é rara — golpes menores raramente chegam a condenação. E o retorno financeiro pode ser alto.
Enquanto o policiamento ostensivo e as câmeras urbanas pressionam os crimes de rua, o ambiente digital oferece anonimato e escala. Um golpista de rua aborda uma vítima por vez. Um golpista digital pode mandar mil mensagens simultâneas.
Os tipos de golpe mais comuns no RS
Nos boletins de ocorrência da SSP/RS, o estelionato aparece sem discriminação do subtipo (golpe do Pix, falso banco, romance scam etc.). Mas com base em dados nacionais e reportagens locais, os golpes mais frequentes no RS em 2024-2025 foram: golpe do falso funcionário de banco (Pix reverso), golpe da falsa central de atendimento, golpe do falso emprego, golpe de romance (relacionamento falso pra extorquir dinheiro) e falsas ofertas de crédito.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), registros individuais de boletins de ocorrência disponibilizados sob a Lei Estadual 15.610/2021.
Período: janeiro de 2022 a dezembro de 2025. O pico mensal foi identificado na série completa mensal de 2022 a 2025.
Definição de estelionato: todos os registros com tipo_enquadramento contendo "ESTELIONATO" (busca ampla, inclui ESTELIONATO, ESTELIONATO FRAUDE ELETRONICA, ESTELIONATO ATIVOS VIRTUAIS e outros subtipos registrados pela SSP/RS). Esta é a definição mais completa e reflete toda a fraude digital registrada formalmente.
Bairros de Porto Alegre: análise dos últimos 12 meses da série (aproximadamente janeiro de 2025 a dezembro de 2025). Usa a mesma definição ampla de estelionato descrita acima.
Nota sobre tendência 2022-2025: a série mostra crescimento consistente de 11% no período — de 90.325 em 2022 para 100.064 em 2025. Não há dip estrutural em 2024; o volume manteve trajetória ascendente mesmo com as enchentes de maio de 2024.
Faixa etária: baseada nos campos de faixa etária dos registros individuais da SSP/RS. Casos sem informação de idade foram excluídos da análise por faixa etária.
Limitações: estelionato digital é provavelmente muito mais subnotificado do que crimes de rua — muitas vítimas sentem vergonha, acham que não adianta registrar, ou não sabem que podem fazer um BO. Os números desta análise representam um piso. Extração realizada em 08 de abril de 2026.