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A queda histórica de homicídios no RS não foi igual para todos

Por Israel Lehnen Silva·Metodologia

Verificado em 21 de abril de 2026

O RS fechou 2025 com o menor número de homicídios da série histórica — uma queda de 27,6%. Mas quando se separa os dados por cor da pele, o fosso racial entre vítimas brancas e negras ficou maior, não menor.

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Destaques
Queda no RS
-27,6%
Homicídios dolosos caíram de 1.337 em 2024 para 968 em 2025 — o menor patamar da série histórica.
Vista aérea de cidade brasileira ao pôr do sol com bairros populares e ruas sinuosas
Cidade brasileira — vista aérea ao entardecer
Foto: Alef Morais / Unsplash

Na primeira semana de abril de 2026, o Palácio Piratini divulgou que o RS fechou o primeiro trimestre com a menor incidência de homicídios dolosos da série histórica — 234 casos entre janeiro e março, queda de 24% frente ao mesmo período do ano anterior. Dias depois, o governador Eduardo Leite lançou o Programa RS Atento, com R$ 80 milhões em tecnologia de monitoramento ao longo de três anos.

O número é real. A tendência, também. Mas a foto que os microdados tiram — quando você vira a lente pra quem está morrendo, onde e em que hora — mostra um RS em que a segurança pública caminhou em duas velocidades.

01

O QUE OS MICRODADOS MOSTRAM

A base de ocorrências da SSP-RS, cruzando ano a ano, confirma o mérito do recuo. Em 2024 o estado registrou 1.337 homicídios dolosos. Em 2025, o número caiu para 968 — queda de 27,6%. O menor patamar absoluto desde que o indicador passou a ser medido dessa forma.

A pergunta que este texto faz é simples: essa queda chegou igual a todos os gaúchos, ou ela se concentrou em uma parte da população?

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02

A QUEDA NÃO CHEGOU IGUAL PARA NEGROS E BRANCOS

Quando se separa as vítimas por cor da pele registrada no boletim, a diferença aparece com clareza:

  • Vítimas brancas: 806 em 2024 → 573 em 2025 (−28,9%)
  • Vítimas negras (pretas + pardas): 269 em 2024 → 216 em 2025 (−19,7%)
  • Vítimas indígenas: 7 em 2024 → 11 em 2025 (+57%)

A leitura direta: a queda beneficiou principalmente brancos. Entre negros, o recuo existiu — mas foi cerca de 9 pontos percentuais menor. Entre indígenas, não houve queda: o número subiu. A base numérica indígena é pequena, o que torna o percentual frágil isoladamente, mas a direção é oposta ao restante do estado.

O dado que transforma esse achado em política pública — e não em estatística fria — é o tamanho das populações atrás dos números. O Censo IBGE 2022 aponta que, dos 10,9 milhões de gaúchos, aproximadamente 78% se declaram brancos, 16% pardos, 4,5% pretos e 0,3% indígenas. Corrigindo os homicídios pelo tamanho de cada grupo, chega-se à taxa por 100 mil habitantes:

Razão entre a taxa de vítimas pretas e a taxa de vítimas brancas por 100 mil habitantes. Quanto maior, maior o fosso racial.
2024
3,09×
→
2025
3,28×
Variação: +6,1%
  • Taxa de vítimas brancas: 9,46 por 100 mil (2024) → 6,72 (2025)
  • Taxa de vítimas pretas: 29,19 por 100 mil (2024) → 22,05 (2025)
  • Razão preto/branco: 3,09× (2024) → 3,28× (2025)

No ano da queda histórica, um gaúcho preto ainda teve 3,28 vezes mais risco de ser assassinado que um branco — e essa proporção subiu em relação ao ano anterior. O fosso racial que o Atlas da Violência 2025 documenta no Brasil inteiro (risco 2,7× maior para negros) se reproduz dentro do RS em escala ainda mais alta, e se ampliou enquanto o indicador agregado melhorava.

Fosso racial cresceu no ano da queda

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03

ONDE A QUEDA PAROU: O MAPA DOS BAIRROS

A distribuição geográfica dos 968 homicídios de 2025 reforça a leitura. Filtrando apenas Porto Alegre, os bairros com maior número de casos foram:

A lista é quase um retrato da periferia histórica de Porto Alegre. Restinga, Lomba do Pinheiro, Rubem Berta e Santa Tereza são bairros que, segundo o Censo, concentram proporções de moradores pretos e pardos acima da média da capital.

Bairros centrais e da Zona Sul próxima ao lago — com população majoritariamente branca e renda alta — praticamente não aparecem na estatística de letalidade violenta. A periferia segue registrando os mesmos nomes que estavam no topo do ranking há cinco, dez anos.

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A política de segurança que reduziu 369 homicídios no estado em um ano teve efeito geograficamente seletivo. Desceu o número total principalmente onde ele já era menor em termos relativos — mas deixou praticamente intocada a geografia do risco.

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04

A HORA EM QUE O FOSSO SE ABRE

O terceiro eixo — a hora — reforça os dois anteriores. Nas madrugadas de 2025, a proporção de vítimas negras entre os homicídios dolosos no RS dispara:

  • Das 03h às 05h: entre 22% e 37% das vítimas são negras
  • Das 08h às 11h (horário comercial): cerca de 7% a 20% são negras
  • Pico da noite (22h-23h): volta a subir para 29%-33%

A proporção da população negra no RS é de cerca de 21%. Significa que, em determinadas faixas de madrugada, a parcela de vítimas negras chega a quase o dobro do peso demográfico do grupo. À luz do dia, quando circulam mais pessoas e o risco médio é menor, o perfil de quem morre se aproxima do perfil branco da maioria populacional. Quando cai a noite e a rua fica mais vazia, o perfil muda.

Madrugada: proporção de negros assassinados quase dobra

Esse recorte tem um paralelo direto nos estudos do IPEA: a violência letal no Brasil é também uma questão de horário, e os corpos contados na madrugada são majoritariamente de jovens negros.

05

O QUE MUDA NA LEITURA DO RELEASE

O release do governo não é falso. Os 234 homicídios do primeiro trimestre de 2026 são o menor número da série. O Programa RS Atento, com câmeras e integração entre forças, é uma resposta concreta. E o recuo de 27,6% em um ano — superior ao recuo nacional — é uma marca administrativa legítima.

Mas celebrar o indicador agregado sem abrir a lente pro interior dele tem um custo. O retrato que os microdados mostram é de uma segurança que melhorou mais para o gaúcho branco, de classe média, morador dos bairros centrais.

Para o gaúcho negro da Lomba, da Restinga ou do Rubem Berta, 2025 foi um ano melhor que 2024. Mas não tão melhor quanto a média sugere. E a diferença entre esses dois mundos cresceu, não diminuiu.

A próxima pergunta — que o próprio governo precisaria responder — é se o RS Atento vai chegar a esses bairros, ou se será mais um programa que reforça o policiamento onde ele já é denso. A resposta vai decidir se a queda histórica de 2025 é o começo de uma mudança estrutural ou apenas uma boa manchete de trimestre.

06

METODOLOGIA E FONTES

Metodologia e fontes

Dados de homicídios: registros individuais da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), publicados sob a Lei Estadual 15.610/2021. Foram considerados apenas os registros classificados como HOMICIDIO DOLOSO.

Cor da vítima: as categorias seguem a padronização IBGE (Branca, Preta, Parda, Amarela, Indígena). Casos com "Sem informação" foram excluídos dos cálculos de proporção por raça — 168 casos em 2025, 250 em 2024.

Taxas por 100 mil: os denominadores populacionais por raça vêm do Censo Demográfico IBGE 2022 para o RS. Estimativa: 78% brancos, 16% pardos, 4,5% pretos, 0,3% indígenas sobre 10,9 milhões de habitantes.

Contexto nacional: Atlas da Violência 2025 (IPEA/FBSP) para o dado de risco 2,7× maior para negros no Brasil. Agência Brasil para o indicador nacional de risco. Censo IBGE 2022 para denominadores populacionais.

Análise descritiva: os dados mostram associação entre raça e risco de homicídio — não causalidade. Os registros administrativos capturam apenas os boletins de ocorrência e podem subestimar a realidade (subnotificação, falta de preenchimento do campo raça).

Período: 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2025, com comparativo ao mesmo período de 2024.

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Citado por Gazeta do Povo, O Eco, Tribuna do Planalto

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. A queda histórica de homicídios no RS não foi igual para todos. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/queda-homicidios-rs-fosso-racial-2025>. Acesso em: 20 out. 2026.

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Depoimento em vídeo
Vinícius Mendes
Repórter · Olhar Direto (Cuiabá · MT)

Repórter da editoria de Reportagem do Olhar Direto, portal de notícias de Cuiabá (MT), com cobertura de segurança pública e casos policiais no estado. Usou o dado do Crime Brasil para reportar a queda de roubos e a alta de estelionatos em Mato Grosso.

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Jair GonçalvesDepoimento
Jair Gonçalves
Fundador · Portal Atibaia News

Fundador do Portal Atibaia News, veículo de notícias de Atibaia (interior de São Paulo). Publicou com o dado do Crime Brasil o ranking de ocorrências por bairro da cidade.

“Parabéns à Crime Brasil pelo excelente trabalho de jornalismo de dados! As informações disponibilizadas possibilitaram ao Portal Atibaia News produzir uma importante matéria sobre os números de ocorrências policiais por bairro em Atibaia, levando informação e transparência aos nossos leitores. Muito obrigado.”
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Review em vídeo
Mundo de Cores
YouTube · 347 mil inscritos

Douglas, médico veterinário, comanda com a família o canal Mundo de Cores, sobre vida no campo, no Rio Grande do Sul.

“Só Compre uma Chácara Após Assistir Esse Vídeo!”

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Comentários no vídeo

“Gratidão pelas informações. Essa é uma excelente ferramenta para uma decisão segura.”

— @marceloguilemond1632

“Verdade, pode ajudar muito mesmo!”

— Mundo de Cores (canal)

“Muito Bom!”

— @edmundosantos3812
Gazeta do Povo
Artigo de opinião
Gazeta do Povo
Artigo assinado · Paraná

Artigo de opinião do editor do Crime Brasil: a queda de homicídios no Paraná esconde a alta em mortes no trânsito, suicídios e feminicídios — com o dado da plataforma.

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O Eco
Reportagem
O Eco
Reportagem · Amazônia

Reportagem sobre violência fundiária e baixa punição de crimes ambientais na Amazônia, cruzando dados do Crime Brasil com CPT, Ibama, CNJ e MapBiomas.

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Tribuna do Planalto
Capa do jornal
Tribuna do Planalto
Goiânia · edição impressa

Matéria de capa cruzando a queda de homicídios em Goiás com a alta no entorno do Distrito Federal, a partir do dado da plataforma.

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Levantamento exclusivo
Gazeta de S.Paulo
São Paulo · capital

Levantamento exclusivo do mapa da criminalidade na capital paulista — Moema com muito mais infrações que o Grajaú — com o dado do Crime Brasil.

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IHU · Unisinos
Fonte acadêmica
IHU · Unisinos
Instituto Humanitas Unisinos

Entrevista do Instituto Humanitas Unisinos que cita a plataforma como fonte de microdado criminal aberto.

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IBCCRIM · JCC
Revisado por pares
IBCCRIM · JCC
Jornal de Ciências Criminais

Artigo no Jornal de Ciências Criminais sobre os limites do acesso a microdados criminais no Brasil, citando o Crime Brasil.

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Citado na
Wikipédia
Vila Sônia · Cidade Tiradentes
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Publicação
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Paper · Crime Brasil
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