
Na primeira semana de abril de 2026, o Palácio Piratini divulgou que o RS fechou o primeiro trimestre com a menor incidência de homicídios dolosos da série histórica — 234 casos entre janeiro e março, queda de 24% frente ao mesmo período do ano anterior. Dias depois, o governador Eduardo Leite lançou o Programa RS Atento, com R$ 80 milhões em tecnologia de monitoramento ao longo de três anos.
O número é real. A tendência, também. Mas a foto que os microdados tiram — quando você vira a lente pra quem está morrendo, onde e em que hora — mostra um RS em que a segurança pública caminhou em duas velocidades.
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O QUE OS MICRODADOS MOSTRAM
A base de ocorrências da SSP-RS, cruzando ano a ano, confirma o mérito do recuo. Em 2024 o estado registrou 1.337 homicídios dolosos. Em 2025, o número caiu para 968 — queda de 27,6%. O menor patamar absoluto desde que o indicador passou a ser medido dessa forma.
A pergunta que este texto faz é simples: essa queda chegou igual a todos os gaúchos, ou ela se concentrou em uma parte da população?
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A QUEDA NÃO CHEGOU IGUAL PARA NEGROS E BRANCOS
Quando se separa as vítimas por cor da pele registrada no boletim, a diferença aparece com clareza:
- Vítimas brancas: 806 em 2024 → 573 em 2025 (−28,9%)
- Vítimas negras (pretas + pardas): 269 em 2024 → 216 em 2025 (−19,7%)
- Vítimas indígenas: 7 em 2024 → 11 em 2025 (+57%)
A leitura direta: a queda beneficiou principalmente brancos. Entre negros, o recuo existiu — mas foi cerca de 9 pontos percentuais menor. Entre indígenas, não houve queda: o número subiu. A base numérica indígena é pequena, o que torna o percentual frágil isoladamente, mas a direção é oposta ao restante do estado.
O dado que transforma esse achado em política pública — e não em estatística fria — é o tamanho das populações atrás dos números. O Censo IBGE 2022 aponta que, dos 10,9 milhões de gaúchos, aproximadamente 78% se declaram brancos, 16% pardos, 4,5% pretos e 0,3% indígenas. Corrigindo os homicídios pelo tamanho de cada grupo, chega-se à taxa por 100 mil habitantes:
- Taxa de vítimas brancas: 9,46 por 100 mil (2024) → 6,72 (2025)
- Taxa de vítimas pretas: 29,19 por 100 mil (2024) → 22,05 (2025)
- Razão preto/branco: 3,09× (2024) → 3,28× (2025)
No ano da queda histórica, um gaúcho preto ainda teve 3,28 vezes mais risco de ser assassinado que um branco — e essa proporção subiu em relação ao ano anterior. O fosso racial que o Atlas da Violência 2025 documenta no Brasil inteiro (risco 2,7× maior para negros) se reproduz dentro do RS em escala ainda mais alta, e se ampliou enquanto o indicador agregado melhorava.
Fosso racial cresceu no ano da queda
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ONDE A QUEDA PAROU: O MAPA DOS BAIRROS
A distribuição geográfica dos 968 homicídios de 2025 reforça a leitura. Filtrando apenas Porto Alegre, os bairros com maior número de casos foram:
A lista é quase um retrato da periferia histórica de Porto Alegre. Restinga, Lomba do Pinheiro, Rubem Berta e Santa Tereza são bairros que, segundo o Censo, concentram proporções de moradores pretos e pardos acima da média da capital.
Bairros centrais e da Zona Sul próxima ao lago — com população majoritariamente branca e renda alta — praticamente não aparecem na estatística de letalidade violenta. A periferia segue registrando os mesmos nomes que estavam no topo do ranking há cinco, dez anos.
Veja os dados do seu bairro
Explore a criminalidade por bairro em Porto Alegre e em todo o RS no Crime Brasil.
A política de segurança que reduziu 369 homicídios no estado em um ano teve efeito geograficamente seletivo. Desceu o número total principalmente onde ele já era menor em termos relativos — mas deixou praticamente intocada a geografia do risco.
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A HORA EM QUE O FOSSO SE ABRE
O terceiro eixo — a hora — reforça os dois anteriores. Nas madrugadas de 2025, a proporção de vítimas negras entre os homicídios dolosos no RS dispara:
- Das 03h às 05h: entre 22% e 37% das vítimas são negras
- Das 08h às 11h (horário comercial): cerca de 7% a 20% são negras
- Pico da noite (22h-23h): volta a subir para 29%-33%
A proporção da população negra no RS é de cerca de 21%. Significa que, em determinadas faixas de madrugada, a parcela de vítimas negras chega a quase o dobro do peso demográfico do grupo. À luz do dia, quando circulam mais pessoas e o risco médio é menor, o perfil de quem morre se aproxima do perfil branco da maioria populacional. Quando cai a noite e a rua fica mais vazia, o perfil muda.
Madrugada: proporção de negros assassinados quase dobra
Esse recorte tem um paralelo direto nos estudos do IPEA: a violência letal no Brasil é também uma questão de horário, e os corpos contados na madrugada são majoritariamente de jovens negros.
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O QUE MUDA NA LEITURA DO RELEASE
O release do governo não é falso. Os 234 homicídios do primeiro trimestre de 2026 são o menor número da série. O Programa RS Atento, com câmeras e integração entre forças, é uma resposta concreta. E o recuo de 27,6% em um ano — superior ao recuo nacional — é uma marca administrativa legítima.
Mas celebrar o indicador agregado sem abrir a lente pro interior dele tem um custo. O retrato que os microdados mostram é de uma segurança que melhorou mais para o gaúcho branco, de classe média, morador dos bairros centrais.
Para o gaúcho negro da Lomba, da Restinga ou do Rubem Berta, 2025 foi um ano melhor que 2024. Mas não tão melhor quanto a média sugere. E a diferença entre esses dois mundos cresceu, não diminuiu.
A próxima pergunta — que o próprio governo precisaria responder — é se o RS Atento vai chegar a esses bairros, ou se será mais um programa que reforça o policiamento onde ele já é denso. A resposta vai decidir se a queda histórica de 2025 é o começo de uma mudança estrutural ou apenas uma boa manchete de trimestre.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia e fontes
Dados de homicídios: registros individuais da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), publicados sob a Lei Estadual 15.610/2021. Foram considerados apenas os registros classificados como HOMICIDIO DOLOSO.
Cor da vítima: as categorias seguem a padronização IBGE (Branca, Preta, Parda, Amarela, Indígena). Casos com "Sem informação" foram excluídos dos cálculos de proporção por raça — 168 casos em 2025, 250 em 2024.
Taxas por 100 mil: os denominadores populacionais por raça vêm do Censo Demográfico IBGE 2022 para o RS. Estimativa: 78% brancos, 16% pardos, 4,5% pretos, 0,3% indígenas sobre 10,9 milhões de habitantes.
Contexto nacional: Atlas da Violência 2025 (IPEA/FBSP) para o dado de risco 2,7× maior para negros no Brasil. Agência Brasil para o indicador nacional de risco. Censo IBGE 2022 para denominadores populacionais.
Análise descritiva: os dados mostram associação entre raça e risco de homicídio — não causalidade. Os registros administrativos capturam apenas os boletins de ocorrência e podem subestimar a realidade (subnotificação, falta de preenchimento do campo raça).
Período: 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2025, com comparativo ao mesmo período de 2024.
Explore os dados do RS
Veja o mapa interativo com homicídios, roubos e outros crimes por bairro em todo o Rio Grande do Sul.