
Onde a violência se concentrava
A história macro de Canoas já está documentada: os homicídios caíram pela metade em 2025, depois de três anos no mesmo patamar alto. Mas essa queda não foi homogênea pela cidade. Olhando bairro por bairro, ela se concentra em dois pontos.
Mathias Velho e Guajuviras são dois bairros vizinhos, ambos na faixa noroeste de Canoas, com população combinada de cerca de 85 mil habitantes — quase um quarto da cidade. Entre 2022 e 2025, eles somaram 146 homicídios. No mesmo período, Canoas inteira registrou 369. Ou seja: dois bairros explicam quase 40% de toda a violência letal da cidade.
A diferença pra terceiro colocado é nítida. Niterói, com 31 homicídios em quatro anos, soma menos da metade do que Mathias Velho ou Guajuviras isoladamente. A concentração não é estatística distante — ela define onde mora a violência letal de Canoas.
A violência letal em Canoas sempre foi muito mais concentrada do que parecia pela leitura agregada. Dois bairros — Mathias Velho e Guajuviras — carregavam quase metade dos homicídios da cidade.
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A queda atingiu onde mais doía
A leitura mais comum sobre redução de homicídios é desconfiar: será que a violência só se deslocou? Saiu daqui pra atacar ali do lado?
Em Canoas, os dados não dão espaço pra essa hipótese. Os dois bairros que mais matavam são exatamente os mesmos que mais reduziram entre 2022 e 2025. Guajuviras caiu de 28 pra 5 — uma redução de 82% em quatro anos. Mathias Velho saiu de 28 pra 8 — recuo de 71%.
Em Guajuviras, o trajeto é quase linear: 28 → 22 → 17 → 5. Em Mathias Velho, idem: 28 → 24 → 14 → 8. Não tem oscilação aleatória — tem queda persistente que se acelera no último ano.
| Bairro | 2022 | 2023 | 2024 | 2025 | 4 anos | Δ 22→25 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Mathias Velho | 28 | 24 | 14 | 8 | 74 | −71% |
| Guajuviras | 28 | 22 | 17 | 5 | 72 | −82% |
| Niterói | 7 | 6 | 13 | 5 | 31 | −29% |
| Rio Branco | 4 | 7 | 8 | 3 | 22 | −25% |
| Harmonia | 7 | 8 | 1 | 4 | 20 | −43% |
| Marechal Rondon | 3 | 2 | 8 | 6 | 19 | +100% |
| Centro | 6 | 5 | 7 | 1 | 19 | −83% |
| Estância Velha | 2 | 4 | 8 | 1 | 15 | −50% |
A coluna mais reveladora é a última. Sete dos oito bairros caíram. Cinco caíram pelo menos 40%. E os dois maiores epicentros caíram mais do que a média da cidade — Mathias Velho 71%, Guajuviras 82%.
A taxa de homicídio por 100 mil habitantes
Comparar bairros pelo número absoluto de mortes esconde quem mora em cada um. Mathias Velho tem 43 mil habitantes. Marechal Rondon tem 15 mil. Os dois aparecem no ranking, mas a leitura muda quando a gente normaliza pela população.
Em 2024, Marechal Rondon liderava — 52,5 mortes por 100 mil habitantes — seguido de Centro (44,6), Guajuviras (41,2) e Niterói (39,8). Em 2025, Guajuviras desabou pra 12,1, Niterói foi pra 15,3, Mathias Velho caiu pra 18,5, Centro pra 6,4. Marechal Rondon resiste: ainda registra 39,3 — o maior número da cidade.
A diferença entre Marechal Rondon e o segundo colocado em 2025 é grande: a taxa lá é mais do que duas vezes a de Mathias Velho. É o único bairro do top onde a redução foi marginal. Em todos os outros, ela foi de pelo menos 50%.
A exceção: Marechal Rondon
Marechal Rondon é o ponto que pesa contra qualquer narrativa fácil sobre Canoas. É o único bairro do top onde os homicídios aumentaram em números absolutos entre 2022 e 2025: de 3 mortes para 6.
A trajetória não foi linear. Em 2022 e 2023, eram 3 e 2 — patamar baixo. Em 2024, saltou pra 8. Em 2025, ficou em 6. Em quatro anos, dobrou.
A explicação não está nos dados quantitativos sozinhos. Pode ser concentração de algum tipo específico de crime, ou disputa territorial localizada. Mas o sinal é claro: enquanto Canoas inteira foi pra baixo, esse bairro foi pra cima.
Marechal Rondon resiste à tendência da cidade. É o único bairro do top onde os homicídios dobraram entre 2022 e 2025, e o único com taxa por 100 mil habitantes ainda no patamar de 40 mortes em 2025.
Q1 2026: o padrão se inverteu
Os primeiros três meses de 2026 mostram algo diferente do histórico. Foram 7 homicídios em Canoas — um número baixo, em linha com a tendência de queda. Mas o que mudou é o padrão de distribuição.
Em 2022, 2023 e 2024, os homicídios se concentravam nos mesmos pontos: Mathias Velho, Guajuviras, Niterói, Marechal Rondon. Era previsível. Em Q1 2026, foram 7 mortes em 7 ocorrências distintas — uma em cada um dos bairros Marechal Rondon, Mathias Velho, Niterói, Olaria, Rio Branco e São José, mais uma sétima sem bairro registrado no boletim.
Pode ser ruído estatístico — números pequenos amplificam aleatoriedade. Mas o contraste com o padrão histórico é grande o bastante pra notar. Guajuviras, que carregou cerca de 20% das mortes da cidade nos quatro anos anteriores, não aparece nos primeiros três meses de 2026.
O que mudou na geografia da violência
A leitura final é simples. A queda macro de Canoas — de 111 mortes em 2022 para 49 em 2025 — não veio de um movimento difuso. Veio principalmente de dois bairros que carregavam o peso histórico da violência letal e que colapsaram juntos: Guajuviras e Mathias Velho.
Sete dos oito bairros do top reduziram. A exceção é Marechal Rondon, e ele importa: mostra que o cenário ainda tem pontos de atenção. Mas o movimento dominante é claro — a violência caiu onde ela mais existia. Não foi deslocamento.
Explore os dados de Canoas
Histórico completo por bairro, tipo de crime e período — atualizado mensalmente com dados da SSP/RS.
Veja Mathias Velho no mapa
Distribuição mês a mês dos homicídios em Mathias Velho, com contexto demográfico do bairro.
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Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), registros individuais de boletins de ocorrência disponibilizados sob a Lei Estadual 15.610/2021, via Crime Brasil.
Período: janeiro de 2022 a março de 2026.
Definição de homicídio: categoria canônica do Crime Brasil para o RS — inclui homicídio doloso, homicídio culposo (incluindo na direção de veículo automotor), roubo com morte (latrocínio), lesão corporal seguida de morte e morte decorrente de oposição a intervenção policial. Tentativas não são contabilizadas.
Bairros: nomes do campo bairro dos boletins de ocorrência, com normalização para variantes de grafia (acentuação, prefixos como BAIRRO/VILA, abreviações). Bairros referenciados aqui pelos nomes canônicos do IBGE.
Taxa por 100 mil habitantes: calculada com base na população do bairro, IBGE Censo 2022. Para bairros com menos de 20 mil habitantes, a taxa é estatisticamente sensível a pequenas variações no numerador — sempre cite o número absoluto junto.
Limitações: os dados representam exclusivamente crimes registrados em boletins de ocorrência. Não há aqui inferência causal sobre o que produziu a queda — apenas a descrição de onde ela aconteceu.