Em algum momento entre 2022 e hoje, o Rio Grande do Sul silenciosamente quebrou recordes. Não os piores — os melhores.
Homicídios dolosos caíram 40%. Roubos a pedestres despencaram 61%. O roubo em ônibus praticamente desapareceu. São indicadores que, há três anos, pareceriam improvável otimismo eleitoral. Hoje estão no banco de dados da SSP/RS, verificáveis por qualquer pessoa.
Mas há um número que estraga a comemoração: em janeiro de 2026, o RS registrou 11 feminicídios. Em janeiro de 2025, eram 9.

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O QUE CAIU — E MUITO
Os números de violência no RS são uma das histórias de sucesso menos contadas da segurança pública brasileira recente. Desde 2022, praticamente todos os indicadores de crime de rua e crime violento foram na mesma direção: para baixo.
O caso mais dramático é o homicídio doloso. Em 2022, o RS registrava 1.628 casos. Em 2025, foram 968 — uma queda de 40% em quatro anos. Pra ter uma dimensão: são 660 pessoas que, estatisticamente, continuam vivas.
Roubo a pedestre seguiu a mesma trajetória — e foi ainda mais acentuado. De 26.079 ocorrências em 2022, o estado chegou a 10.163 em 2025. Uma queda de 61% em três anos.
| Crime | 2022 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Roubo a pedestre | 26.079 | 10.163 | -61% |
| Roubo de veículo | 4.196 | 1.790 | -57% |
| Roubo em transporte coletivo | 552 | 229 | -58% |
| Homicídio doloso | 1.628 | 968 | -40% |
Os primeiros dados de 2026 confirmam a tendência. Em janeiro, os roubos em transporte coletivo foram 3 — contra 15 no mesmo mês de 2025. Uma queda de 80% num único mês. Roubo de veículo caiu 30%, pedestre -25%.
1.Roubos em ônibus em janeiro de 2026: apenas 3 registros no RS inteiro
Três ocorrências em todo o estado. Num mês inteiro. Isso era inimaginável há quatro anos — quando o mesmo número mensal passava de 50 com frequência. O ônibus gaúcho nunca foi tão seguro.
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O CONTRA-INDICADOR: FEMINICÍDIOS
Tem um número que não entra na celebração.
Em janeiro de 2026, o RS registrou 11 feminicídios. No mesmo mês de 2025, foram 9. Alta de 22% numa comparação pontual — e que chama atenção justamente porque acontece num contexto em que todos os outros indicadores de homicídio estão caindo.
O total anual de feminicídios também mostra uma oscilação que preocupa: de 109 em 2022, caiu pra 85 em 2023, depois pra 73 em 2024 — mas voltou pra 77 em 2025. E 2026 começa em alta.
| Ano | Feminicídios | Homicídios dolosos |
|---|---|---|
| 2022 | 109 | 1.628 |
| 2023 | 85 | 1.567 |
| 2024 | 73 | 1.337 |
| 2025 | 77 | 968 |
O dado é incômodo por uma razão estrutural: feminicídios são crimes domésticos. Não respondem da mesma forma às políticas de segurança pública ostensiva — policiamento nas ruas, câmeras, patrulhamento. Eles ocorrem dentro de casas, em relacionamentos, em contextos onde a vítima muitas vezes conhece o agressor.
2.Feminicídios sobem mesmo com queda geral dos homicídios — o que isso revela
A divergência não é acidente. Quando as políticas de segurança reduzem o crime de rua mas não reduzem o feminicídio, o sinal é claro: faltam estruturas específicas de proteção à mulher — casas abrigo, Patrulha Maria da Penha com mais efetivo, delegacias especializadas com atendimento 24h. O crime mudou de perfil. As políticas públicas ainda precisam se atualizar.
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A LINHA DO TEMPO: 2022 A 2026
A queda dos crimes violentos letais no RS não foi linear — mas foi consistente. 2024 foi um ponto de inflexão: as enchentes de maio comprimiram os registros dos meses seguintes, e a tendência de queda acelerou. 2025 consolidou os novos patamares.
Janeiro de 2026 registrou 85 homicídios dolosos. No mesmo mês de 2025, eram 102. No mesmo mês de 2022 — quatro anos atrás — eram 145. A trajetória é inegável.
Dez/2025 foi o mês com o menor número de homicídios dolosos da série: 57. Menos da metade do pico de jan/2024 (182) ou mar/2023 (160).

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O QUE EXPLICA A QUEDA
Ninguém tem uma resposta definitiva. Segurança pública é complexa demais pra atribuir resultados a uma causa só. Mas algumas hipóteses circulam entre pesquisadores e gestores.
A primeira é a expansão das câmeras urbanas e do monitoramento inteligente nas grandes cidades gaúchas. Porto Alegre, Canoas e Caxias do Sul investiram em centrais de monitoramento — e o efeito dissuasório sobre crime de rua parece real.
A segunda é o PIX. Menos dinheiro físico circulando significa menos incentivo pro assalto a pedestre. Quando a vítima não carrega nada que valha a pena roubar, o crime de rua perde o sentido econômico.
A terceira é mais estrutural: redução das disputas territoriais entre facções. O RS passou por anos de conflito intenso entre grupos criminosos em Porto Alegre e na região metropolitana. O arrefecimento desses conflitos — por dominância de um lado ou por acordos tácitos — tende a reduzir homicídios.
O efeito enchente de 2024 nos dados
As enchentes de maio de 2024 criaram uma anomalia nos dados: com parte da população deslocada, serviços de emergência sobrecarregados e delegacias alagadas, os registros caíram bruscamente em maio e junho. Isso precisa ser levado em conta ao comparar 2024 com outros anos. A queda real de 2024 existe — mas é menor do que os números brutos sugerem.
O que é mais difícil de explicar é a persistência. Quedas abruptas podem ser anomalias. Quedas que duram quatro anos e se confirmam a cada mês de 2026 são tendência.
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ANO ELEITORAL: O QUE ISSO SIGNIFICA
2026 é ano de eleição pra governador. E segurança pública, no RS, é o tema que mais aparece nas pesquisas de intenção de voto. Esses números vão ser usados — e disputados.
O governo atual vai levantar os indicadores de queda como prova de eficiência. A oposição vai apontar os feminicídios, a subnotificação e os crimes digitais que continuam crescendo. Ambos têm razão parcial.
O que os dados mostram é que o RS de 2026 é menos violento do que o RS de 2022 em praticamente todos os indicadores de crime físico. Essa é uma melhora real, documentada, verificável.
O que os dados não mostram é igualmente importante: estelionato bateu 100 mil registros em 2025 e segue crescendo. Feminicídios resistem às políticas públicas tradicionais. E uma parcela desconhecida dos crimes — especialmente domésticos — nunca chega ao boletim de ocorrência.
3.O RS é mais seguro em 2026 — mas não pra todo mundo da mesma forma
A queda dos crimes de rua é real e expressiva. Mas ela é vivida de forma diferente por quem mora em bairros periféricos vs centrais, por quem usa transporte coletivo vs carro próprio, e — especialmente — por mulheres em situação de violência doméstica. Segurança pública que não alcança o ambiente doméstico é uma segurança incompleta.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), registros individuais de boletins de ocorrência disponibilizados sob a Lei Estadual 15.610/2021.
Período: janeiro de 2022 a janeiro de 2026. Todos os dados de 2026 são preliminares (apenas janeiro disponível até o momento desta análise).
Definições:
- Homicídio doloso: registros com tipo_enquadramento = "HOMICIDIO DOLOSO". Exclui homicídio culposo, culposo na direção de veículo e decorrente de oposição à intervenção policial.
- Feminicídio: registros contendo "FEMINICIDIO" no tipo_enquadramento (inclui variantes como "FEMINICIDIO ART 121 PAR 2 VI" e "FEMINICIDIO").
- Roubo a pedestre: registros com tipo_enquadramento "ROUBO A PEDESTRE", "ROUBO A PEDESTRE COM LESOES" e "ROUBO A PEDESTRE COM MORTE".
- Roubo de veículo: "ROUBO DE VEICULO", "ROUBO DE VEICULO COM LESOES" e "ROUBO DE VEICULO COM MORTE".
- Roubo em transporte coletivo: "ROUBO A PASSAGEIRO TRANSP. COLETIVO E LOTACAO" e "ROUBO A TRANSPORTE COLETIVO".
Nota sobre 2024: as enchentes de maio de 2024 afetaram os registros de maio e junho daquele ano. Os números de 2024 refletem esse efeito — a queda real existe mas parte dela é explicada pela anomalia do período de desastre.
Limitações: os dados representam exclusivamente crimes formalmente registrados. Subnotificação é especialmente elevada em crimes domésticos e feminicídios — os números reais podem ser maiores do que os registros indicam. Extração realizada em 12 de abril de 2026.