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Enchentes de 2024 e criminalidade no RS: o que os dados mostram

Por Israel Lehnen Silva·Metodologia

Verificado em 29 de março de 2026

Análise dos registros de ocorrência da SSP/RS em Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo e Eldorado do Sul antes, durante e depois das enchentes de maio de 2024.

Rio Grande do SulEnchentes 2024Análise de DadosSegurança Pública

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Destaques
Queda em maio
-46%
Porto Alegre registrou 6.725 ocorrências em maio de 2024, contra 12.458 no mesmo mês de 2023.

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu a pior enchente da sua história. Foram 183 mortos, mais de 2 milhões de pessoas afetadas e cidades inteiras submersas. Mas enquanto a água subia, o que acontecia com a criminalidade?

Porto Alegre
Porto Alegre, RS

01

O QUE ACONTECEU EM MAIO DE 2024

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou a pior enchente de sua história recente. As chuvas que começaram em 29 de abril causaram inundações em mais de 400 municípios, forçando a evacuação de centenas de milhares de pessoas e paralisando a infraestrutura da Região Metropolitana de Porto Alegre.

Este artigo examina como esse evento se refletiu nos registros de ocorrência policial em quatro dos municípios mais atingidos: Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo e Eldorado do Sul. Para contextualizar os números, incluímos Caxias do Sul como município de controle — uma cidade de porte comparável que não foi afetada pelas enchentes.

02

O DADO PRINCIPAL

Porto Alegre registrou 6.725 ocorrências em maio de 2024, contra 12.458 no mesmo mês de 2023. Uma queda de 46%.

Queda nos registros durante o mês mais crítico das enchentes.
Maio de 2023
12.458
→
Maio de 2024
6.725
Variação: -46,0%

Não foi um caso isolado. As quatro cidades afetadas apresentaram quedas expressivas entre maio e julho:

MunicípioMaio a julho de 2023Maio a julho de 2024Variação
Porto Alegre35.12625.198-28,3%
Canoas7.5786.256-17,4%
São Leopoldo4.1473.108-25,1%
Eldorado do Sul844560-33,6%
Caxias do Sul (controle)7.4056.701-9,5%

A queda foi mais aguda em maio e se atenuou nos meses seguintes. Em Porto Alegre, a variação mensal em relação ao mesmo mês de 2023 foi de -46% em maio, -21% em junho e -16% em julho.

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03

O MUNICÍPIO DE CONTROLE

Uma pergunta natural diante desses números: a queda foi específica das áreas atingidas ou houve uma tendência de redução em todo o estado?

Para responder, incluímos Caxias do Sul na análise. A cidade fica na serra gaúcha, a cerca de 130 km de Porto Alegre, e não foi atingida pelas enchentes. Seu volume de ocorrências é comparável ao de Canoas, o que permite uma comparação direta.

Entre maio e julho, Caxias do Sul registrou uma queda de 9,5% em relação a 2023. Essa redução existe, mas é duas a três vezes menor do que a observada nos municípios atingidos. Em julho, Caxias do Sul já havia retornado ao patamar de 2023 (+2,9%), enquanto Porto Alegre ainda registrava -16% e Eldorado do Sul, -35%.

A diferença sustenta a leitura de que as enchentes tiveram um efeito específico sobre os registros de criminalidade nas áreas afetadas, para além de qualquer tendência estadual.

Explorador de cidades
Compare rapidamente o total de ocorrências entre maio-julho de 2023 e 2024
maio-jul 2023
35.126
maio-jul 2024
25.198
Porto Alegre: queda de 28,3% — queda mais intensa no conjunto analisado.

04

O QUE CAIU MAIS

Quais tipos de crime foram mais afetados pela paralisação da cidade? A resposta depende de uma distinção simples: crimes que exigem presença física versus crimes que não exigem.

CategoriaMaio a julho de 2023Maio a julho de 2024Variação
Roubos4.5141.633-63,8%
Apreensões de drogas1.749793-54,7%
Furtos6.5374.135-36,7%
Estelionato e fraudes6.0344.624-23,4%

Roubos — que dependem de vítimas circulando em espaços públicos — praticamente desapareceram durante o pico da enchente. A queda nas apreensões de drogas provavelmente reflete a suspensão de operações policiais proativas durante o período de resposta emergencial, não uma redução no tráfico em si.

Furtos tiveram queda expressiva, consistente com a evacuação de áreas residenciais e comerciais. Estelionato e fraudes, que incluem golpes digitais, caíram menos: crimes que não exigem presença física são menos afetados pela paralisação da cidade.

Eldorado do Sul: o único aumento registrado

Em Eldorado do Sul — um dos municípios mais devastados pelas enchentes — furtos subiram de 100 para 134 ocorrências entre maio e julho, um aumento de 34%. Foi o único movimento ascendente em todo o conjunto de dados. Os números absolutos são baixos (34 registros a mais em três meses), mas o padrão é consistente com relatos de saques em áreas evacuadas. Dado o tamanho da amostra, essa observação deve ser lida como indicativa, não conclusiva.

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05

O QUE MUDOU MENOS

Nem todas as categorias acompanharam a queda dos crimes de rua. Em Porto Alegre, entre maio e julho de 2024:

  • Ameaças caíram apenas 10,7% (de 3.036 para 2.712 registros).
  • Lesão corporal caiu apenas 6,4% (de 1.407 para 1.317 registros).

A diferença é marcante: enquanto roubos caíram 64%, a violência interpessoal — que acontece dentro de casas, abrigos e alojamentos — mal se alterou. É possível, inclusive, que a queda observada reflita mais a dificuldade de denúncia durante a crise do que uma redução real. A literatura sobre desastres naturais aponta consistentemente para o aumento da violência doméstica em contextos de deslocamento e abrigo coletivo.

Ameaças
A retração foi pequena em comparação com os crimes patrimoniais.
Maio-jul 20242.712
Rio Grande do Sul
Rio Grande do Sul

06

A RECUPERAÇÃO NO SEGUNDO SEMESTRE

A partir de agosto de 2024, os registros começaram a se normalizar, mas de forma desigual entre as categorias. Roubos e apreensões de drogas permaneceram significativamente abaixo do nível de 2023: a cidade ainda estava em processo de reconstrução, com áreas inteiras inacessíveis ou desocupadas.

A inversão mais relevante está nos registros de ameaças. Não apenas se recuperaram como superaram o nível de 2023 (+3,8%). Lesão corporal ficou 2,9% abaixo. Mesmo assim, o contraste entre o recuo modesto da violência interpessoal e a queda persistente dos crimes patrimoniais é o dado mais significativo para formuladores de política pública.

CategoriaAgosto a dezembro de 2023Agosto a dezembro de 2024Variação
Roubos5.5543.758-32,3%
Apreensões de drogas2.1581.330-38,4%
Ameaças5.4755.682+3,8%
Lesão corporal2.8532.770-2,9%

07

O QUE 2025 SUGERE

Em 2025, os registros de Porto Alegre ficaram 5,6% abaixo do nível de 2023. Caxias do Sul, no mesmo período, registrou aumento de 1,7%. A diferença de cerca de 7 pontos percentuais sugere que parte da defasagem ainda é atribuível ao impacto das enchentes, mas, sem dados de anos anteriores a 2022, não é possível isolar esse efeito de tendências preexistentes.

Comparativo completo: 2025 versus 2023
MunicípioTotal em 2023Total em 2025Variação
Porto Alegre138.783131.000-5,6%
Canoas29.64628.027-5,5%
São Leopoldo17.11115.201-11,2%
Eldorado do Sul3.1392.979-5,1%
Caxias do Sul (controle)29.97930.501+1,7%

A categoria com maior defasagem persistente é roubos, que em Porto Alegre permanece mais de 40% abaixo do patamar de 2023.

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08

O QUE OS DADOS NÃO PERMITEM CONCLUIR

1.Queda nos registros pode refletir barreiras ao registro, não redução do crime

Delegacias ficaram alagadas, populações foram deslocadas e os serviços de emergência operaram sob sobrecarga extrema. Muitas vítimas podem simplesmente não ter conseguido registrar ocorrências.

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2.Múltiplas causas produzem o mesmo padrão observado

O deslocamento populacional remove tanto vítimas quanto agressores de uma área. A destruição de infraestrutura impede registros. A realocação policial para operações de resgate suspende o policiamento proativo. Não é possível, com estes dados, separar esses efeitos.

3.Amostras pequenas limitam a interpretação

Eldorado do Sul registra em média 250 ocorrências por mês. Homicídios são casos de um dígito por cidade por mês. Variações percentuais sobre bases pequenas são ruidosas e não devem ser lidas como tendências confiáveis.

Esta análise descreve variações nos registros policiais. Ela não mede a criminalidade real — e a diferença entre os dois é especialmente grande durante desastres.

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09

METODOLOGIA E FONTES

Metodologia, fonte, ressalvas e limites

Ressalva central: uma queda nos registros de ocorrência não significa necessariamente uma queda na criminalidade real. Delegacias alagadas, populações deslocadas e serviços de emergência sobrecarregados reduzem a capacidade de registro. Esta é uma análise descritiva de dados registrados, não uma medida direta da atividade criminal.

Fonte dos dados: Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), registros individuais de boletins de ocorrência disponibilizados sob a Lei Estadual 15.610/2021 (dados abertos de segurança pública).

Período: janeiro de 2023 a dezembro de 2025, totalizando aproximadamente 3 milhões de registros para todo o estado.

Municípios analisados: Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo e Eldorado do Sul — quatro dos municípios mais afetados pelas enchentes de maio de 2024. Caxias do Sul foi incluída como município de controle por não ter sido atingida e por ter volume de ocorrências comparável.

Agrupamento de categorias: os mais de 200 tipos de enquadramento da SSP/RS foram agrupados em 8 categorias analíticas: roubos, furtos, estelionato e fraudes, apreensões de drogas, ameaças e violência doméstica, lesão corporal, homicídios e outros. O mapeamento completo está documentado nos scripts de extração.

Limitações: os dados representam exclusivamente crimes registrados em boletins de ocorrência. Este é um exercício descritivo. Não fazemos inferências causais.

Reprodutibilidade: os scripts de extração, consultas SQL e arquivos CSV utilizados nesta análise estão disponíveis no repositório do projeto Crime Brasil. Extração realizada em 18 de março de 2026.

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. Enchentes de 2024 e criminalidade no RS: o que os dados mostram. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/enchentes-2024-criminalidade-rs>. Acesso em: 20 out. 2026.

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Fundador · Portal Atibaia News

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