Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu a pior enchente da sua história. Foram 183 mortos, mais de 2 milhões de pessoas afetadas e cidades inteiras submersas. Mas enquanto a água subia, o que acontecia com a criminalidade?

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O QUE ACONTECEU EM MAIO DE 2024
Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou a pior enchente de sua história recente. As chuvas que começaram em 29 de abril causaram inundações em mais de 400 municípios, forçando a evacuação de centenas de milhares de pessoas e paralisando a infraestrutura da Região Metropolitana de Porto Alegre.
Este artigo examina como esse evento se refletiu nos registros de ocorrência policial em quatro dos municípios mais atingidos: Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo e Eldorado do Sul. Para contextualizar os números, incluímos Caxias do Sul como município de controle — uma cidade de porte comparável que não foi afetada pelas enchentes.
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O DADO PRINCIPAL
Porto Alegre registrou 6.725 ocorrências em maio de 2024, contra 12.458 no mesmo mês de 2023. Uma queda de 46%.
Não foi um caso isolado. As quatro cidades afetadas apresentaram quedas expressivas entre maio e julho:
| Município | Maio a julho de 2023 | Maio a julho de 2024 | Variação |
|---|---|---|---|
| Porto Alegre | 35.126 | 25.198 | -28,3% |
| Canoas | 7.578 | 6.256 | -17,4% |
| São Leopoldo | 4.147 | 3.108 | -25,1% |
| Eldorado do Sul | 844 | 560 | -33,6% |
| Caxias do Sul (controle) | 7.405 | 6.701 | -9,5% |
A queda foi mais aguda em maio e se atenuou nos meses seguintes. Em Porto Alegre, a variação mensal em relação ao mesmo mês de 2023 foi de -46% em maio, -21% em junho e -16% em julho.
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O MUNICÍPIO DE CONTROLE
Uma pergunta natural diante desses números: a queda foi específica das áreas atingidas ou houve uma tendência de redução em todo o estado?
Para responder, incluímos Caxias do Sul na análise. A cidade fica na serra gaúcha, a cerca de 130 km de Porto Alegre, e não foi atingida pelas enchentes. Seu volume de ocorrências é comparável ao de Canoas, o que permite uma comparação direta.
Entre maio e julho, Caxias do Sul registrou uma queda de 9,5% em relação a 2023. Essa redução existe, mas é duas a três vezes menor do que a observada nos municípios atingidos. Em julho, Caxias do Sul já havia retornado ao patamar de 2023 (+2,9%), enquanto Porto Alegre ainda registrava -16% e Eldorado do Sul, -35%.
A diferença sustenta a leitura de que as enchentes tiveram um efeito específico sobre os registros de criminalidade nas áreas afetadas, para além de qualquer tendência estadual.
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O QUE CAIU MAIS
Quais tipos de crime foram mais afetados pela paralisação da cidade? A resposta depende de uma distinção simples: crimes que exigem presença física versus crimes que não exigem.
| Categoria | Maio a julho de 2023 | Maio a julho de 2024 | Variação |
|---|---|---|---|
| Roubos | 4.514 | 1.633 | -63,8% |
| Apreensões de drogas | 1.749 | 793 | -54,7% |
| Furtos | 6.537 | 4.135 | -36,7% |
| Estelionato e fraudes | 6.034 | 4.624 | -23,4% |
Roubos — que dependem de vítimas circulando em espaços públicos — praticamente desapareceram durante o pico da enchente. A queda nas apreensões de drogas provavelmente reflete a suspensão de operações policiais proativas durante o período de resposta emergencial, não uma redução no tráfico em si.
Furtos tiveram queda expressiva, consistente com a evacuação de áreas residenciais e comerciais. Estelionato e fraudes, que incluem golpes digitais, caíram menos: crimes que não exigem presença física são menos afetados pela paralisação da cidade.
Eldorado do Sul: o único aumento registrado
Em Eldorado do Sul — um dos municípios mais devastados pelas enchentes — furtos subiram de 100 para 134 ocorrências entre maio e julho, um aumento de 34%. Foi o único movimento ascendente em todo o conjunto de dados. Os números absolutos são baixos (34 registros a mais em três meses), mas o padrão é consistente com relatos de saques em áreas evacuadas. Dado o tamanho da amostra, essa observação deve ser lida como indicativa, não conclusiva.
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O QUE MUDOU MENOS
Nem todas as categorias acompanharam a queda dos crimes de rua. Em Porto Alegre, entre maio e julho de 2024:
- Ameaças caíram apenas 10,7% (de 3.036 para 2.712 registros).
- Lesão corporal caiu apenas 6,4% (de 1.407 para 1.317 registros).
A diferença é marcante: enquanto roubos caíram 64%, a violência interpessoal — que acontece dentro de casas, abrigos e alojamentos — mal se alterou. É possível, inclusive, que a queda observada reflita mais a dificuldade de denúncia durante a crise do que uma redução real. A literatura sobre desastres naturais aponta consistentemente para o aumento da violência doméstica em contextos de deslocamento e abrigo coletivo.

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A RECUPERAÇÃO NO SEGUNDO SEMESTRE
A partir de agosto de 2024, os registros começaram a se normalizar, mas de forma desigual entre as categorias. Roubos e apreensões de drogas permaneceram significativamente abaixo do nível de 2023: a cidade ainda estava em processo de reconstrução, com áreas inteiras inacessíveis ou desocupadas.
A inversão mais relevante está nos registros de ameaças. Não apenas se recuperaram como superaram o nível de 2023 (+3,8%). Lesão corporal ficou 2,9% abaixo. Mesmo assim, o contraste entre o recuo modesto da violência interpessoal e a queda persistente dos crimes patrimoniais é o dado mais significativo para formuladores de política pública.
| Categoria | Agosto a dezembro de 2023 | Agosto a dezembro de 2024 | Variação |
|---|---|---|---|
| Roubos | 5.554 | 3.758 | -32,3% |
| Apreensões de drogas | 2.158 | 1.330 | -38,4% |
| Ameaças | 5.475 | 5.682 | +3,8% |
| Lesão corporal | 2.853 | 2.770 | -2,9% |
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O QUE 2025 SUGERE
Em 2025, os registros de Porto Alegre ficaram 5,6% abaixo do nível de 2023. Caxias do Sul, no mesmo período, registrou aumento de 1,7%. A diferença de cerca de 7 pontos percentuais sugere que parte da defasagem ainda é atribuível ao impacto das enchentes, mas, sem dados de anos anteriores a 2022, não é possível isolar esse efeito de tendências preexistentes.
Comparativo completo: 2025 versus 2023
| Município | Total em 2023 | Total em 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Porto Alegre | 138.783 | 131.000 | -5,6% |
| Canoas | 29.646 | 28.027 | -5,5% |
| São Leopoldo | 17.111 | 15.201 | -11,2% |
| Eldorado do Sul | 3.139 | 2.979 | -5,1% |
| Caxias do Sul (controle) | 29.979 | 30.501 | +1,7% |
A categoria com maior defasagem persistente é roubos, que em Porto Alegre permanece mais de 40% abaixo do patamar de 2023.
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O QUE OS DADOS NÃO PERMITEM CONCLUIR
1.Queda nos registros pode refletir barreiras ao registro, não redução do crime
Delegacias ficaram alagadas, populações foram deslocadas e os serviços de emergência operaram sob sobrecarga extrema. Muitas vítimas podem simplesmente não ter conseguido registrar ocorrências.
2.Múltiplas causas produzem o mesmo padrão observado
O deslocamento populacional remove tanto vítimas quanto agressores de uma área. A destruição de infraestrutura impede registros. A realocação policial para operações de resgate suspende o policiamento proativo. Não é possível, com estes dados, separar esses efeitos.
3.Amostras pequenas limitam a interpretação
Eldorado do Sul registra em média 250 ocorrências por mês. Homicídios são casos de um dígito por cidade por mês. Variações percentuais sobre bases pequenas são ruidosas e não devem ser lidas como tendências confiáveis.
Esta análise descreve variações nos registros policiais. Ela não mede a criminalidade real — e a diferença entre os dois é especialmente grande durante desastres.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Ressalva central: uma queda nos registros de ocorrência não significa necessariamente uma queda na criminalidade real. Delegacias alagadas, populações deslocadas e serviços de emergência sobrecarregados reduzem a capacidade de registro. Esta é uma análise descritiva de dados registrados, não uma medida direta da atividade criminal.
Fonte dos dados: Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), registros individuais de boletins de ocorrência disponibilizados sob a Lei Estadual 15.610/2021 (dados abertos de segurança pública).
Período: janeiro de 2023 a dezembro de 2025, totalizando aproximadamente 3 milhões de registros para todo o estado.
Municípios analisados: Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo e Eldorado do Sul — quatro dos municípios mais afetados pelas enchentes de maio de 2024. Caxias do Sul foi incluída como município de controle por não ter sido atingida e por ter volume de ocorrências comparável.
Agrupamento de categorias: os mais de 200 tipos de enquadramento da SSP/RS foram agrupados em 8 categorias analíticas: roubos, furtos, estelionato e fraudes, apreensões de drogas, ameaças e violência doméstica, lesão corporal, homicídios e outros. O mapeamento completo está documentado nos scripts de extração.
Limitações: os dados representam exclusivamente crimes registrados em boletins de ocorrência. Este é um exercício descritivo. Não fazemos inferências causais.
Reprodutibilidade: os scripts de extração, consultas SQL e arquivos CSV utilizados nesta análise estão disponíveis no repositório do projeto Crime Brasil. Extração realizada em 18 de março de 2026.