
Em 2025, um idoso gaúcho tinha 13 vezes mais chance de ser enganado do que assaltado.
Não é uma estimativa. É o que os boletins de ocorrência do Rio Grande do Sul mostram: 30.762 casos de estelionato a pessoas com 60 anos ou mais, contra 2.344 roubos no mesmo período.
O crime não sumiu. Ele mudou de endereço.
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A INVERSÃO: GOLPE SOBE, ROUBO CAI
Entre 2023 e 2025, dois movimentos opostos se consolidaram no RS para quem tem 60 anos ou mais.
O roubo físico recuou 32%. O estelionato cresceu 47%. As duas curvas se afastam no tempo — e revelam uma transferência de risco que a maioria das pessoas ainda não percebeu.
| 2023 | 2024 | 2025 | Variação | |
|---|---|---|---|---|
| Estelionato 60+ | 20.939 | 23.102 | 30.762 | +47% |
| Roubo 60+ | 3.423 | 2.567 | 2.344 | −32% |
A lógica do crime de rua depende de presença física: o assaltante precisa estar no mesmo lugar que a vítima. Policiamento, câmeras, mudança de hábito — tudo isso eleva o custo da abordagem presencial.
O golpe digital não tem essa limitação. Não exige rua. Não exige horário. E pode escalar para centenas de vítimas simultâneas a partir de um único celular.
1.Em 2025, para idosos gaúchos, o golpe digital é 13 vezes mais frequente que o roubo físico
30.762 casos de estelionato contra 2.344 roubos. A ameaça não está mais na esquina — está na tela.
Isso não significa que o roubo deixou de existir. Significa que, na escala do risco cotidiano, o golpe se tornou a ameaça dominante — e ainda é tratada como secundária por grande parte das políticas públicas e da atenção familiar.
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QUANDO O GOLPE ACONTECE
O golpista não trabalha de madrugada. Trabalha no horário comercial.
O pico de estelionato a idosos é às 10 da manhã. Depois vem o almoço — e o telefone toca de novo. À tarde, entre 14h e 15h, nova escalada.
O padrão é consistente com o que criminologistas chamam de "engenharia social em horário de rotina": a vítima está acordada, em atividade normal, e o alerta cognitivo está em modo cotidiano — não em modo de defesa.
Às 10h da manhã, uma ligação de "banco", "Receita Federal" ou "operadora" entra como parte da rotina. A guarda baixa.
2.O pico de golpes a idosos é às 10h da manhã — não à noite, não de madrugada
84% dos registros de estelionato a idosos acontece entre 8h e 18h. O crime usa o horário comercial como cobertura.
O contraste com o roubo é direto: o assalto físico a idosos se concentra no fim da tarde e início da noite — quando há mais movimentação nas ruas. O golpe funciona na lógica oposta: usa o horário em que a vítima está em casa, acordada, e com o telefone na mão.
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QUEM É ATINGIDO
53% das vítimas de fraude eletrônica com 60 anos ou mais são mulheres.
O dado vai contra o estereótipo do golpe como crime que afeta mais homens. No universo digital — especialmente quando se trata de idosos — mulheres são a maioria das vítimas registradas.
| Tipo de golpe | Feminino | Masculino | % Feminino |
|---|---|---|---|
| Estelionato | 10.960 | 9.528 | 53% |
| Fraude eletrônica | 2.674 | 2.457 | 52% |
| Outras fraudes | 2.704 | 2.410 | 53% |
Dois fatores estruturais ajudam a explicar. Primeiro, mulheres vivem mais — há mais idosas do que idosos no Brasil. Segundo, mulheres idosas que vivem sós, sem rede de suporte próxima, são alvos frequentes de golpes que exploram a solidão: o "neto preso", a "filha em acidente", o "namorado online".
Mas o dado mais revelador é a progressão por faixa etária. Quanto mais velho, maior a fatia dos crimes que é estelionato:
Para jovens até 29 anos, 12% dos crimes sofridos são golpes. Para idosos, são 28% — quase o dobro. O roubo vai na direção contrária: jovens são proporcionalmente os mais roubados; idosos, os menos.
É uma lógica perversa de seletividade criminal: cada faixa de idade tem seus criminosos preferindo vítimas específicas. Para os golpistas digitais, a faixa 60+ combina fatores: acesso a renda fixa (aposentadoria), menor familiaridade com fraudes sofisticadas, e maior disposição de confiar em figuras de autoridade.
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A EXPLOSÃO DA FRAUDE ELETRÔNICA
Dentro do estelionato, há uma modalidade que cresceu muito além das outras: a fraude eletrônica.
O tipo de enquadramento Estelionato — Fraude Eletrônica passou de 1.029 casos em 2023 para 5.134 em 2025 entre vítimas com 60 anos ou mais. Um crescimento de 399% em dois anos.
| Ano | Fraude eletrônica 60+ | Variação |
|---|---|---|
| 2023 | 1.029 | — |
| 2024 | 3.366 | +227% |
| 2025 | 5.134 | +52% |
É o crime que cresce mais rápido no universo de vitimização de idosos — e coincide com a expansão dos golpes por PIX, links maliciosos, clonagem de WhatsApp e, mais recentemente, deepfakes de voz e imagem que imitam parentes.
A tecnologia que facilitou a vida financeira dos idosos — Pix instantâneo, celular bancário, autenticação por biometria — criou também novas superfícies de ataque. O golpista evoluiu junto.
3.Fraude eletrônica a idosos cresceu 399% em dois anos — de 1.029 para 5.134 casos registrados
O crescimento é quase quatro vezes o valor original em apenas dois anos. A tendência não dá sinais de estabilização.
05
ONDE O CRIME ACONTECE — E ONDE NÃO ACONTECE
A grande revelação sobre o golpe digital a idosos é geográfica: ele praticamente não acontece na rua.
Em Porto Alegre, analisando o local registrado nos boletins de estelionato de vítimas com 60 anos ou mais, a via pública representa menos de 5% dos casos. A maior parte está classificada como "outros" — categoria que inclui crimes por telefone e internet, sem localização física definível — seguida de residência (26%) e estabelecimento comercial (6%).
| Local do crime | Registros | % |
|---|---|---|
| Telefone/internet (sem local físico) | 13.312 | 62,7% |
| Residência | 5.486 | 25,9% |
| Estabelecimento comercial | 1.311 | 6,2% |
| Via pública | 1.018 | 4,8% |
| Outros | 89 | 0,4% |
O crime que mais afeta idosos gaúchos hoje não acontece em nenhuma rua específica. Acontece na memória de contatos do celular, no aplicativo de banco, no link que chegou por SMS.
Em Porto Alegre, os bairros com mais registros de estelionato a idosos em 2025 concentram-se no Centro Histórico e nos bairros com maior população idosa:
Esses números, porém, devem ser lidos com cautela. O endereço registrado é geralmente a residência da vítima, não o local do crime — que, na maioria dos casos, é intangível.
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O QUE OS DADOS NÃO MOSTRAM
Os 30.762 casos de 2025 são um piso, não um teto.
O estelionato digital é estruturalmente subnotificado. Muitas vítimas sentem vergonha de ter "caído no golpe". Outras acreditam que não adianta registrar boletim — que o dinheiro está perdido e a investigação não vai a lugar nenhum. Há quem nem perceba que foi enganado, especialmente quando o golpe é sofisticado e a perda é gradual.
Pesquisas nacionais estimam que apenas uma fração dos golpes digitais resulta em boletim de ocorrência. Os números aqui são o que chegou às delegacias. O que ficou no silêncio das residências é um dado que os registros nunca vão capturar.
Outro limite: os dados capturam o boletim, não a resolução. Não é possível saber, a partir desta fonte, quantas vítimas recuperaram o dinheiro ou quais tipos de golpe geraram mais prejuízo financeiro.
07
COMO SE PROTEGER
Nenhuma lista de dicas elimina o risco — mas algumas práticas reduzem significativamente a exposição:
Regra do tempo: qualquer pedido de dinheiro urgente, transferência imediata ou "confirmação de dados" por telefone ou mensagem pede uma pausa. Golpistas dependem da urgência para impedir que a vítima consulte um familiar ou o banco físico.
Nunca confirme dados por ligação recebida: banco, Receita, operadora, INSS — nenhum desses órgãos pede senha, token ou dados completos por ligação ativa. Se você recebeu a ligação, desconfie. Encerre e ligue de volta para o número oficial.
Ative bloqueios preventivos: o Banco Central disponibiliza o sistema de agendamento de PIX com intervalo mínimo — reduz a janela de ação de golpistas em tempo real.
Conversa preventiva: a proteção mais eficaz ainda é o diálogo dentro da família. Idosos que sabem como os golpes funcionam reconhecem os padrões mais cedo.
Para denunciar:
- Delegacia de Crimes Cibernéticos (RS): Rua dos Andradas, 1312 — Porto Alegre. Ou registre o BO online em pc.rs.gov.br/servicos.
- Banco Central: via aplicativo ou central 145, em casos de fraude bancária.
- Procon-RS: para golpes envolvendo contratos e serviços. Telefone 0800 644 2002.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), registros individuais de boletins de ocorrência disponibilizados sob a Lei Estadual 15.610/2021.
Período: janeiro de 2023 a dezembro de 2025.
Critério de seleção — idosos: todas as ocorrências com campo idade_vitima igual ou superior a 60 anos, conforme definição do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003).
Estelionato: engloba os enquadramentos "Estelionato", "Estelionato — Fraude Eletrônica" e "Outras Fraudes". A fraude eletrônica é analisada separadamente por representar crescimento específico e modalidade tecnológica distinta.
Roubo: enquadramentos "Roubo a pedestre", "Roubo a mão armada" e demais tipos iniciados por "Roubo", conforme categorização SSP/RS.
Local do crime em Porto Alegre: o campo local_fato registra o tipo de ambiente da ocorrência. Crimes por telefone e internet são classificados como "Outros" na base da SSP/RS, por ausência de local físico definível. O endereço de bairro reflete, geralmente, a residência da vítima — não o local de ação do criminoso.
Proporção por faixa etária: calculada sobre total de ocorrências com idade registrada em 2025. Casos sem informação de idade foram excluídos.
Subnotificação: golpes digitais são estruturalmente subnotificados. Os números representam o que chegou a boletim de ocorrência. O total real de vitimizações é estimado como muito superior.
Reprodutibilidade: extração realizada em 23 de abril de 2026.