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Salvador é perigosa? O que os dados mostram

Por Valdo Stonehart·Metodologia

Verificado em 14 de setembro de 2026

O homicídio doloso em Salvador caiu 40% em quatro anos — de 43 para 26 por 100 mil habitantes. Mas quase 4 em cada 10 mortes violentas de 2025 foram causadas pela polícia, e essa parte não cedeu. A queda da violência criminal não é a queda da violência como um todo.

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Destaques
Homicídio doloso caiu
-40%
De 43 por 100 mil em 2022 para 26 por 100 mil em 2025. A maior queda em uma capital nordestina nos últimos anos.
Vista da orla de Salvador a partir da Baía de Todos os Santos, com os edifícios da Barra ao fundo.
Foto: Avinash Achar / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Salvador vista da Baía de Todos os Santos ainda parece a mesma — os altos edifícios da Barra, o verde da encosta, o farol. Pelourinho lotado, Ribeira cheia, a mesma poesia de sempre. Mas os números dos homicídios contaram uma história diferente nos últimos quatro anos, e ela merece ser lida com cuidado, porque o que melhorou e o que não melhorou não foram as mesmas coisas.

Em 2022, Salvador registrou 1.105 homicídios dolosos. Em 2025, foram 665. Uma queda de 40%, e na taxa por cem mil habitantes a redução foi de 43 para 26. Olhando só esse número, Salvador é uma das histórias de sucesso recentes entre as grandes capitais do país. Mas tem outra metade do gráfico que não cedeu na mesma proporção — e é essa metade que desfaz a leitura simples.

01

A QUEDA REAL

A curva do homicídio doloso em Salvador é uma das mais consistentes do país nos últimos anos. Não é um pico isolado caindo, nem um ano fora da série. São quatro anos seguidos de redução.

1.Quatro anos seguidos de queda. A maior entre as capitais nordestinas.

Foram 1.105 homicídios dolosos em 2022, 982 em 2023, 865 em 2024 e 665 em 2025. Na taxa por 100 mil habitantes, isso significa sair de 43 e chegar a 26 — uma redução de 40% em quatro anos. É o tipo de movimento que se vê quando alguma coisa muda de verdade, não quando o dado oscila.

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Quatrocentos e quarenta mortes a menos em quatro anos não é oscilação — é processo. Mas a curva conta só metade do que aconteceu em Salvador nesse período. A outra metade aparece quando se abre o mesmo gráfico em outra chave.

02

O ESTADO QUE NÃO PAROU DE MATAR

A SSP/BA separa, dentro das mortes violentas, o que é homicídio doloso e o que é morte por intervenção de agente do Estado. É a única capital brasileira com volume relevante que publica os dois números lado a lado com esse detalhe, e isso permite ver uma coisa que na maioria das capitais fica escondida no agregado.

2.Em 2025, 37% das mortes violentas de Salvador foram causadas pela polícia.

No ano passado, Salvador somou 1.132 mortes violentas: 665 homicídios dolosos e 418 mortes por intervenção policial — além de outros tipos letais em menor volume. A parcela da polícia é 37% do total. Nos 12 meses mais recentes (abr/2025 a mar/2026), foram 603 homicídios dolosos e 389 mortes por intervenção. A proporção se mantém.

A taxa por 100 mil habitantes mostra a assimetria com mais clareza. O homicídio doloso saiu de 43 e foi para 26. A morte por intervenção policial saiu de 17 e foi para 16. Em quatro anos, a criminalidade caiu quase pela metade; a letalidade policial oscilou em torno do mesmo valor.

Esse desencontro tem um nome em política de segurança: governança policial. Onde o homicídio doloso cai mas a morte por intervenção não cai junto, o que mudou não foi a violência como um todo — foi o lado do conflito que venceu. Em Salvador, a parte da violência que dependia da ação do Estado ficou estável.

Vale dizer com clareza: o número absoluto de mortes por intervenção policial é alto em qualquer comparação. Salvador tem, com folga, uma das maiores taxas de letalidade policial entre as capitais do Brasil — sem que essa seja uma manchete fácil, porque a narrativa consolidada da cidade é a da "vitória contra o crime".

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03

OS BAIRROS QUE AINDA SANGRAM

A média da cidade esconde o que acontece em cada bairro. Em Salvador, os bairros periféricos — os que ficam mais distantes do miolo turístico e econômico — concentram uma parte desproporcional das mortes. O padrão não é novo, e a queda do homicídio doloso não mudou o ranking: os mesmos bairros que sangravam antes continuam no topo.

3.São Cristóvão lidera em 2025 — e tem mais mortes por intervenção do que por homicídio doloso.

O bairro de São Cristóvão registrou 31 mortes violentas em 2025: 14 homicídios dolosos e 16 por intervenção policial — o segundo número é maior que o primeiro. Na outra ponta, São Caetano (28 mortes, 21 homicídios), Águas Claras (28, 12), Fazenda Coutos (27, 7) e Lobato (25, 16) também concentram volume alto de letalidade.

O padrão geográfico segue o que se vê na história recente da cidade: os bairros mais distantes do Centro, da Barra e da orla — onde o Estado tem presença menos permanente — concentram a maior parte da letalidade. O mesmo recorte explica por que a intervenção policial também pesa nesses bairros: a disputa territorial não tem só facção contra facção, tem Estado contra território.

É importante não confundir ranking de mortes com ranking de insegurança para o visitante. Os bairros listados não são destinos turísticos, e quem vai a Salvador curtir Pelourinho, Rio Vermelho e Barra dificilmente entra em contato com a violência que aparece nesses números. O risco real de Salvador existe, mas mora em outra geografia.

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04

POR QUE CAIU O HOMICÍDIO, MAS NÃO A LETALIDADE POLICIAL

Os dados mostram o quê. O porquê exige um passo de interpretação — e vale a cautela de sempre: o boletim de ocorrência registra a morte, não a motivação, e não traz um veredito sobre o que cada morte por intervenção "significou".

A queda do homicídio doloso em Salvador coincide com um período mais amplo de redução da violência no Nordeste. Entre 2022 e 2025, outras capitais da região também viram quedas expressivas, e a explicação mais aceita combina três coisas: redução da disputa entre facções em algumas praças, programas locais de investimento em mediação de conflito, e uma mudança operacional da polícia que privilegiou investigação em vez de confronto em certos territórios. Salvador se encaixa nesse movimento mais do que o contraria.

A estabilidade da letalidade policial, em paralelo, sugere que a redução da criminalidade não veio acompanhada de uma mudança equivalente na forma como a polícia se relaciona com a população nas áreas de maior risco. O número de operações policiais em bairros periféricos pode ter se mantido — ou até aumentado —, mesmo com menos confrontos resultando em morte de civis. Ou pode ter se mantido o mesmo número de confrontos, com resultado igual. Os dados abertos da SSP/BA não permitem separar esses cenários.

Há ainda um terceiro caminho, mais desconfortável: parte da redução do homicídio doloso pode ter sido compensada — no agregado da violência letal — pela manutenção das mortes por intervenção. Se a taxa de homicídio doloso caiu 40% mas a de intervenção ficou em 16, o que se reduziu de verdade foi o espaço entre os dois números, não a violência como um todo. Essa leitura é interpretativa e está marcada como tal.

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05

O QUE OS DADOS NÃO DIZEM

Esta análise descreve o que está registrado no SSP/BA — e é honesto dizer onde ela para.

Primeiro, a SSP/BA só publica — na base que alimenta o Crime Brasil — os crimes letais. Não há dado público de furto, roubo, estelionato ou lesão corporal por bairro em Salvador com a mesma granularidade temporal. O retrato de Salvador aqui é, portanto, um retrato da violência que mata, não da violência do dia a dia. Para essas outras dimensões, a capital baiana depende de pesquisas pontuais e levantamentos acadêmicos.

Segundo, a separação entre "homicídio doloso" e "morte por intervenção policial" é uma classificação jurídica, não uma descrição do que aconteceu em cada caso. Boa parte das mortes por intervenção policial registradas pela SSP/BA decorre de confronto armado com suspeitos; uma parte menor pode estar em situações-limite que o dado agregado não distingue. O número não é uma acusação e não é uma absolvição — é o que o boletim registra.

Terceiro, bairros com menos habitantes tendem a ter menos registros. O ranking dos dez bairros mais perigosos é dominado pelos bairros populosos da periferia — o que é um retrato real, mas não é o retrato completo: bairros menores podem ter taxas mais altas por habitante mesmo com menos casos absolutos.

Por fim, a redução observada em quatro anos é forte e sustentada, mas não é permanente por definição. Taxas podem voltar a subir se a conjuntura mudar — e a história da violência em capitais brasileiras mostra que reduções longas podem ser revertidas em poucos anos. O que esta análise sustenta com segurança é o que o dado mostra até aqui: o homicídio doloso caiu de forma consistente, a morte por intervenção policial não acompanhou.

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06

METODOLOGIA E FONTES

metodologia e limites

Fonte primária: SSP/BA (Secretaria da Segurança Pública da Bahia), base unificada de ocorrências, publicada mensalmente, ingerida pelo Crime Brasil em app.crimes_unified.

Janelas:

  • Tendência anual: anos-calendário completos de 2022, 2023, 2024 e 2025.
  • Perfil por tipo (12 meses): abril/2025 a março/2026.
  • Ranking por bairro: 2025 (ano-calendário completo).
  • 2026 incluído apenas para checagem de tendência (janeiro a março).

População: estimativa IBGE (Censo 2022), código municipal 2927408: 2.564.204 habitantes. Mesma base usada nas páginas de cidade do Crime Brasil.

Taxa por 100 mil: total de mortes no período ÷ 2.564.204 × 100.000. Mesma fórmula usada em todo o site.

Filtros de tipo: "homicídio doloso" = HOMICÍDIO DOLOSO (inclui os subtipos "Homicídio doloso com indício de excludente de ilicitude", "Homicídio ocorrido em presídio" e "Homicídio doloso no trânsito", que são variações jurídicas do mesmo evento). "Morte por intervenção policial" = MORTE POR INTERVENÇÃO LEGAL DE AGENTE DO ESTADO. Outros letais (lesão corporal seguida de morte, latrocínio, feminicídio, maus tratos com resultado morte) são contabilizados à parte e somados no agregado de mortes violentas.

Sobre a leitura de "letalidade policial": o dado mostra volume e tendência. Não classifica cada caso individualmente como "execução", "confronto" ou "resistência seguida de morte" — essa diferenciação exigiria acessar cada ocorrência. A análise compara o volume agregado entre anos e o compara com o homicídio doloso para evidenciar a assimetria entre os dois movimentos. Onde a leitura interpretativa começa, o texto sinaliza.

Sobre o bairro: o ranking é construído direto sobre a coluna bairro da tabela, sem GeoJSON de bairros para a Bahia no snapshot do Crime Brasil — por isso o gráfico não linkifica para páginas de bairro. Todos os 5.831 registros de Salvador no banco têm bairro preenchido (100% de cobertura), o que torna o ranking representativo.

Sobre a fonte e a cobertura: a SSP/BA publica somente a parte letal da base. Crimes patrimoniais (furto, roubo, estelionato) não estão disponíveis para Salvador com a mesma granularidade e por isso não aparecem nesta análise.

Perguntas frequentes

Afinal, Salvador é perigosa? Depende do do que se compara. Pelos dados oficiais de 2025, Salvador tem 26 homicídios dolosos por 100 mil habitantes — uma taxa alta, mas em queda consistente há quatro anos. Para o visitante que circula pelas zonas turísticas e comerciais (Pelourinho, Barra, Rio Vermelho, Centro), o risco imediato é baixo. Para o morador dos bairros periféricos que lideram o ranking, o risco é alto e persistente, e a letalidade policial responde por uma parte expressiva dele.

Então Salvador está mais segura? Em parte, sim. A taxa de homicídio doloso caiu 40% entre 2022 e 2025, e essa é uma redução real, com efeito sobre a vida de muita gente. Mas a "violência como um todo" não caiu na mesma proporção — porque a morte por intervenção policial, que responde por mais de um terço das mortes violentas da cidade, ficou praticamente estável. É mais correto dizer que Salvador está mais segura contra parte da violência, mas não contra toda.

Por que a letalidade policial não cai junto? Os dados abertos não permitem afirmar com certeza. As explicuções mais prováveis combinam: a operação policial nesses bairros se manteve na mesma intensidade; o tipo de confronto que gera morte civil não mudou de característica; e há um componente estrutural difícil de reverter com política de segurança — o Estado, nas áreas de disputa, opera em um registro de confronto onde a morte do suspeito é um desfecho frequente. Responder a essa pergunta de forma conclusiva exigiria outro tipo de dado, não disponível publicamente.

Os bairros perigosos são todos longe do turismo? Sim. O ranking dos dez bairros mais perigosos de 2025 (São Cristóvão, São Caetano, Águas Claras, Fazenda Coutos, Lobato, Mata Escura, Castelo Branco, Periperi, Rio Sena, Narandiba) é formado por bairros da periferia — Subúrbio Ferroviário, Miolo, Cajazeiras, Itapuã. Os bairros turísticos (Pelourinho, Barra, Rio Vermelho, Ondina) não aparecem no topo. Isso não quer dizer que não existe crime neles, mas a violência letal se concentra em outra geografia.

Esses dados são oficiais? Sim. Vêm da SSP/BA, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia, publicados mensalmente e ingeridos pelo Crime Brasil sem alteração além da normalização de nomes de município e bairro.


Última atualização: 14/09/2026. Próxima atualização prevista após a publicação dos dados de maio/2026 pela SSP/BA, normalmente no início do mês seguinte.

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. Salvador é perigosa? O que os dados mostram. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/salvador-e-perigosa-dados-2026>. Acesso em: 29 out. 2026.

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Jair Gonçalves
Fundador · Portal Atibaia News

Fundador do Portal Atibaia News, veículo de notícias de Atibaia (interior de São Paulo). Publicou com o dado do Crime Brasil o ranking de ocorrências por bairro da cidade.

“Parabéns à Crime Brasil pelo excelente trabalho de jornalismo de dados! As informações disponibilizadas possibilitaram ao Portal Atibaia News produzir uma importante matéria sobre os números de ocorrências policiais por bairro em Atibaia, levando informação e transparência aos nossos leitores. Muito obrigado.”
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Reportagem sobre violência fundiária e baixa punição de crimes ambientais na Amazônia, cruzando dados do Crime Brasil com CPT, Ibama, CNJ e MapBiomas.

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Fonte acadêmica
IHU · Unisinos
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Entrevista do Instituto Humanitas Unisinos que cita a plataforma como fonte de microdado criminal aberto.

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IBCCRIM · JCC
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Artigo no Jornal de Ciências Criminais sobre os limites do acesso a microdados criminais no Brasil, citando o Crime Brasil.

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