
Campinas vende bem a própria imagem. É a cidade da Unicamp, do polo de tecnologia, do aeroporto de Viracopos, dos condomínios que puxam gente da capital atrás de qualidade de vida. Quem pesquisa "bairros mais perigosos de Campinas" costuma estar justamente nessa hora: vai se mudar, vai estudar, vai abrir um negócio, e quer saber onde pisar.
A resposta curta dos boletins de ocorrência é o Centro. Em doze meses, de julho de 2025 a junho de 2026, foram 2.823 registros ali, mais que o triplo do segundo colocado. Só que essa resposta engana. Se a pergunta for onde se morre de forma violenta em Campinas, o Centro quase some da lista: teve 3 homicídios em dois anos.
Esse é o fio de toda esta análise. Campinas tem dois mapas de crime que quase não se tocam. Um é o do furto e do roubo, que segue o movimento: vai onde tem gente, comércio, carro estacionado. O outro é o da morte, que fica longe do centro, espalhado por dezenas de bairros pequenos da metade oeste da cidade, e por isso nenhum deles aparece no topo de ranking nenhum. Entender qual dos dois mapas importa pra você muda completamente a resposta.
01
O MAPA DO VOLUME: CENTRO E VIZINHOS
Quando se soma tudo o que a Polícia Civil registrou em Campinas no último ano, a lista dos bairros com mais ocorrências é quase um mapa do centro expandido. Centro, Cambuí, Vila Industrial, Vila Itapura, Taquaral, Botafogo: todos a poucos quilômetros do marco zero da cidade.
1.O Centro sozinho tem mais registros que os três bairros seguintes somados.
Foram 2.823 ocorrências no Centro em doze meses, cerca de 9% de tudo o que a cidade registrou. O Cambuí vem a seguir, com 907, e a Vila Industrial, com 751. Não é um centro "mais perigoso" por acaso. É o lugar por onde mais gente passa todo dia, e o crime de rua vai atrás de gente.
Relatório quinzenal de Campinas
Um e-mail a cada duas semanas, com o que mudou no número. Sem custo, e dá para sair a qualquer momento.
Qual seu interesse na região? (opcional)
Gratuito · Ao se cadastrar, você concorda com nossa política de privacidade. Cancele quando quiser.
Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
O que puxa esse volume é furto. No Centro, sete em cada dez registros são furto; no Cambuí, quase oito. É o celular que sai do bolso na calçada da 13 de Maio, a bolsa no ponto de ônibus, o carro arrombado na rua dos bares. Na cidade inteira, 71% das ocorrências acontecem em via pública. Cada bairro da lista tem o seu ímã: o comércio popular do Centro, a vida noturna do Cambuí, a rodoviária colada na Vila Industrial, o parque do Taquaral lotado no fim de semana, a Unicamp na Cidade Universitária.
O roubo, que é o furto com ameaça ou violência, segue o mesmo desenho. O Centro teve 462 roubos em doze meses, quase 12% de todos os roubos da cidade, e a Vila Industrial vem bem atrás, com 126. É o tipo de crime que assusta e que muda hábito, mas quase nunca mata. E é aqui que a história vira.
Veja Campinas no mapa do Crime Brasil
Filtre por tipo de crime, mês ou bairro e veja como o seu endereço se compara ao resto da cidade.
02
O MAPA DA MORTE: A METADE OESTE
Em dois anos, de julho de 2024 a junho de 2026, Campinas registrou 166 homicídios dolosos. Se a violência letal seguisse o mesmo mapa do furto, o Centro estaria lotado deles. Teve 3. O bairro com mais homicídios no período, o Conjunto Habitacional Parque Itajaí, teve 8. Depois vêm Jardim Florence (6) e Jardim Santa Lúcia (5).
2.A violência letal está espalhada. Por isso ela some do ranking de bairros.
Nenhum bairro de Campinas concentra muitas mortes, e isso não significa que elas sejam raras. Significa que estão diluídas em dezenas de jardins, conjuntos e parques pequenos, quase todos do mesmo lado da cidade. Quando o recorte muda de bairro para região, o padrão aparece com força: dos 114 homicídios com local registrado, 85 aconteceram na metade oeste do município.
Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
A metade oeste, aqui, é a faixa da cidade a partir de uns três quilômetros a oeste do Centro: as regiões do Campo Grande, do Ouro Verde e do Sudoeste, onde ficam o Parque Itajaí, o Jardim Florence, os DICs, o Parque Valença e o Campo Belo. Ela responde por 35% de tudo o que é registrado em Campinas, e só 28% dos furtos. Mas responde por 72% das tentativas de homicídio e 75% dos homicídios. A distância entre esses números é o retrato mais honesto de onde está o risco de vida na cidade.
A distinção que organiza a leitura é simples. Existe o crime de circulação, que depende de movimento: precisa de vítima passando, de loja aberta, de carro parado. E existe o crime de território, que depende de outra coisa: conflito entre pessoas que se conhecem, disputa local, pouca presença do Estado. O primeiro está no Centro e no Cambuí. O segundo está no oeste, e quase nunca atinge quem só está de passagem.
03
CAMPINAS ENTRE AS GRANDES DE SP
Olhar só pra dentro da cidade esconde uma coisa desconfortável. Pelo padrão paulista, Campinas mata mais do que as outras grandes.
3.A maior taxa de homicídio entre as grandes cidades de São Paulo em 2025.
Foram 79 homicídios dolosos em 2025, o que dá 6,7 por 100 mil habitantes. É mais que a capital (4,2), que Guarulhos (4,2) e que a média do estado (5,2). Só Sorocaba chega perto, com 6,5. No cenário nacional, onde a taxa fica na casa de 20, Campinas é uma cidade de violência letal baixa. No cenário paulista, é a mais alta entre as maiores.
Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
A boa notícia é que a curva vinha descendo. Campinas registrou 115 homicídios em 2022, 99 em 2023, 87 em 2024 e 79 em 2025, uma queda de 31% em três anos. O roubo caiu ainda mais no mesmo período, de 7.388 para 4.532 registros (39% a menos). Só o furto de veículo andou na contramão, subindo de 3.490 para 3.830.
Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
A notícia menos boa é 2026. No primeiro semestre, foram 47 homicídios, contra 40 no mesmo período de 2025. Com números desse tamanho, sete mortes a mais podem ser oscilação, e o segundo semestre ainda vai dizer muito. Mas é a primeira vez em quatro anos que um semestre vem pior que o anterior, e isso merece atenção, especialmente de quem mora no oeste.
Quer a análise completa de Campinas?
- Você vai se mudar para lá?
- Tem dúvida se a região é segura?
- Precisa avaliar um endereço específico?
Reúne num só documento todo o dado público sobre o lugar — crime, trânsito, saúde, educação, renda e imóveis — cruzado e explicado, no recorte do município.
04
POR QUE A VIOLÊNCIA SE DIVIDE ASSIM
O boletim de ocorrência registra o que aconteceu e onde, não o porquê. A explicação a seguir é interpretação, apoiada no padrão dos números e na história da cidade.
Campinas cresceu em duas direções diferentes. Para o leste e o norte, foram os bairros verticais, os condomínios, Barão Geraldo e a Unicamp. Para o oeste, do outro lado das rodovias, cresceu a cidade dos conjuntos habitacionais, dos loteamentos populares e das ocupações, boa parte erguida nas últimas décadas do século 20, longe do emprego e dos serviços. O Parque Itajaí, que lidera a lista de homicídios, é um conjunto habitacional. Os DICs, também. É um desenho que se repete em muitas metrópoles brasileiras: a violência letal acompanha a distância do Estado, não a quantidade de gente na rua.
Há também um fator paulista. São Paulo está, há quase duas décadas, entre os estados com as menores taxas de homicídio do país, e uma das hipóteses mais discutidas por pesquisadores é a de que a hegemonia de uma única facção no estado reduziu as disputas armadas entre grupos. Onde a taxa sobe, como em Campinas e Sorocaba, costuma haver algo local mexendo nesse equilíbrio: mercado de drogas, conflito interpessoal, ação policial. Os microdados não permitem separar essas causas, mas o fato de a morte se concentrar num lado só da cidade diz que ela não é aleatória.
Relatório quinzenal de Campinas
Um e-mail a cada duas semanas, com o que mudou no número. Sem custo, e dá para sair a qualquer momento.
Qual seu interesse na região? (opcional)
Gratuito · Ao se cadastrar, você concorda com nossa política de privacidade. Cancele quando quiser.
05
O QUE OS DADOS NÃO DIZEM
O ranking de bairros mede registro, não risco por pessoa. O Centro lidera porque por ali passa todo dia uma multidão que não mora lá. Um bairro residencial com menos ocorrências pode ser, proporcionalmente, mais arriscado pra quem vive nele. Os microdados da SSP não trazem população por bairro, então esta análise não calcula taxa bairro a bairro.
Os números de homicídio por bairro são pequenos. Oito mortes em dois anos no Parque Itajaí e seis no Jardim Florence são tragédias, mas não sustentam um ranking fino: uma morte a mais ou a menos muda a ordem. Por isso a leitura sólida aqui é a regional, com 114 homicídios georreferenciados, e não a posição exata de cada jardim. Também há registros com nome de bairro escrito de formas diferentes, que foram unificados, e 52 homicídios do período sem coordenada válida, que ficaram fora da conta regional.
Por fim, o boletim registra ocorrência, não vítima, e os meses mais recentes ainda podem receber registros atrasados. Os números de 2026 são parciais por definição. O que é sólido: o volume de crime patrimonial está no centro expandido, a violência letal está no oeste, e a cidade tem a maior taxa de homicídio entre as grandes paulistas.
Quer a análise completa deste lugar?
06
ENTÃO, ONDE PISAR?
Se você vai morar, estudar ou trabalhar no Centro, no Cambuí ou na Vila Industrial, o risco real é patrimonial: celular, bolsa, carro. É um risco alto em volume e bastante evitável com hábito, atenção a horário e cuidado com o que fica à vista. Pelos dados, raramente é um risco de vida.
A violência que mata em Campinas mora longe dessa vitrine, espalhada pelo oeste, e é por isso que ela quase nunca aparece quando alguém pergunta "qual o bairro mais perigoso". Ela não se resolve com mais policiamento no calçadão. Pede presença permanente, serviço público e investigação nos bairros onde a morte se repete, e pede que a cidade pare de medir segurança só pelo mapa do furto. Campinas tem dois mapas. Olhar só para um deles é a forma mais comum de errar a resposta.
07
METODOLOGIA E FONTES
metodologia e limites
Fonte primária: SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo), microdados de boletins de ocorrência do portal de transparência, com bairro, natureza apurada e coordenada de cada registro.
Janelas:
- Volume por bairro e perfil de crime: julho/2025 a junho/2026 (12 meses, 31.217 registros).
- Homicídio e tentativa por bairro e por região: julho/2024 a junho/2026 (24 meses), para reduzir a volatilidade de números pequenos.
- Tendência: anos-calendário completos de 2022 a 2025 e primeiro semestre de 2022 a 2026.
Bairros: nomes normalizados antes da soma (acentos, maiúsculas, abreviações JD/VL/PQ/STA e o sufixo "(CAMPINAS)"). "Itapura" e "Vila Itapura" foram unificados. 232 registros sem bairro informado ficaram fora do ranking.
Metade oeste: registros com longitude a oeste de 47,09° O, cerca de três quilômetros a oeste do Centro, com coordenada válida dentro do município. Inclui as regiões do Campo Grande, Ouro Verde e Sudoeste. Dos 166 homicídios dolosos do período, 114 têm coordenada válida.
Taxas: homicídios dolosos registrados em 2025 divididos pela população (IBGE, estimativa 2024) e multiplicados por 100 mil. Campinas: 79 registros para 1.185.977 habitantes. O estado: 2.403 registros para 45.973.194 habitantes. A SSP conta registros de boletim; a estatística oficial de vítimas pode diferir ligeiramente.
Roubo: soma das naturezas roubo (outros), roubo de veículo e roubo de carga; na tendência anual, somado também o latrocínio. Furto: furto (outros), furto de veículo e furto de carga.





















