
A pergunta chega ao buscador com uma ansiedade específica: Angra dos Reis é perigosa? É perigoso ir para Petrópolis? Paraty é perigosa? Quem digita isso está quase sempre planejando a viagem e imaginando uma cena — o assalto na rua, o relógio, o celular, a arma.
Os dados do ISP/RJ para 2025 descrevem uma cidade diferente da que está nessa cena. Em Paraty houve sete roubos de rua no ano inteiro. Não sete por mês: sete em doze meses, numa cidade que recebe centenas de milhares de visitantes. Em Arraial do Cabo foram cinco. Em Angra dos Reis, vinte e quatro.
E no mesmo ano, na mesma Paraty, foram registrados 258 estelionatos.
Esse é o fio deste texto: o turista se prepara para o crime de rua e desembarca num lugar onde o crime dominante é a fraude. A diferença não é de grau, é de natureza — e ela muda completamente o que significa "se cuidar" numa viagem.
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A PROPORÇÃO QUE NINGUÉM ESPERA
1.Em todo destino turístico fluminense, o estelionato supera o roubo de rua — e por muito.
Petrópolis teve 70 roubos de rua e 2.636 estelionatos em 2025: 38 golpes para cada assalto. Teresópolis, 21 roubos e 1.473 golpes — proporção de 70 para 1. Cabo Frio, o destino com mais roubo de rua da lista (192), ainda registrou treze vezes mais estelionatos (2.492). Não há uma única cidade turística do Rio em que o padrão se inverta.
Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
Vale uma distinção que organiza a leitura inteira. O crime de presença física — o roubo, o furto de bolsa, o assalto — precisa que vítima e autor estejam no mesmo lugar, na mesma hora. Ele se resolve, em boa parte, com onde você anda e quando. O crime à distância — o estelionato, o golpe do falso aluguel de temporada, o falso boleto de pousada, a maquininha adulterada — não precisa disso. Ele te alcança meses antes da viagem, no celular, ou no momento do pagamento.
Nos destinos turísticos fluminenses, a segunda categoria domina de forma esmagadora. E ela é justamente a que nenhuma recomendação de viagem tradicional — não use joia, não ande sozinho à noite — protege.
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A VIOLÊNCIA LETAL É BAIXA — MAS DESIGUAL
Se o assalto é raro, e a morte?
2.Petrópolis tem taxa de morte violenta de 7,1 por 100 mil. Búzios, cinco vezes mais.
Em taxa de mortes violentas por 100 mil habitantes, Petrópolis (7,1) e Maricá (7,5) ficam bem abaixo da média brasileira. Teresópolis (13,0), Rio das Ostras (12,5) e Angra dos Reis (17,3) ficam no meio. No topo estão as cidades pequenas da Região dos Lagos e da Costa Verde: Búzios (35,3), Paraty (29,4) e Cabo Frio (26,9). A distância entre a ponta segura e a ponta violenta é de cinco vezes.
Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
Aqui é preciso muito cuidado com a leitura, e a mesma ressalva vale para os três primeiros colocados. Búzios tem 42 mil moradores e registrou 15 mortes violentas em 2025; Paraty, 47 mil moradores e 14 mortes. Em cidades desse porte, meia dúzia de casos a mais ou a menos move a taxa em dez pontos. Além disso, essas mortes acontecem numa cidade que também recebe multidões que não entram na conta da população — o mesmo problema de denominador que distorce qualquer estatística de lugar turístico.
O que dá para afirmar com segurança é o contraste entre categorias, que independe do denominador: em Paraty, catorze mortes e sete roubos de rua no mesmo ano. A violência que existe ali não é a violência que aborda o visitante na rua.
Veja o destino da sua viagem no mapa
Série mensal, tipos de crime e comparação com as cidades vizinhas, com os dados do ISP/RJ.
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POR QUE O GOLPE ENCONTRA O TURISTA
A predominância da fraude não é uma peculiaridade das cidades turísticas — o estelionato virou o crime que mais cresce em quase todo o Brasil, empurrado pela digitalização dos pagamentos e pelo Pix. Mas há uma razão para a proporção ser tão extrema justamente nos destinos de viagem.
Turismo é uma atividade que se compra antecipadamente, à distância, de alguém que você nunca viu. A hospedagem se reserva por anúncio; o pagamento sai por transferência; a pressa da alta temporada corrói a checagem. É um ambiente feito sob medida para o golpe do aluguel que não existe e para a pousada que não é aquela.
E há um efeito de contagem que reforça o desenho: quando a fraude acontece com um visitante, o boletim quase sempre é registrado — há dinheiro documentado, há transferência, há necessidade de comprovar para o banco ou o cartão. Já o furto de celular na praia, com o turista de passagem, muitas vezes não vira registro nenhum. Parte da proporção que aparece nos números pode ser isso: não só mais fraude acontecendo, mas mais fraude sendo contada.
Este parágrafo é leitura, não medição. O dado mostra a proporção; o mecanismo é hipótese.
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O QUE OS DADOS NÃO DIZEM
A vítima não tem etiqueta. O ISP registra o crime, não se a vítima é moradora ou visitante. Nenhum número deste texto diz quantos daqueles 258 estelionatos de Paraty atingiram turistas — pode ser a maioria, pode ser a minoria. O que os dados sustentam é o perfil de crime da cidade; a atribuição ao visitante é inferência.
Cidade pequena tem número instável. Búzios, Paraty e Arraial do Cabo têm menos de 50 mil habitantes cada. As taxas altas dessas três precisam ser lidas como indicação, não como sentença, e conferidas ano a ano antes de virar conclusão sobre a cidade.
Subnotificação assimétrica. Como está dito acima, é plausível que a fraude seja mais registrada que o furto de rua. Isso não invalida a comparação — a diferença de 37 para 1 em Paraty é grande demais para ser só efeito de registro —, mas recomenda tratar as proporções exatas com folga.
O que é sólido: as contagens do ISP para o ano de 2025 fechado, a comparação entre rubricas dentro da mesma cidade e o desenho que se repete em todos os nove municípios analisados.
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O QUE FAZER COM ISSO ANTES DE VIAJAR
A conclusão prática é quase o oposto do conselho de viagem padrão.
O cuidado que rende no destino turístico fluminense não é o de não usar relógio na rua — é o de confirmar que a pousada existe antes de transferir o sinal, desconfiar do anúncio de temporada com preço fora da curva e checar a maquininha antes de aproximar o cartão. O crime que tem chance real de estragar a viagem acontece semanas antes dela, no celular, e não na calçada.
Isso não significa que os destinos sejam uniformemente seguros. Búzios, Paraty e Cabo Frio têm taxas de morte violenta que nenhum destino europeu comparável tem, e essa violência é real — ela apenas circula por vias que raramente cruzam com a do visitante. Petrópolis, no outro extremo, tem uma taxa que colocaria a cidade entre as mais seguras do Brasil.
A pergunta "é perigoso ir para lá?" não tem uma resposta única porque embute duas perguntas diferentes. Para a segunda — o risco de ser vítima de crime patrimonial na viagem — o Rio turístico responde de forma consistente: o risco existe, é alto, e ele chega pelo telefone.
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