
Cidade Ademar carrega, há décadas, o rótulo de periferia perigosa da zona sul de São Paulo. É um distrito de quase 250 mil habitantes — mais gente que a maioria das cidades do interior paulista —, e a fama que o acompanha é mais conhecida do que qualquer outra coisa que se possa dizer do lugar: nome associado a violência, a área que se evita, a estatística que assusta.
O dado da SSP-SP diz outra coisa. Em doze meses, Cidade Ademar registrou só 3 homicídios dolosos — taxa de 1,2 por 100 mil habitantes, bem abaixo da média do município de São Paulo. Não é um recorte isolado: em três anos completos, o distrito nunca passou de 5 mortes. Se o critério for violência letal, Cidade Ademar não é, hoje, um lugar particularmente perigoso.
Só que o mesmo período trouxe 700 roubos, mais 92 de veículo, e 1.348 furtos. É aqui que a fama e o dado se encontram — só que virados do avesso do que se costuma imaginar. Cidade Ademar não é um distrito de violência de território, daquelas em que grupos armados disputam ponto e a morte segue a disputa. É um distrito de violência de oportunidade: pouca chance de acabar morto, chance real de ser roubado. Essa distinção organiza todo o resto desta análise.
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O RISCO REAL: ROUBO E FURTO
Se você mora em Cidade Ademar, ou passa por ali todo dia pra trabalhar, o crime que deveria te preocupar não é o que a fama do distrito sugere. É o furto e, mais que ele, o roubo.
1.O crime do dia a dia é o assalto, não a morte.
Em 12 meses, Cidade Ademar registrou 1.348 furtos (outros) e 700 roubos (outros) — de longe os dois tipos mais comuns do distrito. Some o furto de veículo (196) e o roubo de veículo (92) e o crime patrimonial chega a 2.336 ocorrências, cerca de três em cada quatro registros do período. É esse número, não o homicídio, que deveria pautar o cuidado de quem circula por ali.
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Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
O que salta do gráfico não é um pico isolado — é uma hierarquia clara. Furto lidera com folga, o roubo vem logo atrás, e só depois aparece a lesão corporal dolosa. Tráfico, estupro de vulnerável e homicídio, os crimes que costumam puxar a manchete, ficam no fim da fila em volume.
Isso não torna esses crimes menos graves — tentativa de homicídio e estupro de vulnerável continuam entre os registros mais sérios que a SSP-SP recebe do distrito. Mas em termos de risco estatístico, quem mora ou trabalha em Cidade Ademar tem muito mais chance de sair de casa e ser roubado ou ter algo furtado do que de se envolver num crime letal. É um distrito de bolso vazio, não de vida em risco — e a diferença importa pra saber que tipo de cuidado vale a pena tomar.
02
HOMICÍDIO: O OUTRO EXTREMO DA FAMA
Se o roubo é o crime do cotidiano, o homicídio é o crime que sustenta a fama — e é justamente aí que o dado mais contraria a percepção.
2.Três mortes em um ano, numa fama que promete mais.
Cidade Ademar teve 3 homicídios dolosos em 12 meses — taxa de 1,2 por 100 mil habitantes, bem abaixo da média do município de São Paulo. A série anual não aponta piora: 5 mortes em 2023, 1 em 2024, 3 em 2025 e 2 nos sete primeiros meses de 2026. Com números tão pequenos, a leitura honesta é de baixa letalidade persistente, não de tendência em qualquer direção.
Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
Uma linha que oscila entre 1 e 5 mortes por ano, sem subir nem cair de forma consistente, não conta a história de um lugar "esquentando" ou "esfriando". Conta a história de um distrito que, há pelo menos três anos, mantém a violência letal num patamar baixo e estável — o tipo de número que, numa cidade pequena do interior, seria motivo de orgulho, mas que em Cidade Ademar convive, lado a lado, com a fama oposta.
Vale notar o contraste com o próprio distrito: 764 roubos contra 3 homicídios é uma proporção de mais de 250 roubos pra cada morte. Se Cidade Ademar fosse, de fato, um território de disputa armada, o esperado seria o oposto — mais mortes, menos roubo de rua, porque quem disputa área não costuma parar pra assaltar transeunte. O que o dado desenha é um distrito onde o crime é majoritariamente contra o patrimônio, não contra a vida.
Veja Cidade Ademar no mapa do Crime Brasil
Filtra por tipo de crime, mês ou ano. Compara com outros distritos da zona sul, como Pedreira e Parelheiros.
03
O INVERSO DO ESPERADO
Existe uma distinção que ajuda a organizar toda essa leitura: a violência de oportunidade e a violência de território. A de território é a que mata mais e assalta menos — grupos armados disputando um ponto de venda, uma área de extorsão, um loteamento; a morte é o produto da disputa, não o roubo do transeunte. A de oportunidade é o contrário: farta em furto e roubo, porque depende de gente circulando com algo a perder, e rara em morte, porque não há disputa territorial armada por trás.
3.Cidade Ademar tem a assinatura do crime de oportunidade, não da guerra territorial.
Muito roubo (792 no total) e pouquíssima morte (3 em 12 meses) é um padrão que raramente aparece em distritos onde grupos armados disputam território de forma aberta — nesses casos, o homicídio costuma acompanhar o assalto, não ficar isolado dele. O perfil de Cidade Ademar sugere um problema mais parecido com o de qualquer grande periferia urbana: criminalidade patrimonial oportunista, sem que isso se traduza em alta letalidade.
A distinção importa porque muda o tipo de cuidado que faz sentido. Não é o mesmo alerta que se dá pra quem vai visitar uma área de disputa armada — ali, o risco é estar no lugar errado na hora errada de um conflito que não é seu. Em Cidade Ademar, o risco é mais banal e, por isso mesmo, mais fácil de mitigar: cuidado com celular, bolsa, veículo parado. É o tipo de crime que qualquer grande cidade brasileira produz em volume, só que carimbado, no caso de Cidade Ademar, com um estigma de violência letal que o próprio dado não sustenta.
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POR QUE A PERIFERIA DE SP MATA POUCO
Os dados mostram o quê. O porquê exige um passo de interpretação — e aqui vale reconhecer que se trata de contexto amplo, não de uma conclusão que se extrai só destes números de Cidade Ademar.
A cidade de São Paulo viveu, no início dos anos 2000, um dos patamares de homicídio mais altos da sua história. De lá pra cá, a taxa despencou — uma das quedas mais acentuadas e mais estudadas entre grandes metrópoles do mundo, a ponto de a capital paulista figurar hoje entre as cidades de grande porte com menor índice de homicídio do planeta. As causas dessa queda são debatidas entre pesquisadores de segurança pública, sem consenso fechado: mudanças na política de segurança e no policiamento, transformação demográfica (menos jovens do sexo masculino na faixa etária de maior risco) e a hegemonia territorial de facções que, ao reduzir a disputa aberta entre grupos rivais pelo controle de áreas, teria diminuído a violência letal associada a essa disputa — mesmo mantendo, ou até ampliando, a atividade de crimes contra o patrimônio.
Cidade Ademar parece encarnar esse fenômeno mais amplo. É um distrito historicamente pobre, de origem popular, que carrega o estigma acumulado de décadas em que a violência na periferia paulistana era, de fato, mais letal do que é hoje. O estigma não acompanhou a queda do homicídio — mas o roubo e o furto, esses sim, continuam altos, porque são crimes que não dependem de disputa armada pra acontecer, só de oportunidade. É esse descompasso entre fama antiga e dado atual que este texto tenta corrigir.
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05
O QUE OS DADOS NÃO DIZEM
Esta análise descreve o que está registrado na SSP-SP — e é importante marcar onde ela para.
Com 1 a 5 homicídios por ano, a série de Cidade Ademar é pequena demais pra sustentar qualquer leitura de tendência. Um ano com 5 mortes e outro com 1 não descreve uma "queda de 80%" no sentido estatístico normal — descreve a volatilidade natural de contar eventos raros numa população de 249 mil pessoas. O correto é ler a série como "baixa e estável", não tentar extrair direção de ano a ano.
A explicação sobre a queda histórica do homicídio em São Paulo também é contexto, não prova. É um fenômeno amplamente documentado e discutido por quem estuda segurança pública na cidade, mas as causas seguem em debate — este texto não afirma qual delas pesa mais em Cidade Ademar especificamente, só situa o distrito dentro de um movimento maior e conhecido. Vale lembrar ainda que o dado é agregado por distrito: não diz se o roubo se concentra numa rua ou se espalha por toda a área, e o roubo, por exigir boletim de ocorrência pra fins de seguro ou reposição de documento, tende a ser mais notificado que o furto — o que pode inflar a diferença entre os dois no boletim, sem necessariamente refletir a mesma diferença na rua.
O que os dados sustentam com segurança é o essencial: em Cidade Ademar, o crime patrimonial — furto e roubo — domina o registro policial, o homicídio é raro e sem tendência de alta, e essa combinação é o oposto do que a fama do distrito costuma sugerir.
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METODOLOGIA E FONTES
metodologia e limites
Fonte primária: SSP-SP, portal de transparência ativa. Os boletins de ocorrência da capital paulista são agregados por bairro/distrito. Cidade Ademar é um distrito do município de São Paulo, na zona sul, com página própria no Crime Brasil em /bairro/sp/sao-paulo/cidade-ademar.
Janelas:
- Perfil de crime e taxa de homicídio: agosto/2025 a julho/2026 (12 meses).
- Tendência anual de homicídio: anos-calendário completos de 2023, 2024 e 2025.
Taxa de homicídio: número de homicídios dolosos no período dividido pela população e multiplicado por 100 mil. População: 249.218 habitantes, a mesma exibida nas páginas de bairro do Crime Brasil.
Filtro de homicídio doloso: grupo HOMICÍDIO DOLOSO, excluindo homicídio culposo (acidente). Tentativa de homicídio é contada à parte, sem entrar no total de mortes.
Sobre o número pequeno: com 1 a 5 homicídios por ano, a série de Cidade Ademar é estatisticamente volátil. O texto trata isso como sinal de baixa letalidade persistente, não como prova de tendência de alta ou queda.
Sobre a comparação com a capital: esta análise não recalcula, distrito a distrito, a taxa de homicídio de todo o município de São Paulo. A afirmação de que Cidade Ademar fica "abaixo da média da capital" é qualitativa, apoiada na magnitude conhecida das taxas municipais de São Paulo, e não um ranking construído com os mesmos filtros usados aqui.
Sobre o contexto histórico: a leitura sobre a queda do homicídio na cidade de São Paulo desde o início dos anos 2000 é contexto amplamente documentado, não uma conclusão extraída destes dados de Cidade Ademar. As causas dessa queda seguem em debate entre pesquisadores e não são cravadas neste texto.
Perguntas frequentes
Afinal, Cidade Ademar é perigosa? Pra violência letal, não muito: 3 homicídios em 12 meses, taxa de 1,2 por 100 mil, bem abaixo da média do município de São Paulo. Pra risco de roubo e furto, sim: foram 792 roubos e 1.348 furtos no mesmo período — o crime que de fato define o dia a dia do distrito.
Cidade Ademar é mais perigosa que o resto do município de São Paulo? Em homicídio, não — a taxa do distrito fica bem abaixo da média da capital. O que pesa a fama de Cidade Ademar é o volume de furto e roubo, não a violência letal.
Qual é o crime mais comum em Cidade Ademar? Furto (outros), com 1.348 casos em 12 meses — quase o dobro do segundo colocado, o roubo (outros), com 700.
Por que Cidade Ademar mata tão pouco, se a periferia de São Paulo já foi sinônimo de violência letal? A cidade de São Paulo passou por uma das quedas de homicídio mais estudadas entre grandes metrópoles do mundo desde o início dos anos 2000. As causas dessa queda são debatidas — política de segurança, mudança demográfica, dinâmica das facções —, mas o resultado, em distritos como Cidade Ademar, é um descompasso entre o estigma antigo e o dado atual: pouca morte, muito furto e roubo.
Última atualização: 09/07/2026. Próxima atualização prevista após a publicação dos dados de junho/2026 pela SSP-SP, normalmente entre o dia 25 e o último dia do mês seguinte.