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A taxa de crime do litoral mente — e janeiro prova

Por Valdo Stonehart·Metodologia

Verificado em 27 de agosto de 2026

Mongaguá tem taxa de criminalidade 77% maior que Santos. Mas o crime no litoral paulista sobe 39% em janeiro e some em julho — sinal de que a conta por morador está errada. Dados da SSP-SP, 12 meses até junho/2026.

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Destaques
O pico é janeiro
+39%
Janeiro tem 12.703 ocorrências contra 9.143 em julho, somando as nove cidades de balneário.
Praia dos Pescadores, em Itanhaém (SP), com a ilha na maré baixa.
Foto: ThaisOliveiraSilva84 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Todo verão a mesma pergunta volta ao buscador, escrita de mil jeitos: Itanhaém é perigosa? A praia do Guarujá é perigosa? Mongaguá é perigoso? Quem digita isso está quase sempre com a mala meio arrumada, decidindo onde passar sete dias.

A resposta que costuma aparecer é uma taxa: tantas ocorrências por 100 mil habitantes. E é aqui que a coisa desanda. Pela taxa, Mongaguá — 64 mil moradores, uma cidade que você atravessa de carro em dez minutos — é 77% mais perigosa que Santos, que tem porto, periferia, 429 mil habitantes e a fama que carrega. Itanhaém aparece 59% acima de Santos. Peruíbe, 53%.

Nenhum morador do litoral reconheceria esse ranking. E os dados explicam por quê: a conta por habitante assume que quem sofre o crime mora ali — e no balneário, não mora. Essa é a chave deste texto. Quando a gente olha o calendário em vez do mapa, a distorção aparece inteira.

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01

O CRIME DO LITORAL TEM ESTAÇÃO

Somamos três anos completos — 2023, 2024 e 2025 — das nove cidades que vivem de temporada. O desenho que sai não é aleatório.

1.Janeiro tem 39% mais ocorrências que julho. Não é ruído: é a temporada.

Janeiro registra 12.703 ocorrências; julho, 9.143. Dezembro vem logo atrás de janeiro, com 12.011. O vale é o inverno inteiro — junho, julho e agosto, os três meses em que a praia esvazia. A curva do crime no litoral é a curva do movimento, com um mês de antecedência em dezembro e a explosão em janeiro.

Uma curva sozinha não prova nada — cidade nenhuma tem crime distribuído em doze partes iguais. O que transforma isso em evidência é o grupo de controle.

Santos fica no mesmo litoral, sofre o mesmo clima, recebe turista no verão. Mas Santos é uma cidade que funciona o ano inteiro: tem porto operando em julho, escola em agosto, comércio em maio. Se a sazonalidade fosse um efeito do calor, do verão ou de qualquer coisa que atinge a região toda, Santos teria a mesma curva.

Não tem. Em Santos, janeiro fica 11,7% acima de julho — contra os 38,9% dos balneários. E há um detalhe que diz ainda mais: o mês de pico de Santos nem é janeiro. É março, quando a temporada já acabou e a cidade voltou à rotina de porto, escola e comércio.

A diferença entre os dois grupos não é a geografia nem a estação. É que num deles a população cresce muito em janeiro, e no outro não.

02

POR QUE O DENOMINADOR IMPORTA

Vale separar duas coisas que costumam ser confundidas, porque a distinção organiza toda a leitura.

Existe o volume de crime: quantas ocorrências aconteceram. É um número duro, contado de boletim em boletim. E existe a taxa: esse volume dividido pela população. A taxa serve para comparar lugares de tamanhos diferentes — sem ela, São Paulo seria sempre a cidade mais violenta do país só por ser a maior.

O problema é o que vai embaixo da divisão. O IBGE conta quem dorme na cidade em dia de recenseamento. Em Mongaguá, isso dá 64.519 pessoas. Só que no fim de semana de janeiro a cidade abriga um múltiplo disso — gente que aluga, gente que tem casa de veraneio, gente que desce a serra no sábado e volta no domingo. Essas pessoas entram no numerador quando são furtadas. Nenhuma delas entra no denominador.

O resultado é aritmético e inevitável: quanto mais uma cidade depende da temporada, mais inflada fica sua taxa. Mongaguá lidera o ranking do litoral não por ser a mais perigosa, mas por ser a que tem a maior distância entre quem mora e quem circula.

Note o que a lista faz: ela põe as cidades pequenas e turísticas no topo e a cidade grande no fim. É exatamente o inverso do que qualquer morador do litoral diria — e é o que acontece quando o denominador não acompanha o numerador.

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03

O QUE DE FATO ACONTECE NA PRAIA

Corrigida a lente, sobra a pergunta prática de quem vai viajar: o que acontece, afinal?

2.Seis em cada dez ocorrências são furto. Homicídio é raro.

Nas nove cidades somadas, em doze meses, foram 38.895 ocorrências. Furto responde por 22.963 delas — 59% do total. Roubo, que é o furto com violência ou ameaça, aparece com 4.142. Homicídio doloso foram 268 casos, menos de 1% do total, distribuídos por nove municípios e um ano inteiro.

Essa proporção é o retrato de uma violência de oportunidade, não de território. O furto precisa de uma coisa só: gente distraída com bem à mão. Celular na areia, mochila na cadeira, carro carregado parado na avenida da praia. É o crime que mais depende de haver muita gente circulando — e por isso é o que mais sobe em janeiro.

O que isso significa na prática para quem viaja: o risco dominante no litoral paulista não é o risco que assusta na manchete. É o risco chato, banal, de perder o celular e a tarde. E ele é, em boa medida, o tipo de risco que muda conforme o cuidado de quem viaja — o que não se pode dizer de quase nenhum outro crime.

04

O QUE OS DADOS NÃO DIZEM

Três limites que precisam ficar explícitos, porque mudam o peso do que está escrito acima.

Não temos a população flutuante. Esta é a lacuna central. Sabemos que ela existe e sabemos que ela se move com o calendário — a curva de janeiro é o rastro dela. Mas não existe estatística oficial de quantas pessoas estão em Mongaguá num sábado de janeiro. Por isso não é possível calcular a taxa "corrigida" e dizer qual praia é de fato mais segura. Dá para mostrar que o ranking atual está distorcido; não dá para publicar o ranking certo no lugar dele.

O boletim registra o que foi registrado. Turista que tem o celular furtado nem sempre volta à delegacia — às vezes está de passagem, às vezes desiste. Se a subnotificação for maior entre visitantes, o efeito de janeiro é ainda mais forte do que aparece aqui.

Sazonalidade não é causalidade. O texto mostra que o crime sobe quando a temporada abre, e que isso não acontece na cidade que não vive de temporada. Isso é uma evidência forte, mas o mecanismo — mais vítimas disponíveis, mais bens em circulação, policiamento diluído numa população maior — é leitura, não medição. Estamos sinalizando como leitura.

O que é sólido: os volumes, a curva mensal de três anos, o contraste com Santos e a composição por tipo de crime. Tudo isso vem de boletim de ocorrência da SSP-SP, contado um a um.

05

COMO LER O NÚMERO DA SUA PRAIA

Se você está escolhendo destino agora, a lição prática é curta: desconfie do ranking de taxa quando a cidade vive de turismo. Ele mede uma coisa real — a pressão de ocorrências sobre uma estrutura municipal pequena — mas não mede o que você quer saber, que é o seu risco de sofrer um crime na praia.

Para essa pergunta, os números que ajudam são outros. Qual o volume absoluto de furto na cidade. Se ele está subindo ou caindo ano a ano. Como é a distribuição pelos bairros — porque numa cidade de praia a diferença entre a orla e o miolo costuma ser grande. E, sobretudo, o que acontece no mês em que você vai, que quase nunca é a média do ano.

Essa também é a lição para quem administra as cidades do litoral. Uma prefeitura de balneário é avaliada por um indicador que a penaliza automaticamente por receber visitante. Enquanto a população flutuante não entrar na conta, os balneários vão continuar aparecendo como os lugares mais perigosos de um litoral onde o crime mais comum é o furto de celular na areia.

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Citado por Gazeta do Povo, O Eco, Tribuna do Planalto

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. A taxa de crime do litoral mente — e janeiro prova. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/litoral-sp-praias-seguranca-temporada>. Acesso em: 11 out. 2026.

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Vinícius Mendes
Repórter · Olhar Direto (Cuiabá · MT)

Repórter da editoria de Reportagem do Olhar Direto, portal de notícias de Cuiabá (MT), com cobertura de segurança pública e casos policiais no estado. Usou o dado do Crime Brasil para reportar a queda de roubos e a alta de estelionatos em Mato Grosso.

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Jair GonçalvesDepoimento
Jair Gonçalves
Fundador · Portal Atibaia News

Fundador do Portal Atibaia News, veículo de notícias de Atibaia (interior de São Paulo). Publicou com o dado do Crime Brasil o ranking de ocorrências por bairro da cidade.

“Parabéns à Crime Brasil pelo excelente trabalho de jornalismo de dados! As informações disponibilizadas possibilitaram ao Portal Atibaia News produzir uma importante matéria sobre os números de ocorrências policiais por bairro em Atibaia, levando informação e transparência aos nossos leitores. Muito obrigado.”
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Mundo de Cores
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Douglas, médico veterinário, comanda com a família o canal Mundo de Cores, sobre vida no campo, no Rio Grande do Sul.

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“Gratidão pelas informações. Essa é uma excelente ferramenta para uma decisão segura.”

— @marceloguilemond1632

“Verdade, pode ajudar muito mesmo!”

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Gazeta do Povo
Artigo assinado · Paraná

Artigo de opinião do editor do Crime Brasil: a queda de homicídios no Paraná esconde a alta em mortes no trânsito, suicídios e feminicídios — com o dado da plataforma.

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O Eco
Reportagem · Amazônia

Reportagem sobre violência fundiária e baixa punição de crimes ambientais na Amazônia, cruzando dados do Crime Brasil com CPT, Ibama, CNJ e MapBiomas.

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Tribuna do Planalto
Goiânia · edição impressa

Matéria de capa cruzando a queda de homicídios em Goiás com a alta no entorno do Distrito Federal, a partir do dado da plataforma.

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São Paulo · capital

Levantamento exclusivo do mapa da criminalidade na capital paulista — Moema com muito mais infrações que o Grajaú — com o dado do Crime Brasil.

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Fonte acadêmica
IHU · Unisinos
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Entrevista do Instituto Humanitas Unisinos que cita a plataforma como fonte de microdado criminal aberto.

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Revisado por pares
IBCCRIM · JCC
Jornal de Ciências Criminais

Artigo no Jornal de Ciências Criminais sobre os limites do acesso a microdados criminais no Brasil, citando o Crime Brasil.

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Wikipédia
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