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Santa Catarina, o estado 'seguro' que matou 4 mulheres num fim de semana

Por Israel Lehnen Silva·Metodologia

Verificado em 30 de abril de 2026

Santa Catarina é vendida como o estado mais seguro do Brasil. Mas em 2026, 4 mulheres foram assassinadas em um único fim de semana — e a polícia já contava 20 feminicídios até 20 de abril, 66% a mais que no ano passado. Os dados do Crime Brasil mostram um padrão que não tem nada a ver com a imagem turística.

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Destaques
446 feminicídios
2018–2026
Total registrado em Santa Catarina entre janeiro de 2018 e 13 de abril de 2026. Uma morte a cada 6,8 dias, em média.

A propaganda diz que Santa Catarina é o estado mais seguro do Brasil. O ranking do IDH ajuda. Florianópolis aparece em listas de "melhores cidades para se viver". O turismo vende praia, Oktoberfest, colonização europeia, qualidade de vida.

Vista de Florianópolis sob céu nublado
Florianópolis, Santa Catarina

Mas entre os dias 18 e 19 de abril de 2026, quatro mulheres foram assassinadas no estado em 48 horas. Em três meses e meio de 2026, a Secretaria Nacional de Segurança Pública já contava 20 feminicídios em SC — oito a mais que no mesmo período de 2025. Um aumento de 66%, segundo a Sinesp.

O Crime Brasil registra os boletins de ocorrência da SSP/SC. A nossa base vai até 13 de abril e mostra 16 feminicídios em 2026 — contra 14 no mesmo recorte de 2025. O salto que a Sinesp aponta acontece justo na janela posterior à nossa última atualização: o famoso fim de semana das quatro mortes está fora do nosso corte, mas dentro do dela.

01

O FIM DE SEMANA QUE QUEBROU O DISCURSO

Quatro feminicídios em 48 horas é um número que não dá pra esconder. Tribunais locais, observatórios da Alesc, secretarias de segurança — todos foram obrigados a falar.

A imprensa catarinense tratou abril como o mês mais violento para mulheres em dois anos: 10 mortes no estado todo. A Sinesp consolidou 20 feminicídios em SC até o dia 20 de abril, contra 12 no mesmo período de 2025. Em termos absolutos, são 8 mulheres a mais. Em termos relativos, 66% acima.

1.O salto de 2026 não é estatística — são 8 mulheres a mais em 4 meses

A diferença entre 12 e 20 feminicídios pode parecer pequena no agregado nacional. Em escala estadual, com volumes que historicamente ficam entre 50 e 60 por ano em SC, oito mortes a mais em um quadrimestre projetam um ano que pode ser o pior da série recente. E ainda faltam oito meses.

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02

446 EM OITO ANOS — A LINHA-BASE

Pra entender se 2026 é mesmo um ano fora do padrão, vale olhar a série inteira. O Crime Brasil tem dados de SC desde 2018.

São 446 feminicídios em pouco mais de oito anos. Uma média de 55 a 58 por ano desde 2019, com leve queda em 2024-2025 (51 e 53 casos). O número de 2026 — 16 até 13 de abril — projetado linearmente daria perto de 56 no ano completo. Estaria dentro da média histórica.

Só que o ritmo dos primeiros quatro meses não é linear. Pela Sinesp (que tem corte mais recente), o estado já está em 20 casos. Se o segundo quadrimestre repetir essa velocidade, SC fecharia 2026 acima de 60 — patamar que não se vê desde 2019.

A linha-base é estável. O sinal de alerta é o desvio recente — não a média.

03

A GEOGRAFIA DO 'MODELO CATARINENSE'

Onde acontece. Essa é a pergunta que dá direção ao mapa.

  • Florianópolis — 25 feminicídios
  • Chapecó — 23 feminicídios
  • Joinville — 22 feminicídios
  • Blumenau — 16 feminicídios
  • Itajaí — 14 feminicídios
  • Criciúma — 13 feminicídios
  • Lages — 11 feminicídios
  • Xanxerê — 11 feminicídios
  • Jaraguá do Sul — 8 feminicídios
  • Palhoça — 8 feminicídios

Florianópolis lidera com 25 casos. Chapecó vem logo atrás, com 23. Joinville tem 22. Blumenau, 16. Cinco cidades respondem por 100 casos — quase um quarto do total estadual.

O detalhe que importa: são justamente as cidades-vitrine de SC. A capital turística. O polo agroindustrial do oeste. O maior centro industrial do estado. A capital cultural alemã. O porto de Itajaí. Os símbolos que sustentam a narrativa de "estado seguro" e "modelo catarinense" lideram o ranking de feminicídios.

A interpretação não é que essas cidades sejam mais violentas em termos de taxa — Florianópolis tem ~500 mil habitantes; sua taxa per capita não chega a 0,6 por 100 mil ao ano. O ponto é outro: a violência letal contra mulheres não obedece à geografia da prosperidade. Ela está distribuída justo onde a infraestrutura urbana, os serviços públicos e a renda média deveriam, em tese, ofereçer mais proteção.

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04

O DIA MAIS LETAL NÃO É O DOMINGO

A imprensa local repete uma tese: o domingo é o dia mais perigoso para as mulheres em SC, porque é quando casais ficam em casa, álcool, estresse acumulado. Faz sentido como hipótese. Mas os dados contam outra história.

Segunda-feira é o dia mais letal: 86 feminicídios em oito anos. Sábado vem em segundo (75), domingo em terceiro (74). Os três dias somados — sábado, domingo, segunda — concentram 235 dos 446 casos. Cinquenta e três por cento.

A inversão é importante. Não é que o domingo seja "o" dia perigoso. É que a janela do fim de semana se estende pela segunda. O início da semana, quando muita gente já voltou ao trabalho e a violência do final de semana virou caso resolvido — ou virou tragédia que só agora foi descoberta — concentra o maior número de registros.

2.A 'segunda-feira fatal' contradiz a narrativa pública

Comunicação pública e campanhas tendem a focar no fim de semana. Mas se a base é a segunda-feira, planos de proteção, plantões de delegacia da mulher e protocolos de monitoramento de medidas protetivas precisam estar reforçados na transição domingo-noite/segunda-manhã — exatamente quando a rede pública costuma operar com plantões mínimos.

A terça é o dia mais seguro: 45 casos. Quase metade da segunda. A pergunta que essa diferença levanta é quanto da segunda-feira é violência da segunda-feira, e quanto é violência do fim de semana descoberta com atraso. Sem dados de hora exata e contexto do crime — que SC não disponibiliza no nível de boletim agregado —, fica difícil separar.

05

AS 237 MIL AMEAÇAS POR TRÁS

Feminicídio é a ponta letal de uma pirâmide. A base é muito maior. Em SC, o boletim de ocorrência mais comum não é homicídio. Não é furto. É ameaça.

São 237.283 registros de ameaça. Vinte e três vezes mais que homicídios dolosos. Cento e vinte mil lesões corporais. Trinta e um mil "vias de fato" — que é, em geral, agressão física sem ferimento grave.

Boa parte desse volume está dentro de casa. A Lei Maria da Penha gerou um efeito conhecido: muito do que era violência doméstica não-letal passou a ser registrado como ameaça, lesão corporal leve ou injúria. A categoria "ameaça" virou o termômetro silencioso da violência de gênero — e SC tem mais ameaças por habitante do que qualquer outro estado mapeado pelo Crime Brasil.

3.A taxa de ameaça em SC é a mais alta entre os estados monitorados

Com 237 mil registros de ameaça em uma população de 8,2 milhões, SC tem cerca de 2.900 ameaças por 100 mil habitantes na série completa. Comparado a estados que mapeamos no mesmo recorte, é o número mais alto. Significa que a violência interpessoal aparece nos registros — o que é sinal de que a polícia recebe a denúncia, não necessariamente de que ela é resolvida.

A tese: feminicídio raramente é o primeiro evento. Antes vem ameaça, lesão, descumprimento de medida protetiva. A pirâmide existe nos registros — o problema é que entre cada andar da pirâmide e o seguinte, o sistema de proteção tem furos.

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06

O QUE OS DADOS NÃO DIZEM

Os 446 feminicídios são os casos que entraram no sistema com essa tipificação. A realidade é maior — e a contagem tem suas margens.

  • Reclassificações. Um caso pode entrar como feminicídio e ser reclassificado depois, ou o oposto: entrar como homicídio doloso e virar feminicídio só após inquérito. A foto que apresentamos é a do BO no momento do registro.
  • Subnotificação. A SSP de SC só registra o que chegou à polícia. Mortes em cidades pequenas, em contexto rural, em famílias onde a denúncia é socialmente custosa — muitas vezes não viram BO. A Sinesp e o TJSC, ao consolidarem o dado de outras fontes (incluindo IML e Justiça), tendem a contabilizar números maiores.
  • Demografia das vítimas. Os boletins de ocorrência da SSP/SC, no recorte que recebemos, não trazem idade, raça nem cor das vítimas de feminicídio. Não é decisão editorial nossa: é o que o estado disponibiliza. Falar sobre quem são as mulheres assassinadas exige fontes complementares (TJSC, Observatório da Violência da Alesc, IML).
  • A janela mais recente. Nossa última extração foi 13 de abril de 2026. Os feminicídios do fim de semana 18-19/04 — os quatro que viraram manchete nacional — não estão na nossa base. Aparecerão na próxima atualização.
  • Cada número é uma mulher. É repetido por outros veículos e vai ficar repetido aqui. Quatrocentos e quarenta e seis pessoas com nome, com história, com um agressor que muitas vezes era conhecido. A análise estatística existe pra encontrar padrões — não pra transformar mortes em abstração.

07

METODOLOGIA E FONTES

Metodologia, fontes e limites

Fonte principal: Boletins de ocorrência registrados pela Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina (SSP/SC), processados pelo Crime Brasil.

Período: 1º de janeiro de 2018 a 13 de abril de 2026.

Tipo incluído: Enquadramento "FEMINICÍDIO" (sem variantes adicionais no recorte SSP/SC).

Total verificado: 446 feminicídios. Distribuição anual: 2018 (41), 2019 (58), 2020 (57), 2021 (55), 2022 (57), 2023 (58), 2024 (51), 2025 (53), 2026 até 13/04 (16).

Top municípios verificados: Florianópolis (25), Chapecó (23), Joinville (22), Blumenau (16), Itajaí (14), Criciúma (13), Lages (11), Xanxerê (11), Jaraguá do Sul (8), Palhoça (8).

Dia da semana (acumulado): domingo 74, segunda 86, terça 45, quarta 55, quinta 49, sexta 62, sábado 75. Total: 446.

Fontes externas usadas para contexto recente: Sinesp/Ministério da Justiça e Segurança Pública (20 feminicídios em SC até 20/04/2026, +66% sobre o mesmo período de 2025); cobertura jornalística de NSC Total, TN Sul e Rádio Mirador sobre o fim de semana de 18-19 de abril de 2026 e o mês de abril como o mais letal para mulheres em SC em dois anos.

Comparativo da pirâmide de violência: 237.283 registros de ameaça, 120.200 lesões corporais leves, 31.334 vias de fato e 10.336 homicídios dolosos no mesmo recorte SSP/SC. Razão ameaça / homicídio doloso ≈ 23 para 1.

População de SC: 8.187.029 habitantes (Censo IBGE 2022).

Limitações: os dados refletem a tipificação no momento do registro do BO. Reclassificações posteriores não são capturadas. Idade, raça e cor das vítimas não são preenchidas no recorte de feminicídio recebido da SSP/SC. Volume anual é pequeno em termos estatísticos, o que amplifica a variação percentual entre períodos curtos. Esta é uma análise descritiva, não causal.

Reprodutibilidade: dados extraídos do banco do Crime Brasil em 30 de abril de 2026 a partir dos arquivos da SSP/SC.

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Citado por Gazeta do Povo, O Eco, Tribuna do Planalto

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. Santa Catarina, o estado 'seguro' que matou 4 mulheres num fim de semana. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/sc-estado-seguro-feminicidio-fim-de-semana>. Acesso em: 27 out. 2026.

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