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926 mortos em silêncio: onde o hantavírus endêmico do Brasil circula há 30 anos

Por Valdo Stonehart·Metodologia

Verificado em 11 de maio de 2026

O Brasil convive com o hantavírus desde 1993 — 2.412 casos confirmados, 926 mortos, taxa de letalidade de 46,5%. Em 2026 já são 7 casos e 1 óbito. Veja onde o vírus circula, quem ele mata e por que Santa Catarina lidera os casos enquanto Minas Gerais registra a maior letalidade.

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Campo aberto no interior do Brasil, com vegetação seca típica do cerrado, árvores esparsas e cerca de madeira
Interior do Brasil — o hantavírus circula principalmente em zonas rurais, onde o contato com roedores silvestres ocorre durante a colheita e o manejo de grãos. Foto: janilson furtado / Unsplash.

Quando o navio MV Hondius atracou em Tenerife em maio de 2026 com casos de hantavírus a bordo, o mundo voltou os olhos para uma doença que a maioria nunca tinha ouvido falar. No Brasil, o Ministério da Saúde foi rápido em tranquilizar: a variante Andes, responsável pelo surto no cruzeiro e capaz de transmissão entre humanos, não circula por aqui.

O que o comunicado não disse com a mesma ênfase: o Brasil tem o seu próprio hantavírus há mais de 30 anos. E ele já matou 926 pessoas.

01

30 ANOS, 2.412 CASOS

O primeiro caso de hantavirose confirmado no Brasil foi em 1993. Desde então, o vírus nunca foi erradicado — apenas silenciado nas páginas de saúde de segunda ordem.

Os números do SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), atualizados pelo Ministério da Saúde em abril de 2026, são diretos:

  • 2.412 casos confirmados entre 1993 e 2025
  • 926 óbitos no mesmo período
  • Taxa de letalidade média: 46,5% — quase metade dos infectados morre

Para efeito de comparação: a COVID-19, no pico de 2021, tinha letalidade em torno de 2-3% no Brasil. O hantavírus mata proporcionalmente quase 20 vezes mais.

Gráfico de barras com casos e óbitos confirmados de hantavirose no Brasil de 2013 a 2026
Óbitos e casos confirmados de hantavirose no Brasil, 2013–2026. O pico de 2013 (135 casos, 58 óbitos) coincidiu com a expansão agrícola no Centro-Oeste. O mínimo de 2021 (27 casos, 6 óbitos) foi influenciado pelo isolamento social da pandemia. Fonte: SINAN/SVSA/MS.

A curva tem um padrão interessante: pico em 2013 (135 casos, 58 mortes), queda ao longo dos anos seguintes, colapso em 2021 — exatamente o ano do ápice da pandemia, quando a circulação em áreas rurais foi reduzida — e rebound em 2022-2023 (57 e 66 casos).

O mínimo histórico recente de 2021 (6 óbitos, 27 casos) não foi uma vitória epidemiológica. Foi o isolamento social, inadvertidamente, afastando as pessoas das lavouras.

02

O MAPA DO RISCO: QUEM LIDERA

A surpresa para quem imagina que o hantavírus é "coisa do Rio Grande do Sul" está nos dados por estado.

Gráfico horizontal com casos e óbitos de hantavirose por estado do Brasil, 2013-2026, mostrando SC como líder em casos e MG com maior letalidade
Casos e óbitos por estado, 2013–2026. SC lidera em casos (176), mas MG tem letalidade de 47% — a maior entre os estados com volume expressivo. Fonte: SINAN/SVSA/MS.

Santa Catarina lidera com 176 casos desde 2013 — mais que o dobro do RS (73) e mais que MG (103). O oeste catarinense, região de intensa atividade agroindustrial (suínos, aves, milho), concentra o risco. Em 2023, SC registrou 25 casos em um único ano — mais do que qualquer estado naquele período.

Mas SC tem uma particularidade: letalidade de apenas 25% — bem abaixo da média nacional. Dos 176 casos, "apenas" 45 foram a óbito. O acesso mais rápido a hospitais de referência no estado pode explicar parte dessa diferença.

Já Minas Gerais apresenta o dado mais preocupante entre os grandes estados: 47% de letalidade. De 103 casos, 49 resultaram em morte. A provável cepa circulante no estado (Araraquara/Juquitiba) é conhecida por causar a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus em sua forma mais severa.

O Mato Grosso, centro da expansão da soja e do milho no Brasil, aparece com 104 casos e letalidade de 45% — praticamente igual a MG.

1.SC tem mais casos, MG mata mais: 47% de letalidade em Minas

Entre os estados com ao menos 50 casos registrados desde 2013, Minas Gerais tem a maior proporção de óbitos por caso: 49 mortes em 103 infecções confirmadas (47%). São Paulo registra letalidade de 54%, mas com apenas 66 casos no período — e zero desde 2022.

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03

MINAS GERAIS: MAIS CASOS E MAIS MORTES EM 2024

Além do acumulado histórico, MG apresentou um dado alarmante em 2024: 15 mortes por hantavírus confirmadas nas declarações de óbito do SIM/DATASUS — 3,5 vezes a média dos seis anos anteriores (4,3 mortes/ano entre 2018 e 2023).

As cidades com mais óbitos no período 2018-2024 em Minas incluem Betim (3), Ipatinga (2), Barbacena (2), Juiz de Fora (2) e Carmo do Paranaíba (2) — uma dispersão que abrange desde a Região Metropolitana de BH até o Triângulo Mineiro.

Carmo do Paranaíba, no Alto Paranaíba, não é por acaso: é exatamente de lá que veio a primeira morte confirmada por hantavírus no Brasil em 2026. Segundo o Ministério da Saúde, o paciente era um homem de 46 anos com histórico de contato com roedores silvestres em área de lavoura.

04

RIO GRANDE DO SUL: OS MUNICÍPIOS AFETADOS

O RS registrou 8 mortes por hantavírus nas declarações de óbito do SIM/DATASUS entre 2018 e 2024 — uma em cada um dos municípios de Rio Grande, Charrua, Vera Cruz, Fontoura Xavier, Bento Gonçalves, Farroupilha, Viamão e Liberato Salzano.

O padrão geográfico é revelador: Serra Gaúcha (Bento Gonçalves, Farroupilha), região de cultivo de uva e turismo rural, e interior (Fontoura Xavier, Liberato Salzano, Charrua), onde a atividade agrícola é predominante. Mesmo Viamão, município da Região Metropolitana de Porto Alegre, aparece — refletindo que o contato com roedores não está restrito ao interior profundo.

Em 2026, o RS já registrou 2 casos confirmados até abril, contra 7 em todo o ano de 2025.

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05

QUANDO O VÍRUS MATA MAIS

Gráfico de barras mostrando a sazonalidade das mortes por hantavírus por mês, com pico entre janeiro e maio
Mortes por hantavírus por mês (RS e MG combinados, 2018–2024). O pico de janeiro a maio coincide com o período de colheita e maior circulação em ambientes rurais. Fonte: SIM/DATASUS. Análise: Crime Brasil.

A sazonalidade é consistente: janeiro a maio concentram a maioria das mortes. Março é o mês com mais óbitos na série analisada.

Não é coincidência: esse período corresponde ao fim do verão e ao início do outono no Sul e Sudeste — exatamente quando:

  • A colheita de milho e soja está no pico
  • As chuvas criam condições para proliferação de roedores
  • O trabalho em galpões de grãos, silos e celeiros é mais intenso

O mecanismo de transmissão é simples e difícil de evitar: a inalação de partículas contaminadas pela urina, fezes ou saliva do rato-do-mato (Oligoryzomys nigripes, no Sul) durante a movimentação de grãos, feno ou em ambientes fechados sem ventilação adequada.

06

QUEM SÃO AS VÍTIMAS

A análise das declarações de óbito do SIM/DATASUS para RS e MG (2018-2024) revela o perfil das 49 vítimas nos dois estados:

  • 61% homens — consistente com maior exposição ocupacional em atividades rurais
  • Faixa etária mais afetada: 50-59 anos (10 mortes), seguida de 70+ (9) e 20-29 anos (7)
  • Distribuição de idade surpreendentemente ampla: adolescentes (5 casos entre 10-19 anos), jovens adultos e idosos — sem concentração em uma única faixa

O Ministério da Saúde aponta que o grupo mais afetado historicamente é de homens entre 20 e 39 anos em contexto ocupacional agrícola. Os dados do SIM sugerem que, em MG e RS, a distribuição etária está se expandindo — possivelmente refletindo a diversificação de atividades em propriedades rurais e o turismo rural na Serra Gaúcha.

2.Adolescentes e idosos também morrem — a faixa etária é mais ampla do que se imagina

Das 49 mortes analisadas (RS+MG, 2018-2024), 5 ocorreram em pessoas de 10 a 19 anos e 9 em maiores de 70. O vírus não escolhe faixa etária — escolhe exposição.

07

2026: O ANO ATÉ AGORA

Até 27 de abril de 2026, o Brasil confirmou 7 casos de hantavirose (dados preliminares, SINAN/MS):

EstadoCasos 2026
Minas Gerais2
Rio Grande do Sul2
Paraná1
Santa Catarina1
Ignorado/Em branco1
Total7

Há 1 óbito confirmado — o homem de 46 anos de Carmo do Paranaíba (MG). Fontes mais recentes indicam que o total pode ter chegado a 8 casos até meados de maio, mas os dados oficiais disponíveis são de abril.

A variante em circulação no Brasil é a Araraquara (SP/MG/MT) e a Laguna Negra (RS/SC/PR) — ambas sem transmissão pessoa a pessoa. O vírus Andes, responsável pelo surto no navio MV Hondius e capaz de transmissão humana, não circula no Brasil.

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08

O QUE O DADO NÃO COBRE

Algumas limitações importantes desta análise:

Subnotificação provável. O hantavírus exige exame laboratorial específico para confirmação. Casos que evoluem para óbito rapidamente — especialmente em áreas rurais remotas — podem ser classificados como "causa indeterminada" ou "insuficiência respiratória aguda" sem investigação adicional.

Dados 2026 preliminares. Os números de casos e óbitos para 2025 e 2026 são sujeitos a alteração conforme investigações são concluídas pelo SINAN/SVSA/MS.

Cobertura geográfica parcial. A análise de declarações de óbito do SIM/DATASUS por município cobre RS e MG (2018-2024). Não temos esse detalhamento para SC, PR, MT e SP — estados com volume expressivo de casos.

09

METODOLOGIA E FONTES

Dados primários — SINAN/MS: Tabelas de casos e óbitos confirmados por estado, 2013-2026 (PDF atualizado em 27/04/2026, obtido em saude.gov.br). O total histórico de 2.412 casos e 926 óbitos (1993-2025) e a taxa de letalidade de 46,5% são citados pelo próprio Ministério da Saúde.

Dados secundários — SIM/DATASUS: Declarações de óbito processadas pelo Crime Brasil para RS (2018-2024, arquivos DORS locais) e MG (2018-2024, arquivos DOMG via Drive). A classificação por CID-10 A98.5 e A98.8 identifica hantavirose pulmonar e outras febres hemorrágicas virais. O mapeamento municipal usa o código CODMUNRES cruzado com lookup do IBGE.

Dados 2026 correntes: Agência Brasil, Metrópoles, Band.com.br e comunicado oficial do Ministério da Saúde (gov.br/saude, maio de 2026).

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CRIME BRASIL. 926 mortos em silêncio: onde o hantavírus endêmico do Brasil circula há 30 anos. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/hantavirus-endemico-brasil-30-anos>. Acesso em: 7 nov. 2026.

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