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O PARADOXO: ESTADO CAIU, CAPITAL SUBIU
São Paulo terminou 2025 com 2.438 vítimas de homicídio doloso. É o menor número desde o início da série histórica da SSP-SP — uma queda de 3,1% em relação a 2024, quando o estado registrou 2.517. Latrocínios também caíram (-22%), assim como roubo de veículo (-21%) e roubo total (-17%). Olhando só o agregado, é um ano pra colocar no relatório anual.
O problema é quando a lupa desce um degrau. A capital subiu na contramão: 481 vítimas em 2024 contra 501 em 2025. Alta de 4,2%. Não foi só lá. Um conjunto pequeno de cidades — quase todas vizinhas imediatas de São Paulo, no litoral norte ou no Vale do Paraíba — concentrou todo o aumento que o restante do estado deixou de ter.
1.O agregado caiu — porque o interior caiu mais do que a capital subiu
A queda estadual de 79 vítimas (de 2.517 para 2.438) é o saldo de duas direções opostas: a capital e seu entorno próximo subiram em valores absolutos, e o interior + parte do ABC caíram em volumes maiores. Quando o número estadual é citado isolado, ele esconde essa redistribuição geográfica.
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QUEM PUXOU PRA CIMA
A geografia do aumento tem assinatura clara: vizinhos imediatos da capital, litoral norte, litoral sul e o Vale do Paraíba. Não é o estado todo. É um conjunto específico.
Suzano dobrou: 13 vítimas em 2024, 26 em 2025. Ubatuba quase dobrou: 13 → 24. Praia Grande pulou 50% (14 → 21). Diadema, no ABC, cresceu 40% (15 → 21). Osasco, do outro lado da metrópole, subiu 32% (31 → 41). E a capital, que parte de uma base muito maior, ainda assim somou 20 vítimas a mais.
2.Suzano e Ubatuba são as maiores altas proporcionais — mas com bases pequenas
Em termos absolutos, a capital concentra o aumento (+20 vítimas, mais do que qualquer outro município). Mas em termos proporcionais, são cidades menores na borda da Grande SP que disparam: Suzano dobrou, Ubatuba cresceu 85%. Bases pequenas tendem a oscilar mais — mas o padrão geográfico (proximidade da capital ou litoral) sugere que não é só ruído estatístico.
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QUEM SEGUROU A MÉDIA
O lado oposto é onde a história fica mais interessante. Algumas cidades caíram tanto que sozinhas explicam por que o número estadual ficou abaixo do de 2024.
Guaratinguetá despencou 69% — de 29 vítimas em 2024 para apenas 9 em 2025. Presidente Prudente caiu 57%, Guarujá 52%, Sumaré 45%. Mauá, no ABC, recuou 36%. Mauá cai 36% enquanto Diadema, sua vizinha imediata, sobe 40%. É a evidência mais clara de que a violência letal não está distribuída por força regional uniforme — ela se desloca em recortes muito menores que isso.
3.Cinco cidades sozinhas explicam a queda estadual
Guaratinguetá, Guarujá, Presidente Prudente, Sumaré e Mauá juntas tiveram 70 vítimas a menos em 2025 do que em 2024. O saldo estadual foi de -79 — ou seja, esse pequeno grupo respondeu por quase 90% da redução. Tirando elas, o estado teria ficado praticamente estável.
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DENTRO DA CAPITAL
Olhando só pra cidade de São Paulo, o quadro tem três indicadores em direções diferentes:
Roubo de veículo despencou 21%: de 12.559 em 2024 para 9.921 em 2025. Esse é o tipo de crime onde policiamento ostensivo, câmeras e tecnologia de cerco urbano funcionam — e os números refletem isso. Mas furto subiu (de 241.369 pra 250.168, +3,6%) e homicídio doloso também (+4,2%). Onde o crime depende de oportunidade ou conflito interpessoal, a capital piorou.
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O QUE ESSES NÚMEROS DIZEM
O paradoxo de 2025 só faz sentido se você ler como deslocamento, não como redução. O estado tem menos homicídios em valor absoluto, sim — mas a violência letal está se redistribuindo. Saiu do interior, do Vale do Paraíba e de parte do ABC. Entrou na capital, em vizinhos imediatos (Suzano, Itaquaquecetuba, Osasco, Diadema), no litoral norte (Ubatuba, Caraguatatuba — Caraguatatuba caiu mas dentro de um litoral em alta) e em algumas cidades do Vale (São José dos Campos, Taubaté, Lorena).
Cidades médias do interior puxaram a média sozinhas. Sem Guaratinguetá, Guarujá, Presidente Prudente, Sumaré e Mauá, o "menor índice histórico" não existiria.
A pergunta que fica para 2026, com janeiro e fevereiro já fechados na nossa base, é se esse padrão consolida ou se foi um pico de 2025. Se a alta da capital virar tendência, a leitura agregada vai precisar mudar — e a SSP-SP publica mensalmente, então o monitoramento município a município é o único jeito de ver o sinal antes da próxima divulgação anual.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), microdados agregados por município, mês e tipo de crime. Período coberto pela base: 2018 a 2026 (até o segundo mês). Acesso em 2026.
Indicador analisado: vítimas de homicídio doloso, somadas por ano-calendário. A série da SSP-SP registra "Nº de vítimas em homicídio doloso" — é o número de pessoas mortas, não o número de boletins. Quando há mais de uma vítima por ocorrência, todas são contabilizadas.
Período: ano-calendário fechado de 2024 vs 2025. Dados de 2026 (jan-fev) existem na base mas não são usados nesta comparação anual.
Critério de inclusão no ranking: apenas municípios com 30 ou mais vítimas somando 2024 + 2025 entram nos rankings de variação. Esse corte filtra municípios de base muito pequena, onde uma variação de 1 ou 2 vítimas pode aparecer como salto de centenas por cento sem refletir mudança real de padrão.
Granularidade: dados agregados por município. A SSP-SP não publica em recorte de bairro nos arquivos abertos analisados — apenas o estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, publica esse nível de detalhe nos dados abertos de criminalidade.
Comparação interna da capital: os tipos "Furto - outros", "Roubo de veículo" e "Homicídio doloso" usam a mesma fonte (SSP-SP) e o mesmo recorte municipal (município = "São Paulo"), com agregação por ano-calendário.
Limitações: esta análise é descritiva. Não fazemos inferência causal sobre o que provocou cada movimento — nem na alta da capital, nem nas quedas do interior. Mudanças metodológicas em delegacias específicas, alterações de critério de registro ou subnotificação localizada podem afetar séries individuais. Registros oficiais não são proxy perfeito para criminalidade real.
Verificação: os números estaduais e municipais foram cruzados com o backup de produção da base do Crime Brasil em 28 de abril de 2026. Os totais estaduais batem com a divulgação pública da SSP-SP para o ano de 2025.