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BR-101 e BR-116: as duas estradas que matam mais de dois brasileiros por dia há 18 anos

Por Israel Lehnen Silva·Metodologia

Verificado em 30 de abril de 2026

Em 18 anos, BR-101 e BR-116 mataram 34.481 pessoas — juntas, mais de 5 por dia. A colisão frontal responde por 30% de todos os óbitos. Motociclistas já superam motoristas de carro entre os mortos. E 2024 foi o pior ano desde 2015. Os dados da PRF mostram um país que convive com a violência no asfalto como se fosse inevitável.

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Destaques
18 anos de mortes
127.705
Mortos nas rodovias federais brasileiras entre 2007 e 2025 — média de 19 por dia, sem interrupção.
Rodovia federal brasileira à noite, faróis de veículos iluminando o asfalto
Rodovias federais — onde o Brasil perde 19 vidas por dia
Foto: Mike Kotsch / Unsplash

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Existe uma guerra no Brasil que não aparece nas estatísticas de segurança pública. Ela não tem bandidos, não tem facções, não tem CPI. Ela acontece no asfalto — toda hora, todo dia, há dezoito anos.

Entre 2007 e 2025, as rodovias federais brasileiras mataram 127.705 pessoas. Isso é mais que o total de homicídios dolosos de vários estados somados — incluindo estados com altos índices de violência como o Rio de Janeiro. É o equivalente a eliminar completamente uma cidade como São José dos Campos, Mogi das Cruzes ou Juiz de Fora — uma morte de cada vez, espalhadas por 2,2 milhões de acidentes ao longo de 6.570 dias.

A média desse período é 19 mortes por dia. Todos os dias. Domingos, feriados, invernos, pandemias.

No centro dessa guerra, duas rodovias se destacam com uma consistência que assusta: BR-101 e BR-116. Em 18 anos, somaram 34.481 mortos. Juntas, matam mais de 5 brasileiros por dia — cada uma, individualmente, mais de 2.

01

AS DUAS ESTRADAS

A BR-101 tem 4.756 quilômetros. Começa no Rio Grande do Norte, corta a costa brasileira de cima a baixo, termina em São José do Norte, no Rio Grande do Sul. Em 18 anos de dados da Polícia Rodoviária Federal, ela matou 17.257 pessoas. Isso dá 3,6 mortos por quilômetro rodado ao longo de sua extensão.

A BR-116 percorre 4.491 quilômetros. Liga Fortaleza ao Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, cruzando Nordeste, Sudeste e Sul. Em 18 anos, ela matou 17.224 pessoas — praticamente empatada com a BR-101, a 33 mortos de diferença.

Juntas, essas duas rodovias concentraram 27% de todos os mortos nas rodovias federais brasileiras no período.

A trajetória das duas é quase idêntica: pico no início dos anos 2010, queda ao longo da segunda metade da década, estabilização durante a pandemia. E depois, algo que a maioria dos brasileiros não sabe: uma alta consistente a partir de 2023.

Em 2024, as duas juntas mataram 1.553 pessoas — o nível mais alto desde 2019.

02

COMO SE MORRE: A COLISÃO FRONTAL DOMINA

Das 127.705 mortes nas rodovias federais entre 2007 e 2025, 39.070 foram causadas por colisão frontal — 30,6% do total. Mais de quatro vezes o número provocado por saídas de pista. Mais do que todos os atropelamentos de pedestres juntos.

Colisão frontal é o tipo de acidente em que dois veículos colidem de frente, geralmente em pistas simples sem canteiro central. A energia cinética combinada dos dois veículos não tem para onde ir. O impacto é fatal com uma frequência que nenhum outro tipo de acidente alcança.

O segundo tipo mais letal é o atropelamento — somando "atropelamento de pessoa" e "atropelamento de pedestre", chega a 20.887 mortos em 18 anos.

A principal causa de morte associada à colisão frontal é velocidade incompatível (4.726 mortos entre as causas mais letais), seguida de ultrapassagem indevida (2.828) e condutor dormindo (1.887). São comportamentos que os motoristas escolhem ativamente — não falhas mecânicas, não condições climáticas, não fatalidade.

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03

QUEM MORRE: MOTO SUPEROU CARRO

Entre 2020 e 2025 — os seis anos mais recentes da série —, a base de dados de pessoas envolvidas nos acidentes mostra um dado que virou silenciosamente o perfil da vítima nas rodovias federais: motociclistas já são mais numerosos entre os mortos do que motoristas de automóvel.

No período, 51.281 pessoas em motocicletas morreram nas BRs. Motoristas e passageiros de automóveis: 41.223. A diferença é de 10.058 vidas — um estado do tamanho de Sergipe em seis anos.

O perfil das vítimas tem outras características marcantes. 80% são homens. O pico etário é a faixa de 35 a 44 anos (32.434 mortos no período), seguida pela faixa de 25 a 34 (30.431). Jovens de 18 a 24 anos somam 17.785 mortos — praticamente três por dia ao longo de seis anos, só nessa faixa.

04

QUANDO: DOMINGO DE MADRUGADA

Nas rodovias federais, o dia mais letal da semana é o domingo. Em 18 anos de dados, os domingos acumularam 26.963 mortos — cerca de 75% a mais por dia do que uma terça ou quarta-feira comum.

O sábado fica em segundo lugar com 24.108 mortos. O padrão é esperado — mais tráfego, mais alcool, menos fiscalização efetiva. Mas a magnitude ainda surpreende: em apenas dois dias da semana (sábado e domingo), concentram-se 40% de todos os mortos do período, mesmo que esses dias representem apenas 28% da semana.

No recorte por horário, a noite é mais letal que o dia. 60.350 pessoas morreram em plena noite — contra 50.372 em pleno dia. Madrugada e amanhecer somam mais 9.729. O motorista que trafega entre meia-noite e o amanhecer corre risco sistematicamente maior, mesmo num trecho com tráfego reduzido.

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05

ONDE: MG SURPREENDE

O estado com mais mortos nas rodovias federais não é Bahia. Não é Rio de Janeiro. Não é São Paulo.

É Minas Gerais.

Em 18 anos, Minas Gerais registrou 18.087 mortos nas BRs — 6.069 a mais que Bahia (12.018), o segundo colocado, e 6.789 a mais que Paraná (11.298), o terceiro.

A explicação está na geografia da malha rodoviária federal mineira. MG tem três das mais mortíferas do país:

  • BR-381 (BH–SP, a chamada "Rodovia da Morte"): 4.192 mortos em MG em 18 anos
  • BR-040 (Brasília–Rio): 3.199 mortos em MG
  • BR-116 em trecho mineiro: 3.096 mortos

A BR-381 em particular concentra uma combinação rara de fatores: pista simples em vários trechos, tráfego pesado de caminhões, altitude, curvas fechadas e aclives pronunciados — e velocidade incompatível com essas condições.

São Paulo — o estado mais populoso do país — aparece apenas em nono lugar, com 5.583 mortos. A razão é a malha: SP tem uma rede extensa de rodovias estaduais concedidas que absorvem boa parte do tráfego, deixando as federais com volume menor. Em MG, a BR é frequentemente a única opção. Para contexto da violência urbana no Rio Grande do Sul, o estado aparece em sexto lugar nas mortes em rodovias federais — 7.147 em 18 anos.

06

O ANO QUE REVERTEU A QUEDA

De 2010 a 2020, os mortos nas rodovias federais caíram de 8.623 para 5.292 — uma queda de 38,6% em dez anos. Parte disso reflete melhorias reais: veículos mais seguros, campanhas de conscientização, duplicações de pista em trechos críticos.

Parte, no entanto, é efeito metodológico: a PRF mudou sua forma de registrar acidentes ao longo da segunda metade dos anos 2010, passando a contabilizar apenas ocorrências com vítimas. A queda abrupta no número de acidentes registrados (de 183.469 em 2010 para 64.606 em 2022) reflete em parte essa mudança de critério, não apenas menos acidentes reais.

Os mortos, porém, são mais difíceis de subestimar.

Entre 2020 e 2024, os mortos subiram em quatro dos cinco anos. 2024 encerrou com 6.160 — o pior resultado desde 2015, alta de 9,5% sobre 2023. Os dados de 2025, com 6.043 mortos, indicam uma leve recuo, mas ainda acima de qualquer ano entre 2016 e 2023.

A tendência de recuperação econômica pós-pandemia trouxe mais caminhões para as estradas, mais viagens de lazer, e — consequentemente — mais colisões frontais em trechos de pista simples que aguardam há décadas pela duplicação prometida.

O Brasil que cresceu voltou a morrer nas BRs. E enquanto o debate público foca em crimes violentos — como homicídios em São Paulo ou confrontos policiais — o trânsito segue matando em silêncio.

127.705.

É o número de pessoas que não chegaram onde queriam ir nas rodovias federais brasileiras nos últimos 18 anos. Cada uma delas tinha uma placa, um destino, um motivo para estar naquela estrada naquele momento.

A BR-101 e a BR-116 somam 34.481 desses nomes — 27% do total, em duas linhas que cortam o país de ponta a ponta. Enquanto o Brasil discute segurança pública em comissões parlamentares e relatórios sobre crime organizado, a maior matança cotidiana do país acontece em velocidade incompatível, na faixa da direita, às três da manhã de um domingo.

Os dados são públicos. O problema é conhecido. A duplicação prometida ainda não chegou.

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07

O QUE OS DADOS NÃO DIZEM

A base DATATRAN registra o acidente que chegou ao conhecimento da PRF — não necessariamente todo acidente ocorrido na malha federal. Colisões sem vítima ou com vítima leve, resolvidas entre as partes sem acionar a polícia, tendem a ficar de fora com mais frequência do que acidentes fatais, que quase sempre geram ocorrência formal. Por isso o número de mortos é o indicador mais robusto da série; contagens de acidentes leves são mais sensíveis à mudança de critério de registro descrita abaixo.

Um ano com mais mortos não isola uma única causa. Tráfego mais intenso, estado de conservação da pista, fiscalização, composição da frota e clima se movem juntos — a série mostra o resultado agregado, não o peso de cada fator. Tratar qualquer alta ou queda anual como prova de uma causa específica (fiscalização, obra, lei nova) é uma leitura possível, não uma medição.

A base cobre só rodovias federais. Um trecho estadual ou municipal perigoso não aparece aqui — a ausência de um trecho no ranking não significa que ele seja seguro, só que está fora do escopo do dado.

08

METODOLOGIA E FONTES

Os dados utilizados nesta análise são da base DATATRAN da Polícia Rodoviária Federal (PRF), disponível no portal de dados abertos do governo federal. A série cobre 2007 a 2025, com duas bases complementares por ano: ocorrências (uma linha por acidente) e pessoas envolvidas (uma linha por pessoa). O total analisado é de 2.194.867 acidentes e 127.705 mortos.

Nota metodológica importante: a PRF alterou seus critérios de registro ao longo do período. A partir de meados dos anos 2010, a base passou a incluir principalmente acidentes com vítimas, excluindo colisões com danos materiais exclusivos. Isso explica a queda abrupta no número de acidentes registrados após 2014 — que não corresponde a uma redução proporcional na gravidade dos acidentes ou no número de mortos. Os números de mortos são considerados mais robustos ao longo da série.

A análise de tipo de veículo e perfil demográfico das vítimas cobre apenas 2020–2025 para maior consistência metodológica com a base de pessoas.

Todos os dados foram verificados diretamente na base PRF antes da publicação.

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Citado por Gazeta do Povo, O Eco, Tribuna do Planalto

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. BR-101 e BR-116: as duas estradas que matam mais de dois brasileiros por dia há 18 anos. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/br-101-br-116-estradas-mais-mortais-brasil>. Acesso em: 28 out. 2026.

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