
2025 foi o ano em que o Brasil encerrou o ciclo de queda mais longo da história recente da segurança pública. Pela primeira vez desde 2012, o número de mortes violentas caiu por cinco anos seguidos.
Mas o ano também escancarou contradições. Enquanto homicídios caem em quase todos os estados mapeados pelo Crime Brasil, a letalidade policial cresce. Os feminicídios voltam a subir. E o crime organizado se adapta — do roubo na rua pro estelionato digital.
Este é o balanço de 2025: o que mudou, o que piorou, e o que esperar pra 2026.
Brasil em números
Em 2024 (último ano consolidado), o país registrou 44.127 mortes violentas intencionais — taxa de 20,8 por 100 mil habitantes, a menor desde 2012. Os dados preliminares do SINESP pra 2025 indicam continuidade da tendência de queda (-2% a -5% conforme o estado).
Brasil 2024: menor taxa de mortes violentas em 12 anos
Os cinco estados com maior taxa de mortes violentas em 2024 foram:
- Amapá — 45,1/100K hab.
- Bahia — 40,6/100K hab.
- Ceará — 37,5/100K hab.
- Pernambuco — 36,2/100K hab.
- Alagoas — 35,4/100K hab.
Norte e Nordeste concentram 7 dos 10 estados mais violentos. A região Sul, em contraste, segue entre as mais seguras — um padrão que se consolidou na última década.
Rio Grande do Sul: queda sem precedentes
O RS registrou 984 homicídios dolosos em 2025 — menor número da série histórica disponível. Queda de 27% sobre 2024 (1.351) e de 40% sobre 2022 (1.644).
Alguns destaques gaúchos de 2025:
- Porto Alegre manteve a trajetória de queda nos bairros metropolitanos
- Caxias do Sul surpreendeu: de 84 homicídios em 2023 pra 29 em 2025, queda de 66% em dois anos
- Letalidade policial no RS caiu 43% segundo o SINESP entre 2024 e 2025
- Feminicídios subiram de 73 em 2024 pra 77 em 2025 — pequena alta, mas contrária à tendência geral
- Estelionato continua em alta — agora responde por mais casos que todos os crimes violentos combinados
Rio de Janeiro: estabilização preocupante
O RJ fechou 2025 com 2.844 homicídios dolosos, praticamente estáveis em relação a 2024 (2.908). Mas o dado que mais preocupa não é o homicídio — é a letalidade policial.
Em 2025, a polícia carioca matou 798 pessoas em intervenções — alta de 13,5% sobre 2024 (703). Pra cada dois homicídios registrados como crime, um foi cometido por agente de segurança.
RJ: a polícia mata 1 a cada 2 homicídios
Destaques fluminenses:
- Feminicídios no RJ subiram de 30 em 2024 pra 105 em 2025 — alta de 3,5x. O salto pode refletir mudança na classificação ou aumento real
- Roubos de rua na cidade do Rio caíram 41% desde 2019 (64.664 → 38.192 em 2025) — queda consistente ano após ano
Minas Gerais: recuperação depois do susto
MG registrou 2.204 homicídios consumados em 2025, queda de 16% sobre 2024 (2.635). Foi um ano de recuperação depois de 2024 ter quebrado a tendência de queda anterior.
Destaques mineiros:
- Belo Horizonte caiu de 330 homicídios em 2024 pra 275 em 2025 (-17%) — menor marca desde 2019
- Roubos em BH caíram 70% de 2019 pra 2025 (16.991 → 5.102)
- MG continua com dados parciais (apenas crimes violentos do SEJUSP) — estelionato e furto não entram na base, o que limita comparações com RS e RJ
Comparativo: RS, RJ e MG lado a lado
O ano de 2025 reforçou as diferenças estruturais entre os três estados.
O que piorou em 2025
Nem tudo caiu. Três movimentos preocupantes ganharam força no ano.
1. Letalidade policial no RJ: +13,5% em um ano, batendo 798 mortes em intervenções. A polícia carioca está matando mais mesmo com a queda dos homicídios civis.
2. Feminicídios: alta em todos os três estados mapeados. RS subiu de 73 pra 77 (+5%). RJ saltou de 30 pra 105 (3,5x). MG cresceu acima de 100 casos. A média ponderada é de +15% em relação a 2024.
3. Crimes digitais: estelionato e fraude eletrônica explodiram. Em alguns municípios gaúchos, mais de 30% de todos os registros criminais são estelionatos. A polícia ainda não tem ferramentas adequadas pra atuar em escala digital.
E dois temas que ficaram em segundo plano mas merecem atenção:
- Violência contra idosos segue em crescimento, concentrada em estelionato e abandono
- Vicaricídio (violência contra crianças como forma de atingir a mãe) ganhou tipificação penal própria em 2024 e começa a ter dados consolidados
O que esperar de 2026
Com base nos dados parciais dos primeiros meses de 2026 (janeiro-fevereiro):
- RS: ritmo atual indica continuidade da queda — se mantiver, 2026 pode fechar abaixo de 900 homicídios dolosos
- RJ: estabilização no patamar de ~1.000 homicídios anuais na cidade (33% do total estadual) parece consolidada. O risco é o crescimento da letalidade policial se manter
- MG: disputas territoriais entre facções na região metropolitana de BH seguem sendo o fator mais volátil
- Nacional: tendência de queda deve continuar, mas em ritmo mais lento — o "teto" das políticas de segurança vigentes está sendo atingido
O maior desafio pra 2026 não é o crime tradicional. É o que fazer com os crimes digitais e com a violência direcionada (feminicídio, violência contra idosos e crianças), que resistem às políticas de policiamento ostensivo que funcionaram contra o crime de rua.
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veja como os indicadores mudam por município e compare padrões no território.
Explore mais
Este balanço é só a síntese. O Crime Brasil mapeia RS, RJ e MG bairro por bairro, cidade por cidade, com dados atualizados semanalmente das secretarias de segurança.
- Veja o ranking nacional dos estados mais violentos com dados FBSP 2025
- Compare RS vs RJ vs MG — qual é mais seguro?
- Mergulhe nas cidades: Belo Horizonte, Rio de Janeiro cidade, Caxias do Sul
- Análises temáticas: letalidade policial RS, estelionato, violência contra idosos, vicaricídio
Jornalistas, pesquisadores e instituições podem acessar o kit de imprensa com embeds e APIs públicas.
metodologia e limites
Dados por estado: FBSP Anuário 2025 (19ª edição, dados de 2024) para MVI (Mortes Violentas Intencionais). SINESP Mapa da Segurança Pública 2025 (MJSP, jun/2025) para homicídios dolosos 2024 e dados preliminares 2025. Dados por município e bairro: SSP/RS via Lei 15.610/2021 (microdados individuais), ISP/RJ (séries mensais), SEJUSP/MG (crimes violentos apenas). Todos extraídos pelo Crime Brasil e verificados contra as fontes originais. Taxas calculadas sobre população IBGE Censo 2022. MG não tem dados de furtos, drogas ou crimes patrimoniais — apenas crimes violentos. Comparações entre MG e os outros estados consideram essa limitação.