
Quase 14 mil crimes contra idosos em quatro anos. Isso é o que os boletins de ocorrência do Rio Grande do Sul mostram entre 2022 e 2025.
Não é um dado estático. É uma curva que sobe. Em 2022 foram 2.813 registros. Em 2024, o pico: 3.891. Em 2025, uma leve queda para 3.564 — mas ainda 27% acima do ponto de partida.
O abandono de idosos subiu 38%. Os maus tratos cresceram 30%. E 62% de tudo isso acontece dentro de casa.
01
A CURVA QUE SOBE
A série começa em 2022, quando o RS registrou 2.813 crimes contra idosos. De lá pra cá, a tendência foi de alta consistente — com pico em 2024 (3.891 registros) e uma leve acomodação em 2025 (3.564).
| Ano | Registros | Variação |
|---|---|---|
| 2022 | 2.813 | — |
| 2023 | 3.677 | +30,7% |
| 2024 | 3.891 | +5,8% |
| 2025 | 3.564 | −8,4% |
O dip de 2025 pode refletir efeito das enchentes de 2024 no RS, que reduziram registros em toda a série durante os meses de crise. A leve queda não reverte a tendência de alta do período.
Desagregando por tipo, o quadro fica mais claro:
| Tipo | 2022 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Abandono de idoso | 218 | 300 | +37,6% |
| Outros crimes contra o idoso | 1.347 | 1.773 | +31,6% |
| Maus tratos contra o idoso | 862 | 1.120 | +30,0% |
| Apropriação indevida de bem | 351 | 338 | −3,7% |
| Omissão de socorro | 21 | 21 | 0% |
Abandono e maus tratos lideraram o crescimento. Apropriação indevida foi o único tipo que recuou — ainda que marginalmente.
1.Abandono de idosos subiu 38% em três anos — de 218 para 300 registros anuais
O abandono é o crime mais difícil de registrar: exige que alguém de fora perceba, intervenha e formalize a denúncia. Quando o número sobe, é sinal de que o problema está se tornando mais visível — ou mais frequente. Provavelmente os dois.
02
ONDE ACONTECE
O dado mais revelador sobre violência contra idosos não é o tipo de crime. É o lugar onde ele ocorre.
62% dos registros têm como local a residência. Hospitais e clínicas aparecem em segundo lugar — 7% do total. Via pública representa menos de 3%.
| Local | Registros (2022-2025) | % |
|---|---|---|
| Residência | 8.555 | 62,3% |
| Outros | 3.735 | 27,2% |
| Hospitais/clínicas | 984 | 7,2% |
| Estabelecimento comercial | 345 | 2,5% |
| Via pública | 290 | 2,1% |
Isso significa que, na maioria dos casos, o agressor tem acesso regular à vítima. É familiar, cuidador, ou pessoa da convivência próxima.
A violência contra idosos não costuma ser um crime de estranhos. É um crime de dentro.
Outro dado que reforça isso é o horário. 86% dos registros acontecem entre 6h e 18h — no horário em que a casa está ativa, os familiares em casa, a rotina doméstica em curso.
| Período | Registros | % |
|---|---|---|
| Manhã (6h–12h) | 6.751 | 48,5% |
| Tarde (12h–18h) | 5.227 | 37,5% |
| Noite (18h–24h) | 1.600 | 11,5% |
| Madrugada (0h–6h) | 367 | 2,6% |
2.62% dos crimes contra idosos no RS acontecem dentro da residência — e 86% entre 6h e 18h
O perfil aponta pra violência doméstica e familiar, não pra criminalidade de rua. O idoso não está em risco porque saiu de casa. Está em risco porque está em casa.
03
O PERFIL DAS VÍTIMAS
61% das vítimas de crimes contra idosos no RS são mulheres. O dado é consistente em todos os anos.
| Ano | Feminino | Masculino | % F |
|---|---|---|---|
| 2022 | 1.732 | 1.070 | 61,8% |
| 2023 | 1.871 | 1.245 | 60,0% |
| 2024 | 2.029 | 1.259 | 61,7% |
| 2025 | 1.823 | 1.154 | 61,2% |
Em maus tratos especificamente, a proporção feminina sobe para 65%. Em 2025: 613 mulheres vítimas de maus tratos, contra 327 homens.
Dois fatores explicam parte da disparidade. Primeiro, mulheres vivem mais — a população idosa feminina no Brasil é maior em todas as faixas acima dos 60 anos. Segundo, mulheres idosas que vivem sozinhas ou com dependência familiar têm menor capacidade de reação ou fuga em situações de abuso.
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04
OS MUNICÍPIOS
Porto Alegre lidera com folga: 3.151 registros entre 2022 e 2025 — mais do que os cinco municípios seguintes somados.
| Município | Registros (2022–2025) |
|---|---|
| Porto Alegre | 3.151 |
| Canoas | 494 |
| Viamão | 479 |
| Santa Maria | 380 |
| Pelotas | 367 |
| Caxias do Sul | 312 |
| Gravataí | 304 |
| Bagé | 293 |
| Cachoeirinha | 278 |
| Novo Hamburgo | 266 |
A concentração na Região Metropolitana de Porto Alegre é esperada — é onde vive a maior parte da população idosa do estado. Mas Bagé e Santa Maria, cidades do interior, aparecem entre os dez primeiros, o que indica que o problema não é exclusivo da capital.
05
OS BAIRROS DE PORTO ALEGRE
Em Porto Alegre, Centro Histórico lidera com 154 registros no período. Partenon e Lomba do Pinheiro aparecem em segundo e terceiro — bairros de periferia com alta concentração de população idosa e vulnerável.
| Bairro | Registros (2022–2025) |
|---|---|
| Centro Histórico | 154 |
| Partenon | 140 |
| Lomba do Pinheiro | 119 |
| Restinga | 111 |
| Santa Tereza | 92 |
| Sarandi | 83 |
| Rubem Berta | 80 |
| Menino Deus | 79 |
| Vila Nova | 79 |
| Santana | 70 |
Centro Histórico concentra idosos em situação de rua e vulnerabilidade extrema — o perfil de criminalidade é diferente dos bairros periféricos, onde predominam violência doméstica e familiar.
06
O QUE OS DADOS NÃO CAPTURAM
Os números desta análise são um piso, não um teto.
A subnotificação de violência doméstica contra idosos é estrutural. Muitos não registram boletim por medo do agressor — que frequentemente é filho, neto ou cônjuge. Outros não têm condição física ou cognitiva de ir a uma delegacia. Há ainda os que dependem financeiramente de quem os maltrata.
Uma pesquisa nacional estimou que apenas 1 em cada 5 casos de maus tratos contra idosos no Brasil chega ao conhecimento das autoridades.
Os 13.945 registros de 2022 a 2025 são o que foi formalizado. O que ficou dentro de casa é um número que os dados não conseguem alcançar.
07
ONDE BUSCAR AJUDA
Se você ou alguém que você conhece está sofrendo violência:
- Disque 100 — denúncia de violação de direitos humanos, gratuito, 24h. Atende casos de violência contra idosos.
- CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) — atendimento psicossocial e jurídico. Acesso via CRAS ou prefeitura.
- Delegacia do Idoso — em Porto Alegre: Av. Ipiranga, 1180, 2º andar. Registre o boletim de ocorrência.
- CVV: ligue 188 — suporte emocional, 24h, gratuito.
Denunciar é o ato mais difícil. E o mais necessário.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), registros individuais de boletins de ocorrência disponibilizados sob a Lei Estadual 15.610/2021.
Período: janeiro de 2022 a dezembro de 2025.
Critério de seleção: ocorrências classificadas com tipo de enquadramento contendo "IDOSO" nos registros da SSP/RS. Inclui: maus tratos contra o idoso, outros crimes contra o idoso, abandono de idoso, apropriação indevida de bem de idoso, omissão de socorro contra o idoso e discriminação contra o idoso.
Definição legal de idoso: pessoa com 60 anos ou mais (Estatuto do Idoso, Lei 10.741/2003).
Subnotificação: estimativas nacionais indicam que apenas 20% dos casos de violência contra idosos chegam ao conhecimento das autoridades. Os dados refletem apenas o que foi registrado em boletim de ocorrência.
Distribuição por local: baseada no campo local_fato dos registros individuais. Casos sem informação de local foram agrupados em "Outros".
Bairros: restritos a Porto Alegre, onde o volume é suficiente para análise granular.
Reprodutibilidade: extração realizada em 16 de abril de 2026. Scripts disponíveis no repositório do projeto Crime Brasil.
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