
A campanha acabou, as urnas fecharam em 25 de outubro e agora vem a parte menos glamourosa: a transição. Em janeiro, cada estado tem um governador que toma posse e herda uma pasta de segurança pública, um comando de polícia e um número que não pediu pra receber. Esse número é o de pessoas assassinadas no território. Ele já existe, e vai pesar na primeira entrevista coletiva.
O dado mais recente que o Ministério da Justiça publica por estado vai até março de 2026. Nesse primeiro trimestre, o Brasil teve 7.289 homicídios dolosos. Pelo lado do tamanho, o recado é bom: é 14% menos que no mesmo período do ano passado, e a queda aparece em 21 dos 27 estados. Pelo lado da diferença entre estados, o recado é outro. O Rio Grande do Norte teve 7,5 homicídios por 100 mil habitantes em três meses. São Paulo, 1,2.
Esse é o fio desta análise. O mapa dos homicídios tem duas camadas. A de cima é a taxa que aparece nos rankings e nas campanhas. A de baixo é a qualidade do registro, e ela mexe tanto na ordem dos estados que ignorá-la é a forma mais fácil de errar quem herda o quê.
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O NÚMERO QUE CHEGA À POSSE
A fonte aqui é o SINESP, o sistema do Ministério da Justiça em que cada estado informa as ocorrências de crimes violentos, os chamados indicadores de Violência Letal e Morte Violenta. Diferente do atestado de óbito da saúde, que leva meses para fechar, o SINESP sai do registro policial e chega mais rápido. Em compensação, depende do que cada polícia decide informar, e essa diferença vai pesar mais adiante.
A conta de 2026 é curta. De janeiro a março foram 7.289 vítimas de homicídio doloso nos 27 estados. Dividido pela população, dá 3,4 por 100 mil habitantes em três meses. O número mensal ficou entre 2.278 e 2.597, sem salto de um mês para o outro, o que descarta a ideia de que o trimestre foi puxado por um pico isolado.
1.A queda é espalhada, e não de um estado só.
Em 21 dos 27 estados, o trimestre de 2026 teve menos homicídios que o mesmo trimestre de 2025. O recuo nacional de 14% não depende de um único grande estado puxando a média: Bahia, Ceará, Minas Gerais e Pernambuco, que somam boa parte das mortes, caíram todos. Quem assume em janeiro pega o país numa curva descendente, e a pergunta passa a ser se o seu estado está nela ou fora dela.
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OS DOIS EXTREMOS DO MAPA
Número absoluto engana, porque estado grande mata mais gente sem ser mais violento. Por isso a régua usada aqui é a taxa por 100 mil habitantes, calculada sobre os três meses. Para ter uma ideia de ordem de grandeza, multiplicar por quatro dá o ritmo de um ano inteiro, com a ressalva de que o ano não costuma ser quatro trimestres iguais.
Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
Os cinco primeiros formam um bloco quase todo nordestino: Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Maranhão e Bahia. Juntos somam 2.416 homicídios para 38 milhões de pessoas, uma taxa de 6,4 no trimestre. É mais de quatro vezes a de São Paulo, Santa Catarina, Distrito Federal e Minas Gerais, que somam 1.217 mortes para 78 milhões de pessoas e ficam em 1,6. Quem governa os primeiros recebe um problema de escala, que não se resolve com uma operação de verão.
Dois nomes dessa lista de baixa taxa são suspeitos, e a seção 4 mostra por quê.
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O MESMO TRIMESTRE, UM ANO ANTES
Taxa parada no tempo diz pouco. Para saber se um estado está melhorando, a única comparação que este texto faz é com janeiro a março de 2025, os mesmos três meses um ano antes, na mesma fonte. Governo estadual não controla sozinho um número de mortes, então a leitura política tentadora (quem baixou, ótimo; quem subiu, falhou) é boa pra debate e ruim pra análise.
2.Os maiores cortes vieram de estados que estavam no alto da tabela, e o maior aumento, de um estado que já lidera.
O Ceará passou de 713 homicídios no primeiro trimestre de 2025 para 453 no de 2026, uma queda de 36%. A Bahia caiu 21% e Pernambuco 15%. Do outro lado, o Rio Grande do Norte subiu 36% (de 189 para 257), e o Maranhão 7%. O potiguar é o único dos cinco estados mais violentos do trimestre que piorou de forma clara, e por isso a liderança dele pesa mais do que a do vizinho Pernambuco, que lidera caindo.
Em estados pequenos, a porcentagem engana. Roraima caiu 44%, mas foi de 43 para 24 mortes, e Mato Grosso do Sul caiu 44%, de 119 para 67. Variações assim cabem em um mês ruim ou em um atraso de registro. O recuo do Ceará, que tira 260 mortes do trimestre, é diferente: é grande o bastante para não ser ruído.
Sergipe (de 71 para 73), Espírito Santo (de 202 para 208), Mato Grosso (de 161 para 162) e Tocantins (de 51 para 55) ficaram parados, com variação de uma ou duas dezenas de mortes. Nesses estados, o trimestre de 2026 não trouxe alívio nem piora.
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A GAVETA DAS MORTES A ESCLARECER
Quando um corpo é encontrado e ninguém consegue dizer se foi homicídio, acidente ou suicídio, a polícia registra a morte como a esclarecer, sem indício de crime. Em tese, é a exceção. Na prática, em alguns estados é a regra, e a morte só vira homicídio se a investigação provar. Enquanto isso, ela não entra na taxa do primeiro gráfico.
Fonte: Crime Brasil · crimebrasil.com.br
Em São Paulo, de cada dez mortes que cabem nas duas categorias, quase sete ficam a esclarecer: 1.154 contra 562 homicídios dolosos. No Rio Grande do Sul são 290 contra 234, e no Rio de Janeiro, 718 contra 881. Já no Maranhão, são 31 contra 452, e na Paraíba, nenhuma. Cinco estados (Paraíba, Amazonas, Minas Gerais, Santa Catarina e Distrito Federal) não têm nenhuma morte a esclarecer no trimestre, o que provavelmente significa que não informam esse evento, e não que não houve caso.
Somar as duas categorias dá um teto do que pode ter sido homicídio. Não é taxa de homicídio, porque inclui desfechos que não são crime. Mas ele mostra o quanto o primeiro ranking depende de como cada polícia registra. E muda bastante a conversa:
- Rondônia pula do 11º para o 4º lugar, com 11,6 por 100 mil.
- Sergipe sobe do 18º para o 6º, com 7,6.
- Rio Grande do Sul vai do 24º para o 18º, com 4,7.
- São Paulo deixa o último lugar: vai de 1,2 para 3,7 e ocupa o 22º.
Do outro lado, o Maranhão cai do 4º para o 10º e a Bahia do 5º para o 9º, porque quase não têm gaveta. Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte, no alto das duas listas, são os casos em que a posição resiste aos dois olhares.
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POR QUE O NORDESTE E POR QUE O BURACO
Vale separar duas perguntas que costumam ser embaralhadas. A primeira é por que a taxa é tão alta no Nordeste. A segunda é por que o registro varia tanto de um estado para outro.
Sobre a primeira, a literatura de segurança pública costuma apontar a expansão de facções do Sudeste e do Norte para o litoral nordestino, a disputa por rotas e pontos de varejo de droga, e a concentração de jovens homens em bairros com pouca presença do Estado. É uma leitura de especialistas, e os números do SINESP não a provam. O que eles mostram é a dimensão: cinco estados, 2.416 mortes em três meses.
Sobre a segunda, o desenho institucional importa mais do que parece. Cada estado decide como classifica uma morte ainda sem causa definida, e quanto tempo ela fica nessa categoria. A explicação mais provável é que polícias com perícia estruturada e investigação rápida fecham a causa e reclassificam. Onde o laudo demora, a morte fica a esclarecer durante meses, e o homicídio aparece menor. Esse é um dos motivos para tratar a taxa de qualquer estado como faixa, e não como posição exata.
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O QUE OS DADOS NÃO DIZEM
O SINESP registra ocorrências policiais, e não o que a Justiça concluiu. Um homicídio entra pelo boletim, e uma morte a esclarecer pode virar homicídio meses depois. Também não captura tentativas, lesões graves, roubo ou furto. Quem governa estado de taxa baixa de homicídio pode ter uma crise de crime patrimonial, e o contrário também vale.
O período é curto: três meses. Em estados pequenos, como Amapá, Roraima e Acre, poucas mortes a mais ou a menos movem a taxa por vários pontos, e um trimestre pode ser atípico. A posição exata importa menos do que a faixa. A taxa usa a população estimada do IBGE mais recente que o banco guarda, a mesma para todos os estados.
A leitura que o dado sustenta é a da faixa e da direção. Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas e Maranhão estão no alto da escala. São Paulo, Distrito Federal e Santa Catarina estão embaixo, mesmo com a ressalva de que, no caso paulista, a classificação é frágil. O Ceará tem a queda mais firme. Já o nome do governador, o partido e a política de segurança de cada gestão ficam fora desta análise: não há como atribuir, com esses números, uma queda ou uma alta a uma decisão específica. Este texto também não cita o resultado da eleição, porque o dado de segurança não depende dele.
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O QUE FAZER COM ESSA HERANÇA
Quem assume em janeiro tem duas tarefas, e a primeira é pouco visível. Antes de prometer queda de homicídio, vale conferir quanto do número do próprio estado está parado na gaveta das mortes a esclarecer. Um governador que herda 67% de mortes sem classificação, como em São Paulo, ou 55%, como no Rio Grande do Sul, recebe uma taxa de homicídio que não é confiável nem pra comemorar nem pra cobrar. A primeira entrega séria nesses estados é a perícia: fechar a causa de morte mais rápido e com critério.
A segunda tarefa é a dos estados que já registram sem gaveta e ainda matam muito. No Maranhão e na Bahia, o homicídio é registrado como homicídio, e a taxa continua acima de 5 por 100 mil no trimestre. Ali o desafio é o território: onde as mortes se concentram, quem as comete e por que a investigação não chega. O Ceará mostra que dá pra cortar mais de um terço em um ano. Ainda não mostra por quê, e esse porquê é a pergunta que vale a pena fazer a quem governou.
O Brasil de 2026 está menos violento que o de 2025 em quase todo o mapa. O próximo governador recebe o estado numa curva boa e com a medição mais frágil justamente onde há mais gente. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e quem só enxergar uma delas vai errar a conta no primeiro ano de mandato.
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METODOLOGIA E FONTES
metodologia e limites
Fonte primária: SINESP, indicadores de Violência Letal e Morte Violenta (VDE), Ministério da Justiça e Segurança Pública, base do Crime Brasil. População: estimativa do IBGE por município, somada por estado, a mais recente guardada no banco.
Definições:
- Homicídio: evento "Homicídio doloso", em número de vítimas. Não inclui latrocínio, lesão corporal seguida de morte nem tentativa.
- A esclarecer: evento "Mortes a esclarecer (sem indício de crime)". Inclui desfechos que não são crime e serve aqui só como teto, nunca como taxa de homicídio.
Janela: de 1º de janeiro a 31 de março de 2026, por data de referência, que é o último mês de 2026 disponível na base. Os 27 estados têm os três meses. A única comparação de ano é o mesmo trimestre de 2025 (8.431 homicídios dolosos), na mesma fonte.
Cálculos: taxa = vítimas do trimestre divididas pela população estimada, vezes 100 mil. A taxa nacional (3,4) usa 7.289 vítimas e 212.583.750 habitantes. Parcela a esclarecer = a esclarecer dividido pela soma de a esclarecer e homicídio doloso. O ranking "teto" usa essa soma.
Limites do registro: os estados que aparecem com zero morte a esclarecer (Paraíba, Amazonas, Minas Gerais, Santa Catarina e Distrito Federal) provavelmente não informam o evento. A base bruta do SINESP pode conter linhas idênticas repetidas, que foram mantidas como vêm da fonte.
O score do seu endereço
O mapa do estado diz muito sobre a política pública e pouco sobre a sua rua. O score do Crime Brasil resume o risco de um endereço em uma nota, somando o que acontece com o patrimônio, a violência contra a pessoa e as mortes, cada crime pesado pela gravidade e dividido pelos endereços do lugar, e não pelos moradores. A escala vai de 0 a 1.000, e quanto maior a nota, maior o risco. As faixas são: até 299, risco muito baixo; de 300 a 499, baixo; de 500 a 699, médio; de 700 a 849, alto; de 850 a 1.000, muito alto. A régua é a mesma para o país inteiro, então uma nota 500 em Belém significa a mesma coisa que uma nota 500 em Porto Alegre.
Na prática, a nota ajuda a calibrar a leitura deste artigo. Um estado com taxa alta de homicídio tem bairros bem diferentes entre si, e um estado de taxa baixa tem pontos onde o risco é alto. Saber a nota do endereço onde você mora, trabalha ou pensa em se mudar é a forma de trazer o mapa estadual para a escala que importa.
Para ir além da nota, peça o Relatório Personalizado do lugar, com os crimes por tipo e horário e o contexto da região.
Achou útil? Mande para quem precisa.
Um gestor, um colega, a família. Dado oficial, com fonte.




















