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Mogi das Cruzes é perigosa? O que os dados mostram

Por Valdo Stonehart·Metodologia

Verificado em 22 de agosto de 2026

A maior cidade do Alto Tietê tem taxa de homicídio menor que Suzano e Itaquaquecetuba, vizinhas menores. O roubo caiu 30% em dois anos. Dados da SSP-SP, 2026.

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Destaques
A maior do Alto Tietê
470 mil hab.
Mogi das Cruzes reúne mais gente que Suzano e Itaquaquecetuba, suas duas vizinhas mais violentas da região.
Casarão histórico da Escola Estadual Coronel Almeida, no centro de Mogi das Cruzes (SP).
Foto: ExAstra / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Mogi das Cruzes carrega fama de cidade das orquídeas e dos bonsais, herança da colonização japonesa que ocupou a região há mais de um século e ainda hoje sustenta um cinturão de hortifrúti que abastece parte da Grande São Paulo. É também, sem disputa nos números, a maior cidade do Alto Tietê — maior, em população, que Suzano e Itaquaquecetuba, suas duas vizinhas mais conhecidas pela violência.

O dado da SSP-SP contraria o que normalmente se espera de uma cidade desse tamanho. Em 2025, a taxa de homicídio doloso de Mogi foi de 4,0 por 100 mil habitantes — abaixo da de Suzano (7,5) e da de Itaquaquecetuba (7,3), cidades menores. Não é isso que o senso comum prevê. Cidade grande, em geral, puxa os números para cima: mais gente, mais desigualdade concentrada, mais disputa por espaço. Mogi inverte a conta.

É esse o fio que atravessa esta análise: tamanho não é sinônimo de perigo. A maior cidade do Alto Tietê é também uma das mais tranquilas em mortes violentas da região — e o crime que de fato define o dia a dia de quem mora ali não é o homicídio, é o furto, sem vítima ferida e sem manchete.

01

TAMANHO NÃO É PERIGO: O RANKING DO ALTO TIETÊ

Populoso não é sinônimo de violento — pelo menos não em Mogi. Colocada ao lado das vizinhas do Alto Tietê, ela é a maior em habitantes e, ainda assim, aparece entre as mais seguras no indicador que mais pesa: a taxa de homicídio doloso.

1.Maior da região, e ainda assim mais segura que duas vizinhas menores.

Em 2025, Mogi das Cruzes registrou taxa de homicídio de 4,0 por 100 mil habitantes. Suzano, com população bem menor, teve 7,5. Itaquaquecetuba, também menor, teve 7,3. Nos doze meses mais recentes (julho/2025 a junho/2026), Mogi teve 22 homicídios — taxa de 4,7 por 100 mil. Continua abaixo das duas vizinhas menores, mas é preciso dizer de onde vem esse número: o primeiro semestre de 2026 soma 13 mortes, contra 19 em todo o ano de 2025, e só junho de 2026 teve 6 — o mês mais alto de toda a série. Um mês não faz tendência numa cidade deste porte, e a comparação regional não muda; mas a curva de Mogi parou de cair.

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A série anual reforça a leitura. Foram 22 homicídios em 2023, 15 em 2024 e 19 em 2025 — um vaivém pequeno, dentro do que se espera de um município desse porte, sem qualquer sinal de escalada. Não é uma queda que a cidade possa comemorar como conquista recente: é um patamar baixo que se mantém, ano após ano, com poucas variações. A diferença para as vizinhas não está numa mudança repentina em Mogi. Está em como ela nunca chegou a subir tanto quanto elas.

O padrão se repete além de Suzano e Itaquaquecetuba. Arujá (4,4) e Guarulhos (4,2) — cidades de porte bem diferente entre si, uma pequena e outra imensa — também aparecem acima de Mogi na taxa de 2025. Só Vargem Grande Paulista, cidade pequena do outro lado da Grande São Paulo, tem taxa menor. Ou seja: não é que Mogi seja pequena e por isso segura. É a maior do grupo e ainda assim está entre as duas mais baixas.

Esse contraste é o ponto de partida para entender o resto do retrato. Se o homicídio não acompanha o tamanho da cidade, o que de fato aumenta e diminui em Mogi? A resposta está no crime patrimonial — e é onde a tendência recente é mais nítida.

02

O ROUBO EM QUEDA DE 30% EM DOIS ANOS

Se homicídio é raro e estável, roubo é o crime que efetivamente mudou de patamar em Mogi nos últimos anos — para melhor.

2.O roubo caiu quase um terço em dois anos, sem soluço.

Os roubos, somando todos os tipos, passaram de 1.432 em 2023 para 1.209 em 2024 e 1.007 em 2025 — uma queda de 30% em dois anos. A trajetória é constante: cada ano foi melhor que o anterior, sem repique. Numa cidade de 470 mil habitantes, um recuo dessa magnitude tira centenas de vítimas da conta a cada ano.

O recuo é regular, ano a ano, sem soluço: primeiro para 1.209, depois para 1.007. Não é o tipo de gráfico que aparece quando um único mês bom distorce a média — é uma tendência de dois anos inteiros. Cidades desse porte costumam levar tempo para reverter uma curva de roubo; Mogi vem fazendo isso de forma consistente.

O que não caiu — porque não temos a mesma comparação de anos para esse crime — é o furto. Nos últimos doze meses foram 3.814 casos de furto fora veículo, mais de cinco vezes o volume do roubo (outros, 713) no mesmo período. É esse o crime que de fato aparece no dia a dia de quem mora em Mogi: sem violência contra a vítima, mas em volume muito maior que qualquer outra categoria.

A leitura mais honesta é que Mogi resolveu, ao menos em parte, o problema do roubo — o crime que mais assusta, porque envolve confronto direto. O que sobra como desafio é outra coisa: um volume alto e persistente de furto, que preocupa menos a imprensa mas pesa mais no total de boletins abertos todo mês.

Veja Mogi das Cruzes no mapa do Crime Brasil

Filtre por tipo de crime, mês ou ano. Compare com Suzano, Itaquaquecetuba ou Guarulhos.

03

ONDE O CRIME ACONTECE

Números de cidade escondem uma geografia interna. Em Mogi, dois bairros concentram uma fatia grande do volume.

3.Jundiapeba e Centro concentram o grosso das ocorrências.

Em 12 meses, Jundiapeba somou cerca de 994 ocorrências e o Centro, cerca de 909 — juntos, uma fatia relevante do total da cidade. A Vila Oliveira aparece bem atrás, com cerca de 326, menos de um terço do líder.

Jundiapeba é um distrito afastado do centro urbano e um dos mais populosos da cidade, o que ajuda a explicar o volume alto: mais gente, mais boletins. O Centro, por sua vez, concentra comércio, fluxo de trabalhadores e circulação diária — o tipo de área que sempre puxa mais ocorrências em qualquer cidade de porte médio, do furto ao pequeno desentendimento.

Vale uma ressalva simples: mais ocorrência não é sinônimo de mais perigo. Um bairro comercial movimentado registra mais boletim de furto do que um bairro residencial tranquilo, sem que isso signifique necessariamente mais risco por pessoa. O dado de bairro aqui é volume bruto, não taxa — e essa diferença importa.

O retrato de Mogi tem, então, duas camadas: no nível da cidade, uma taxa de homicídio baixa para o tamanho que tem. No nível do bairro, uma concentração de ocorrências em dois pontos específicos — Jundiapeba e Centro — que a média da cidade inteira não deixa ver.

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04

POR QUE A MAIOR É A MAIS CALMA

Os dados mostram o quê. O porquê exige um passo de interpretação — e aqui vale cautela, porque o boletim de ocorrência não explica causa social.

Mogi é uma cidade antiga para o padrão da Grande São Paulo, com um núcleo urbano consolidado há gerações. A colonização japonesa, que chegou com força a partir do início do século 20, deixou um cinturão de hortifrúti e floricultura que ainda hoje sustenta parte da economia local, ao lado de um parque industrial mais antigo que o de boa parte das vizinhas. É uma leitura razoável, embora não comprovável só com o dado de criminalidade, que esse tecido urbano mais maduro — infraestrutura, serviço público, tempo de ocupação — ajude a explicar por que a cidade não repete a curva de Suzano e Itaquaquecetuba, que cresceram mais rápido e de forma mais precária nas últimas décadas.

Some-se a isso o pano de fundo estadual. São Paulo tem, historicamente, a menor taxa de homicídio entre os grandes estados brasileiros, e essa taxa vem caindo há duas décadas — um fenômeno estudado, mas sem uma explicação única, que combina policiamento, urbanização mais antiga e mudança demográfica. Mogi está inserida nesse pano de fundo mais favorável, e isso provavelmente pesa tanto quanto qualquer característica específica da cidade.

Nenhuma das duas explicações é prova. São hipóteses razoáveis diante do padrão que os números mostram — cidade grande, urbanização mais antiga, taxa baixa — e não um mecanismo comprovado caso a caso. O que fica sólido é o resultado: numa região onde duas vizinhas menores são mais letais, a maior cidade do Alto Tietê segue com uma das taxas mais baixas.

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05

O QUE OS DADOS NÃO DIZEM

Esta análise descreve o que está registrado pela SSP-SP — e é importante ser honesto sobre onde ela para.

A taxa de homicídio por 100 mil habitantes é uma média da cidade inteira. Ela não captura o que acontece bairro a bairro: Jundiapeba concentra quase mil ocorrências em 12 meses, um volume que a taxa municipal dilui. Não há homicídios suficientes por bairro, em números absolutos, para sustentar um ranking de letalidade por região da cidade — mas isso não significa que o risco seja igual em todos os pontos de Mogi.

Vale também não confundir estável com queda. A série de homicídio (22 em 2023, 15 em 2024, 19 em 2025) oscila num patamar baixo, mas não mostra uma tendência clara de melhora — 2025 foi pior que 2024. O que se pode afirmar com segurança é que o patamar é baixo para o tamanho da cidade, não que ele está em queda constante, como acontece com o roubo.

E o furto — o crime mais comum, de longe — tem um problema conhecido de subnotificação. Parte das vítimas nem chega a registrar boletim, principalmente quando o valor do bem furtado é baixo ou a chance de recuperação é vista como nula. O número de 3.814 casos em 12 meses é, muito provavelmente, um piso, não o total real.

O que os dados sustentam com segurança é isto: Mogi é a maior cidade do Alto Tietê, tem uma taxa de homicídio baixa para o seu tamanho, e o roubo caiu de forma consistente nos últimos dois anos. O resto — o porquê, a geografia interna, o volume real de furto — é leitura sobre um retrato parcial, e está marcado como tal.

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06

METODOLOGIA E FONTES

metodologia e limites

Fonte primária: SSP-SP, portal de transparência ativa. Tabela app.crimes_sp no banco analytics do Crime Brasil.

Janelas:

  • Perfil de crime e taxa de homicídio (12 meses): julho/2025 a junho/2026.
  • Tendência anual (roubo e homicídio): anos-calendário completos de 2023, 2024 e 2025.

Taxa de homicídio: número de homicídios dolosos no período dividido pela população e multiplicado por 100 mil. População de Mogi das Cruzes: 470.302 habitantes (estimativa IBGE), a mesma exibida na página de cidade do Crime Brasil.

Filtro de homicídio doloso: grupo HOMICÍDIO DOLOSO, excluindo homicídio culposo (acidente de trânsito) e tentativa de homicídio.

Comparação do Alto Tietê: taxas de 2025 (ano-calendário completo), mesma fonte e mesma base populacional — Suzano 7,5, Itaquaquecetuba 7,3, Arujá 4,4, Guarulhos 4,2, Mogi das Cruzes 4,0, Vargem Grande Paulista 3,8.

Sobre os bairros: os números de Jundiapeba (~994), Centro (~909) e Vila Oliveira (~326) referem-se ao volume total de ocorrências em 12 meses, somando variantes do mesmo nome de bairro — não apenas homicídio. A violência letal é rara demais por bairro para sustentar um ranking de risco separado.

Sobre o contexto histórico e econômico: a leitura sobre consolidação urbana, comunidade nipo-brasileira, cinturão agrícola e pano de fundo estadual é interpretativa, baseada em fatos gerais conhecidos sobre a formação da cidade e do estado — não uma explicação causal comprovada pelo dado de criminalidade.

Sobre o volume: com 15 a 22 homicídios por ano, o número é pequeno o suficiente para produzir variação percentual ruidosa ano a ano — por isso o texto trata a série como "patamar baixo e estável", não como tendência firme de queda ou alta.

Perguntas frequentes

Afinal, Mogi das Cruzes é perigosa? Pelos dados oficiais, não mais do que se esperaria para uma cidade do tamanho dela — na verdade, menos. É a maior cidade do Alto Tietê, mas tem taxa de homicídio (4,0 por 100 mil em 2025) menor que a de Suzano e Itaquaquecetuba, cidades bem menores. O roubo, que é o crime que mais preocupa quem mora ali, caiu 30% em dois anos.

Mogi das Cruzes é mais perigosa que Suzano? Não, pela taxa de homicídio: Mogi teve 4,0 por 100 mil em 2025, contra 7,5 de Suzano — mesmo sendo a cidade maior das duas.

Qual o bairro mais perigoso de Mogi das Cruzes? Em volume de ocorrências, Jundiapeba (~994) e o Centro (~909) concentram o maior número de registros em 12 meses, à frente da Vila Oliveira (~326). Isso reflete mais fluxo, comércio e densidade populacional — não necessariamente mais risco por pessoa, já que os dados não permitem calcular uma taxa por bairro.

Esses dados são oficiais? Sim. Vêm do portal de transparência da SSP-SP, atualizado mensalmente. O Crime Brasil ingere a planilha mês a mês e expõe os números aqui sem alteração além da normalização de nomes.


Última atualização: 09/07/2026. Próxima atualização prevista após a publicação dos dados de junho/2026 pela SSP-SP, normalmente entre o dia 25 e o último dia do mês seguinte.

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Citado por Gazeta do Povo, O Eco, Tribuna do Planalto

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. Mogi das Cruzes é perigosa? O que os dados mostram. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/mogi-das-cruzes-e-perigosa-dados-2026>. Acesso em: 26 out. 2026.

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