
Fevereiro traz calor, feriados e deslocamento em massa. Mas traz também um padrão bem documentado em várias cidades do mundo: picos pontuais de criminalidade de rua. No Rio Grande do Sul, os dados de 2024 permitem ver esse efeito com detalhe.
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O QUE ACONTECE EM FEVEREIRO
A lógica é simples: mais gente nas ruas, mais álcool, mais circulação em horários incomuns. Eventos concentrados em poucos bairros criam oportunidades que outros meses não têm. O resultado aparece nos números.
O aumento não é dramático no total — 741 ocorrências a mais. Mas quando você decompõe por tipo de crime, o padrão fica bem mais nítido. E quando olha por bairro, fica mais nítido ainda.
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CIDADES: QUEM SOBE MAIS
A variação em fevereiro não é uniforme pelo estado. Rio Grande se destaca com +20%. Pelotas chega a +10%. E Santa Maria vai na contramão: -2,7%.
| Cidade | Fevereiro de 2024 | Média mensal | Variação |
|---|---|---|---|
| Rio Grande | 1.328 | 1.105 | +20,2% |
| Passo Fundo | 1.481 | 1.313 | +12,8% |
| Pelotas | 1.896 | 1.722 | +10,1% |
| Porto Alegre | 10.869 | 10.128 | +7,3% |
| Caxias do Sul | 2.550 | 2.445 | +4,3% |
| Santa Maria | 1.888 | 1.941 | -2,7% |
Rio Grande tem um carnaval de rua expressivo — isso pode explicar parte do pico. Passo Fundo e Pelotas também têm festas populares em fevereiro. Já Santa Maria ficou abaixo da média: a cidade universitária perde população estudantil no período de férias, o que pode compensar o efeito do carnaval.
Caxias do Sul funciona como um controle natural — o carnaval é menor, e a variação de 4,3% está próxima de ruído estatístico.
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QUAIS CRIMES CRESCEM
Nem todos os tipos de crime se comportam igual em fevereiro. O padrão é claro: crimes de rua sobem, crimes que acontecem dentro de casa mudam menos.
| Tipo de crime | Fevereiro | Média mensal | Variação |
|---|---|---|---|
| Roubo de veículo | 257 | 178 | +44,4% |
| Roubo a pedestre | 1.161 | 912 | +27,3% |
| Furto simples | 2.331 | 2.025 | +15,1% |
| Lesão corporal | 4.065 | 3.642 | +11,6% |
| Ameaça | 9.841 | 8.824 | +11,5% |
| Furto de veículo | 571 | 551 | +3,6% |
Roubo de veículo lidera em variação percentual: quase metade a mais que o normal. Faz sentido — eventos concentrados criam situações em que veículos ficam estacionados em áreas com menor vigilância por mais tempo.
Roubo a pedestre sobe 27%. É o crime de oportunidade por excelência: multidão, distração, álcool. Furto simples também sobe, mas menos. Lesão corporal e ameaça acompanham — o consumo de álcool em eventos públicos tem correlação bem estabelecida com conflitos interpessoais.
1.Crimes de rua sobem até 44% em fevereiro — crimes domésticos sobem menos
A variação de fevereiro é desigual entre os tipos. Roubos e furtos em espaços públicos têm os maiores picos. Ameaça e lesão corporal sobem também, mas em proporção menor — e parte desses registros pode estar relacionada a brigas em eventos, não só a contextos domésticos.
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BAIRROS DE PORTO ALEGRE
O dado mais granular está nos bairros. Em Porto Alegre, o pico não é distribuído igual — se concentra em algumas áreas específicas.
| Bairro | Fevereiro | Média mensal | Variação |
|---|---|---|---|
| Praia de Belas | 294 | 172 | +71,3% |
| Anchieta | 75 | 45 | +65,0% |
| Três Figueiras | 44 | 32 | +38,7% |
| Vila João Pessoa | 86 | 63 | +36,5% |
| Protásio Alves | 67 | 54 | +24,9% |
| Medianeira | 87 | 70 | +23,8% |
| Jardim Itu Sabará | 63 | 51 | +23,5% |
Praia de Belas quase dobrou. É um bairro com o Parque Harmonia, palco de eventos e shows de carnaval — e com o Shopping Praia de Belas, que recebe muito fluxo extra em fevereiro. A combinação de eventos noturnos e movimento intenso cria um ambiente propício.
Anchieta fica adjacente à orla do Guaíba, onde vários eventos de carnaval acontecem. Vila João Pessoa e os bairros da Zona Norte também sobem — regiões com festas populares de rua.
2.Praia de Belas: de 172 pra 294 ocorrências — o maior pico da cidade
O bairro com maior variação concentra eventos de carnaval e alto fluxo comercial. A diferença de 122 ocorrências em relação à média é expressiva para uma área geográfica delimitada. Quem vai a eventos nesses bairros deve redobrar a atenção com pertences.
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O QUE NÃO EXPLICA SOZINHO
Fevereiro concentra vários fatores ao mesmo tempo: carnaval, férias escolares, calor, eventos. Não é possível, com esses dados, isolar o efeito específico do carnaval dos outros.
Também não dá pra saber se o pico é causado pelo mesmo perfil de população que usa a cidade normalmente ou por visitantes. Turistas e pessoas de outras cidades que vêm pra festas não aparecem nos registros de outra forma — são só mais vítimas ou agressores potenciais no dado agregado.
O que os dados mostram com clareza: fevereiro é um mês atípico em várias cidades do RS. Algumas sobem muito, outras mal se alteram. Os bairros onde acontecem eventos são os mais afetados. E crimes de oportunidade em espaços públicos são os que mais crescem.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), registros individuais de boletins de ocorrência disponibilizados sob a Lei Estadual 15.610/2021.
Período: janeiro a dezembro de 2024. A comparação é feita entre fevereiro e a média dos outros 11 meses do mesmo ano (não comparação com fevereiro de 2023), para controlar por tendências anuais.
Metodologia de comparação: para cada município, calculamos a média mensal de ocorrências nos meses de janeiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro de 2024. Depois comparamos com o valor de fevereiro de 2024. A diferença percentual é o "pico de fevereiro" reportado.
Municípios analisados: Porto Alegre, Pelotas, Rio Grande, Caxias do Sul (controle), Passo Fundo e Santa Maria. Selecionados por porte e por diversidade de contexto de carnaval.
Bairros: análise restrita a Porto Alegre, onde o volume por bairro é suficientemente alto pra reduzir o ruído estatístico. Bairros com média mensal abaixo de 30 ocorrências foram excluídos da tabela de variação percentual.
Limitações: não é possível isolar o efeito do carnaval do efeito das férias escolares, do calor ou de outros fatores que se concentram em fevereiro. Os dados refletem registros policiais — não a criminalidade real. Extração realizada em 22 de março de 2026.