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Teresópolis é perigosa? O que os dados mostram

Por Valdo Stonehart·Metodologia

Verificado em 22 de agosto de 2026

Teresópolis quase não tem roubo de rua: só 15 casos em 12 meses. Mas o homicídio, ligado ao tráfico, segue alto e cai devagar. Dados do ISP/RJ até maio/2026.

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Roubo de rua quase zero
15
Em doze meses inteiros, numa cidade de quase 177 mil habitantes. Nilópolis, de porte parecido, teve 611.
O Dedo de Deus, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, em Teresópolis (RJ).
Foto: Thadeusz Jucá / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O Dedo de Deus aponta pro céu na entrada do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, e é ele que ainda define a cidade lá embaixo. Teresópolis vive de turismo de montanha: trilha, frio de serra, casa de fim de semana pra fugir do calor do Rio, a duas horas de distância mas com outro clima e outro ritmo de vida.

Os dados do ISP/RJ confirmam metade dessa fama tranquila. Em doze meses inteiros, a cidade registrou só 15 roubos de rua — 9 a transeunte, 6 de celular — numa população de quase 177 mil habitantes. Nilópolis, cidade do mesmo porte, teve 611 no mesmo período. É praticamente um crime que não existe. Só que a outra metade da fama não sobrevive ao dado: em 2025, Teresópolis registrou 22 homicídios dolosos, taxa de 12,4 por 100 mil — um número que nenhuma estatística de assalto ajuda a explicar.

É esse descompasso que organiza esta análise. Existe crime de oportunidade — o assalto, que precisa de vítima no lugar errado, na hora errada — e existe crime de território, a disputa por quem manda numa área, que mata sem depender de roubar ninguém na rua. Teresópolis quase não tem o primeiro. Tem, em nível moderado e em queda lenta, o segundo. Entender essa diferença é entender o que de fato preocupa na cidade — e o que não deveria.

01

O ASSALTO QUE QUASE NÃO ACONTECE

Comece pelo número que mais chama atenção — porque é raro ver um assim.

1.Só 15 roubos de rua em doze meses inteiros.

Foram 9 roubos a transeunte e 6 roubos de celular — 15 casos, numa cidade de quase 177 mil habitantes. É um dos números mais baixos que o Crime Brasil já mostrou para uma cidade desse porte. Nilópolis, no mesmo estado e com população parecida, teve 611 roubos de rua na mesma janela de 12 meses: quarenta vezes mais.

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O roubo de rua é o crime que mais pesa na sensação de segurança de quem mora ou visita uma cidade — é o que faz alguém decidir não sacar o celular no ponto de ônibus, evitar uma rua à noite, andar com o olho por cima do ombro. Em Teresópolis, esse cálculo praticamente não precisa ser feito. Turista que sobe a serra pra fazer trilha no Parque Nacional, morador que desce até o centro, ciclista de fim de semana: nenhum desses perfis aparece com frequência relevante nas 15 ocorrências do ano.

Isso não é coincidência de um ano bom. É um patamar baixo o bastante para não depender de sorte estatística — mesmo numa cidade onde números pequenos costumam oscilar de um ano para o outro, 15 casos é pouco mesmo considerando a margem de ruído. E o contraste com Nilópolis ajuda a calibrar a régua: mesma faixa de população, resultado completamente diferente.

Só que esse é apenas um lado da moeda. O outro é bem mais duro, e é sobre ele que a cidade precisa prestar atenção.

02

A QUEDA LENTA DO HOMICÍDIO

2.Do pico de 31 mortes em 2023 para 22 em 2025 — queda real, mas devagar.

Teresópolis fechou 2025 com 22 homicídios dolosos, taxa de 12,4 por 100 mil habitantes. É queda de quase um terço frente ao pico de 31 mortes em 2023, mas ainda um patamar alto — mais que o dobro do total de roubos de rua do ano inteiro. Nos doze meses mais recentes (junho/2025 a maio/2026), a contagem está em 20 mortes, taxa de 11,3 por 100 mil: levemente abaixo do ano fechado de 2025, sinal de que a queda segue em curso.

A série não é uma linha reta pra baixo — ela sobe de 2022 pra 2023, alcança o pico de 31 mortes, e só depois começa a ceder: 25 em 2024, 22 em 2025. Dois anos seguidos de queda depois de um pico é um padrão mais sólido do que uma oscilação isolada, mas ainda é cedo pra falar em tendência consolidada: a série tem só quatro pontos, e dois anos em queda é o mínimo pra começar a confiar num movimento.

O que separa esse padrão do roubo de rua é a escala e a persistência. Enquanto o assalto de rua soma 15 casos no ano inteiro e passa despercebido no dia a dia da cidade, o homicídio doloso segue tirando uma vida a cada duas semanas, em média. É um problema de outra natureza, e a seção seguinte ajuda a entender por quê.

Veja Teresópolis no mapa do Crime Brasil

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03

O QUE MOVE A DELEGACIA: DROGA, NÃO ASSALTO

3.Drogas pesam mais no perfil de ocorrências do que qualquer tipo de roubo.

Somando apreensão de drogas (1.026), tráfico (455) e posse (396), a repressão a entorpecentes soma 1.877 ocorrências em 12 meses — mais que o estelionato isolado (1.718), o crime mais comum da cidade. O roubo de rua, os 15 casos já citados, fecha a lista, atrás até da lesão culposa (316), do estupro (106) e do furto de celular (72).

Estelionato e ameaça lideram por um motivo simples: são registros fáceis de fazer, que não dependem de flagrante nem de confronto — a vítima vai à delegacia e formaliza o boletim mesmo sem violência física. Já o bloco de drogas é resultado direto do trabalho policial: quanto mais operação de repressão ao tráfico, mais apreensão aparece na estatística. Isso não mede o tamanho do mercado de drogas na cidade — mede o quanto a polícia está em cima dele.

Ainda assim, é o dado que mais se aproxima de uma explicação para o homicídio. Uma cidade onde a delegacia registra 1.877 ocorrências ligadas a drogas em um ano tem, quase por definição, uma economia de tráfico ativa — e é essa disputa, mais do que qualquer assalto de rua, que costuma estar por trás da letalidade que os números de homicídio mostram.

04

POR QUE A SERRA MATA POUCO NA RUA

Os dados mostram o quê. O porquê exige um passo de interpretação, e aqui vale cautela: o boletim de ocorrência registra a morte, não a motivação. Mas o padrão de Teresópolis — assalto de rua quase inexistente, homicídio moderado e concentrado, perfil de ocorrências dominado por drogas — se encaixa numa leitura conhecida sobre como o tráfico funciona fora da região metropolitana.

Nas grandes cidades, a disputa territorial do tráfico costuma vir acompanhada de outros crimes contra quem só está passando — roubo, arrastão, assalto a comércio — porque o grupo que controla a área também explora quem circula nela. Numa cidade de serra como Teresópolis, voltada a turismo e sem a mesma densidade urbana das favelas metropolitanas, o tráfico tende a operar mais como rota e varejo local: vender no bairro, mover carga entre municípios da serra, sem depender de assaltar o morador ou o turista pra sustentar o negócio. É uma leitura que ajuda a explicar por que a morte existe e o assalto praticamente não — não uma certeza.

Diferente de outros pontos do estado, onde esse tipo de violência vem crescendo, em Teresópolis a curva aponta pra baixo desde 2023. Se a queda de 31 para 22 mortes anuais continuar no ritmo dos últimos doze meses — que já rodam abaixo do ano fechado de 2025 —, a cidade pode se firmar como um raro caso de destino turístico de serra que resolveu as duas pontas do problema: a que assusta o visitante, hoje já quase inexistente, e a que mata o morador, ainda alta, mas em recuo.

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05

O QUE OS DADOS NÃO DIZEM

Esta análise descreve o que está registrado no ISP/RJ — e é importante ser honesto sobre onde ela para.

O boletim registra a morte, não o motivo. A leitura de que os homicídios de Teresópolis estão ligados à disputa de território do tráfico é uma interpretação a partir do padrão dos números — o peso das categorias de drogas no perfil de ocorrências — e não uma classificação oficial. Casos individuais podem ter causas completamente diferentes, de conflito pessoal a feminicídio, e o dado agregado não distingue entre eles.

Vale lembrar também que apreensão de drogas mede atividade policial, não o tamanho do mercado: uma cidade pode ter mais apreensões só porque investiu mais em operação, sem que o tráfico tenha crescido. E a comparação com Nilópolis vale só para roubo de rua — não há dado de homicídio da cidade vizinha nesta análise, então não dá pra dizer qual das duas é mais perigosa no total. O que os dados sustentam com segurança é o essencial: em Teresópolis, o roubo de rua é raríssimo, o homicídio doloso caiu de 31 para 22 mortes em dois anos, e o perfil do dia a dia é dominado por drogas, não por assalto. O resto é a melhor leitura possível desse retrato — e está marcado como leitura.

06

METODOLOGIA E FONTES

metodologia e limites

Fonte primária: ISP/RJ (Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro), série histórica por CISP (Circunscrição Integrada de Segurança Pública), consolidada por município no banco de dados do Crime Brasil.

Janelas:

  • Perfil de ocorrências e roubo de rua: 12 meses, junho/2025 a maio/2026.
  • Tendência anual de homicídio: anos-calendário completos de 2022 a 2025.

Taxa de homicídio: homicídios dolosos no período divididos pela população e multiplicados por 100 mil. População IBGE: 176.735 habitantes — a mesma exibida na página de cidade do Crime Brasil.

Filtro de homicídio doloso: exclui homicídio culposo (acidente de trânsito), contado à parte na categoria lesão culposa (316 casos em 12 meses).

Sobre o roubo de rua: soma de roubo a transeunte (9) e roubo de celular (6) = 15 casos em 12 meses. Não confundir com furto de celular (72), categoria de furto sem violência, contabilizada à parte no perfil geral.

Sobre a comparação com Nilópolis: mesma fonte e mesma janela de 12 meses, cidade escolhida por ter porte populacional parecido ao de Teresópolis. A comparação vale só para roubo de rua — não há dado de homicídio de Nilópolis nesta análise.

Sobre a leitura tráfico-homicídio: os registros do ISP não trazem a motivação das mortes. A leitura de que boa parte dos homicídios está ligada à disputa de território do tráfico é uma interpretação a partir do peso de apreensão de drogas, tráfico e posse no perfil de ocorrências — não uma classificação oficial do boletim.

Sobre a apreensão de drogas: o volume de apreensões reflete o nível de atividade policial na repressão ao tráfico, não necessariamente o tamanho do mercado de drogas na cidade.

Por que não há ranking regional de homicídio: a janela de dados não trouxe taxas de homicídio de outras cidades da Região Serrana, como Petrópolis e Nova Friburgo, para uma comparação direta e equivalente.

Sobre o volume: com 20 a 31 homicídios por ano, o número é moderado — grande o suficiente para sustentar uma leitura de tendência ano a ano, mas ainda sensível a oscilações de poucos casos.

Perguntas frequentes

Afinal, Teresópolis é perigosa? Depende de qual crime você pergunta. Para o crime de oportunidade — o assalto que preocupa quem anda na rua — não: foram só 15 roubos de rua em doze meses, um dos números mais baixos que o Crime Brasil já mostrou. Para o crime de território — o homicídio ligado à disputa do tráfico — a resposta é mais dura: 22 mortes em 2025, taxa de 12,4 por 100 mil. A boa notícia é que essa segunda curva vem caindo desde o pico de 2023.

Teresópolis é mais segura que Nilópolis? No roubo de rua, muito mais: 15 casos contra 611 em Nilópolis, cidade de porte parecido. Os dados não trazem o homicídio de Nilópolis para completar essa comparação, então não dá pra cravar qual cidade é mais segura no total — só que o tipo de risco predominante é bem diferente.

Por que o homicídio não desaparece, se o assalto de rua é tão raro? Porque são fenômenos diferentes. O boletim não registra motivação, mas o peso de apreensão de drogas (1.026), tráfico (455) e posse (396) no perfil de ocorrências sugere que boa parte das mortes está ligada à disputa por território do tráfico — um tipo de violência que não depende de assaltar ninguém na rua para existir.

Esses dados são oficiais? Sim. Vêm do ISP/RJ, que consolida os boletins de ocorrência da Polícia Civil por CISP (Circunscrição Integrada de Segurança Pública). O Crime Brasil ingere essa base e expõe os números aqui sem alteração além da normalização de nomes.


Última atualização: 09/07/2026. Próxima atualização prevista após a publicação dos dados de junho/2026 pelo ISP/RJ.

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. Teresópolis é perigosa? O que os dados mostram. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/teresopolis-e-perigosa-dados-2026>. Acesso em: 7 out. 2026.

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Fundador do Portal Atibaia News, veículo de notícias de Atibaia (interior de São Paulo). Publicou com o dado do Crime Brasil o ranking de ocorrências por bairro da cidade.

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