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Saquarema é perigosa? O que os dados mostram

Por Valdo Stonehart·Metodologia

Verificado em 9 de julho de 2026

Na cidade da onda perfeita, os homicídios quase dobraram em três anos e Saquarema tem hoje a maior taxa da Região dos Lagos: 43 por 100 mil. Mas o assalto de rua quase não existe — e essa combinação conta uma história. Dados do ISP/RJ até maio/2026.

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Homicídio quase dobrou
+95%
De 21 mortes em 2022 para 41 em 2025. Quatro anos seguidos de alta, sem um respiro.
Praia de Itaúna, em Saquarema (RJ), palco de etapa do circuito mundial de surfe.
Foto: Aluiziosaqua1985 / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

A onda de Itaúna continua lá, perfeita, parando o circuito mundial de surfe a cada temporada. O boom imobiliário da Costa do Sol também não deu sinal de cansaço — nos últimos anos, Saquarema virou destino de segunda casa, de gente saindo da capital, de investimento. O que mudou, e o dado do ISP/RJ não deixa esconder, é o número de mortes.

Em 2022, a cidade registrou 21 homicídios dolosos. Em 2025, foram 41. Quase o dobro, em três anos. E não é o susto de um ano ruim: a curva sobe, firme, há quatro anos seguidos.

Aqui está o detalhe que muda a história. Enquanto a violência letal dispara, o assalto de rua praticamente não existe — foram só 43 em doze meses inteiros, numa cidade de 95 mil habitantes. Essa combinação não é um acaso, e é o fio de toda esta análise: quando a morte sobe e o assalto não acompanha, o problema quase nunca é o ladrão de esquina. É disputa de território. Você provavelmente não vai ser abordado por um assaltante numa esquina de Saquarema. Mas alguém está morrendo — e vale entender quem, e por quê.

01

A ESCALADA DE QUATRO ANOS

Num município pequeno, um pico isolado de homicídios seria esperado — sobe num ano, cai no outro, e a taxa oscila só porque a base é baixa. Não é o que se vê em Saquarema. Aqui, cada ano foi pior que o anterior.

1.Não é um ano fora da curva. É uma tendência de quatro anos.

Foram 21 homicídios dolosos em 2022, 26 em 2023, 29 em 2024 e 41 em 2025. A regularidade da alta é o que mais preocupa: não parece acidente estatístico, parece processo. Nos doze meses mais recentes (junho/2025 a maio/2026) já são 39 mortes — somadas ainda 5 por intervenção policial e 1 latrocínio.

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Uma linha que sobe quatro anos sem quebrar quase sempre tem uma causa por trás — não o azar. E a causa costuma deixar rastro no resto da estatística: se a cidade estivesse "esquentando" de forma geral, os crimes de rua subiriam junto. Em Saquarema, esse rastro é justamente o que falta. É por aí que se começa a entender o que está acontecendo.

02

O PARADOXO: MUITA MORTE, POUCO ASSALTO

No imaginário, cidade violenta é cidade de assalto — de gente com medo de andar na rua, de celular arrancado da mão. Saquarema quebra essa imagem. O assalto de rua é raro. O que ela tem, e em alta, é morte.

2.Só 43 roubos de rua em doze meses — mas isso não faz da cidade um lugar seguro.

O roubo de rua é um dos crimes mais raros de Saquarema. O cotidiano é de crime patrimonial sem violência: estelionato lidera com folga, seguido de ameaça e furto. A letalidade não aparece nesse volume do dia a dia — ela corre por fora, e é exatamente isso que acende o alerta.

Vale uma distinção simples, que organiza toda a leitura: existe a violência de oportunidade e existe a violência de território. A de oportunidade é o assalto — precisa da vítima passando na hora certa, no lugar certo. Ela sobe quando há muita gente circulando com o que roubar, e some quando a rua esvazia. A de território é outra coisa: é a disputa por quem controla uma área — o ponto de venda, a extorsão, o loteamento. Ela mata, mas não abre boletim de roubo.

Saquarema tem pouca da primeira e muita da segunda. É por isso que a vítima típica dessas mortes não costuma ser o turista na praia nem o morador voltando do trabalho — é alguém que já está dentro do circuito da própria violência. Não torna a cidade "segura", que fique claro: uma taxa de 40 mortes por 100 mil habitantes é altíssima para o padrão brasileiro. Mas muda o mapa do risco. O perigo de Saquarema não está na esquina. Está na disputa que a maioria dos moradores nem vê acontecer.

Veja Saquarema no mapa do Crime Brasil

Filtre por tipo de crime, mês ou ano. Compare com Cabo Frio, Araruama ou Maricá.

03

A REGIÃO DOS LAGOS, UM CORREDOR EM DISPUTA

Saquarema não é um ponto fora da curva cercado de tranquilidade. A Costa do Sol inteira está tensa — e Saquarema ficou na ponta pior dela.

3.Entre as vizinhas, Saquarema tem o pior número — mas nenhuma escapa.

Em taxa de homicídio por 100 mil habitantes em 2025, Saquarema (43,0) fica à frente de Cabo Frio (26,4) e Araruama (24,7). Só Maricá, mais perto da capital, aparece bem abaixo, com 7,5. Que três das quatro cidades tenham taxas altas mostra que o problema não é de um município só: é de uma região.

O contraste de Maricá é revelador e não é coincidência. Maricá é a cidade dos royalties do petróleo — recebe uma das maiores receitas per capita do país e transformou esse dinheiro em orçamento, serviço público e presença do Estado. As outras três vivem sobretudo de turismo e do mercado imobiliário, com caixa muito menor e um aparato de segurança que não cresceu no ritmo da população. Onde o Estado chega mais forte, a taxa é a de Maricá. Onde chega menos, é a de Saquarema. A geografia da violência, na Costa do Sol, acompanha a geografia do dinheiro público.

04

POR QUE A VIOLÊNCIA CHEGOU À COSTA DO SOL

Os dados mostram o quê e o onde. O porquê exige um passo de interpretação — e aqui vale a cautela, porque o boletim de ocorrência registra a morte, não a motivação. Mas o padrão é conhecido, e se encaixa numa história maior.

A violência do Rio de Janeiro deixou de ser só um problema da capital. Ao longo da última década, ela se interiorizou: milícias e facções do tráfico, antes concentradas na cidade e na Baixada, passaram a disputar áreas cada vez mais distantes do centro. A Costa do Sol entrou nessa conta por um motivo simples — dinheiro. O boom imobiliário, a explosão do turismo e a chegada de população nova transformaram cidades antes pacatas em territórios que valem a pena controlar: para extorquir comércio, para lotear terra, para vender segurança, gás, TV, transporte clandestino. Onde há economia crescendo e Estado ausente, grupos armados ocupam o vácuo.

Saquarema tem exatamente o perfil de quem sobe nesse tipo de curva. Cresceu rápido, atraiu investimento, virou vitrine — e não tinha um aparato de segurança do tamanho do problema que chegou junto. A alta constante do homicídio, combinada com o roubo de rua no chão, encaixa com essa leitura de disputa territorial melhor do que com qualquer outra explicação.

A boa notícia, se há uma, é que esse tipo de violência tem antídoto conhecido, e o próprio dado aponta para ele: não é mais policiamento de praia no verão, é presença permanente do Estado e inteligência mirada nos grupos que disputam a área — o caminho que Maricá, com outro orçamento, conseguiu bancar. Enquanto isso não chega na medida certa, o número que resume Saquarema hoje não é a altura da onda de Itaúna. São as 41 mortes de 2025, e a linha que ainda aponta para cima.

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05

O QUE OS DADOS NÃO DIZEM

Esta análise descreve o que está registrado no ISP/RJ — e é importante ser honesto sobre onde ela para.

O boletim registra a morte, não o motivo. A leitura de "violência territorial" é uma interpretação a partir do padrão dos números (letalidade em alta, assalto em baixa) e do contexto conhecido da região — não uma classificação oficial. Casos individuais podem ter causas completamente diferentes, de conflito pessoal a feminicídio, e o dado agregado não distingue.

Também não dá para cravar, só com estes números, quanto da alta é aumento real de mortes e quanto é melhora de registro. E a comparação entre cidades usa a mesma fonte e a mesma população oficial, mas municípios têm dinâmicas próprias que uma taxa não captura. O que os dados sustentam com segurança é o essencial: em Saquarema, o homicídio subiu de forma consistente por quatro anos, hoje é o maior da Região dos Lagos, e não vem acompanhado do assalto de rua. O resto é a melhor interpretação possível desse retrato — e está marcada como interpretação.

06

METODOLOGIA E FONTES

metodologia e limites

Fonte primária: ISP/RJ (Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro), base de indicadores por município (CISP), publicada mensalmente.

Janelas:

  • Perfil de crime: junho/2025 a maio/2026 (12 meses).
  • Tendência anual de homicídio: anos-calendário completos de 2022, 2023, 2024 e 2025.

Taxa de homicídio: número de homicídios dolosos no período dividido pela população e multiplicado por 100 mil. População da estimativa IBGE (Saquarema: 95.315 hab.), a mesma exibida nas páginas de cidade do Crime Brasil.

Filtro de homicídio doloso: exclui homicídio culposo (acidente). Morte por intervenção policial (5 no período de 12 meses) e latrocínio (1 no período) são contabilizados à parte e não somados ao homicídio doloso.

Comparação regional: taxas de 2025 (ano-calendário completo), mesma fonte e mesma base populacional, para Cabo Frio, Araruama e Maricá.

Sobre a motivação e o contexto: os registros do ISP não trazem a motivação das mortes. A leitura de "violência territorial" e o contexto da interiorização da violência no RJ são interpretações a partir do padrão dos dados e de fenômenos documentados na região — não classificações oficiais do boletim. O texto sinaliza onde termina o dado e começa a interpretação.

Sobre o volume: com 39 a 41 mortes por ano, o número é grande o suficiente para sustentar uma leitura de tendência. Não é o caso de município com número pequeno e taxa volátil.

Perguntas frequentes

Afinal, Saquarema é perigosa? Pelos dados oficiais, sim — e a tendência é de piora. O homicídio doloso quase dobrou em três anos (de 21 em 2022 para 41 em 2025) e a cidade tem hoje a maior taxa da Região dos Lagos: 43 por 100 mil habitantes. O ponto importante é o tipo de perigo: é violência letal ligada a disputa de território, não assalto de rua contra o morador ou o turista.

Então é perigoso passar férias em Saquarema? O crime que costuma afetar o visitante — o assalto de rua — é raro na cidade: foram só 43 casos em doze meses. A violência que cresce é de outra natureza e, em geral, não atinge quem está de passagem. Ainda assim, uma taxa de homicídio de 43 por 100 mil é alta, e o cuidado básico de qualquer cidade continua valendo.

Por que Maricá é tão mais segura que Saquarema? Maricá recebe uma das maiores receitas de royalties do petróleo do país e converteu isso em orçamento e presença do Estado. Saquarema, Cabo Frio e Araruama vivem mais de turismo e imóveis, com caixa menor e segurança que não cresceu no ritmo da cidade. Onde o Estado chega mais forte, a violência é menor.

Esses dados são oficiais? Sim. Vêm do ISP/RJ, o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, que publica os números por município (CISP) todo mês. O Crime Brasil ingere e expõe esses dados sem alteração além da normalização de nomes.


Última atualização: 09/07/2026. Próxima atualização prevista após a publicação dos dados de junho/2026 pelo ISP/RJ, normalmente no início do mês seguinte.

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. Saquarema é perigosa? O que os dados mostram. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/saquarema-e-perigosa-dados-2026>. Acesso em: 8 out. 2026.

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