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O Rio mata menos — mas a polícia mata mais

Por Valdo Stonehart·Metodologia

Verificado em 12 de abril de 2026

Homicídios dolosos caíram 57% desde 2003 no Rio de Janeiro. Mas em 2025, enquanto os números gerais recuavam, a polícia matou 798 pessoas — 13,5% mais do que em 2024. Uma análise dos 22 anos de dados do ISP/RJ.

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Destaques
Homicídios 2025
2.844
Menor número desde que o ISP/RJ tem série histórica. Queda de 57% em relação ao pico de 2003.
Cristo Redentor com vista do Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, RJ
Foto: Valerie / Unsplash

Existe um paradoxo no centro dos dados de segurança pública do Rio de Janeiro. Em 2025, o estado registrou o menor número de homicídios dolosos da série histórica — 2.844 mortes, queda de 57% em relação ao pico de 2003. No mesmo ano, a polícia matou 798 pessoas. Alta de 13,5% sobre 2024.

O Rio ficou menos violento. Mas a polícia ficou mais letal.

01

A QUEDA HISTÓRICA DOS HOMICÍDIOS

Em 2003, o Rio de Janeiro registrou 6.624 homicídios dolosos. Naquele ano, morrer assassinado no estado era quase duas vezes mais provável do que hoje. Vinte e dois anos depois, o número chegou a 2.844 — o mais baixo de toda a série.

Não foi uma queda linear. Houve recaídas no meio do caminho.

Entre 2010 e 2012, a política de UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) derrubou os índices com força. De 2012 a 2017, uma nova onda — crise econômica, colapso das UPPs, expansão das milícias — empurrou os números pra cima. Depois disso, queda consistente.

1.2.844 homicídios dolosos em 2025 — menor da série histórica do RJ

A queda de 57% desde 2003 é real, mas não foi por uma causa única. UPPs, intervenção federal de 2018, pandemia (que reduziu circulação), e o progressivo controle territorial das milícias sobre áreas antes disputadas contribuíram de formas diferentes. Menos conflito aberto não significa menos crime organizado.

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O menor número de homicídios dolosos de toda a série histórica do ISP/RJ — 22 anos de queda.
2003 (pico)
6.624
→
2025
2.844
Variação: -57%

O dado de fevereiro de 2026 confirma a tendência: 233 homicídios dolosos no mês, contra 235 em fevereiro de 2025. Queda de menos de 1% — estabilização no patamar baixo.

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02

O PARADOXO: A POLÍCIA MATA MAIS

Enquanto os homicídios caíam, outro número subia. Em 2025, policiais mataram 798 pessoas no estado do Rio — o maior número desde 2022. Alta de 13,5% sobre os 703 registrados em 2024.

O pico foi em 2019: 1.814 pessoas mortas por policiais em um único ano. A intervenção federal e a gestão Wilson Witzel (eleito prometendo "atirar na cabecinha") levaram a letalidade policial ao recorde. Depois, veio a queda — restrições do STF, a decisão sobre operações em favelas durante a pandemia, e a ADPF 635. Em 2024, chegou ao menor nível desde 2014: 703 mortes.

Em 2025, a curva voltou a subir.

2.798 mortes por intervenção policial em 2025 — 1 em cada 5 mortes violentas foi causada pela polícia

Em 2025, somando homicídios dolosos (2.844), latrocínios (77) e feminicídios (105), o total de mortes violentas intencionais chegou a 3.824. Desses, 798 foram por ação policial — ou seja, 20,9% de todas as mortes violentas intencionais do estado foram causadas pela própria polícia do estado.

O número de outubro de 2025 chama atenção: 175 mortes por intervenção policial em um único mês — mais do que o dobro da média mensal do ano. Algum evento ou operação pontual concentrou a letalidade naquele período.

Quase 6 mortes por intervenção policial por dia durante outubro. O pico mais alto desde 2022.
Média mensal 2025
67
→
Outubro de 2025
175
Variação: +161%
Após três anos de queda, a letalidade policial voltou a crescer em 2025.
2024
703
→
2025
798
Variação: +13,5%

A cidade do Rio de Janeiro concentra 56% dessas mortes: 449 dos 798 casos registrados em 2025. Duque de Caxias (72) e São João de Meriti (46) completam o topo da lista — municípios da Baixada Fluminense, onde as condições de operação policial são distintas das áreas centrais da capital.

O que é 'intervenção policial' nos dados do ISP/RJ

O ISP/RJ registra como "homicídio decorrente de intervenção policial" as mortes causadas por agentes do estado (Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Penal, Guarda Municipal) em serviço ou fora dele, quando em suposita situação de confronto. A categoria não distingue casos em que a morte era necessária daqueles em que não era — é a soma de tudo. A ADPF 635 (STF, 2020) impôs restrições a operações em favelas em dias de aula, mas não eliminou a categoria. Dados sujeitos a revisão pelo Ministério Público.

03

CRIMES DE RUA EM COLAPSO

A boa notícia está nos crimes que afetam o cotidiano de quem anda nas ruas. Roubo a pedestre, roubo em coletivo, roubo de veículo — todos em queda consistente.

Roubo a pedestre: de 30.870 em 2024 para 27.583 em 2025 — queda de 10,6%. Desde o pico histórico de 2016 (93.818 casos), caiu 71%. Roubo em coletivo: de 6.235 para 3.701 — queda de 40,6%. Desde o pico de 2018, praticamente dividiu por quatro.

O que explica essa queda estrutural? Não existe uma resposta única. Câmeras urbanas cresceram nos últimos anos no Rio. O PIX reduziu o dinheiro em espécie circulando. A própria consolidação territorial de milícias e tráfico em certas áreas pode ter reduzido disputas caóticas que geravam mais roubo de oportunidade. E a pandemia de 2020, que deslocou hábitos de circulação, parece ter criado um novo patamar — os índices nunca voltaram ao nível pré-pandemia.

Queda de 71% em nove anos — a maior retração entre os crimes de rua no estado.
Pico (2016)
93.818
→
2025
27.583
Variação: -71%

O lado oposto: furto de celular subiu 24,6% (de 37.397 para 46.606) e roubo de celular subiu 19,4% (de 21.416 para 25.581). Quando o roubo com violência fica mais arriscado, o crime adapta — vai pro furto, que é mais discreto, menos perigoso, e mais difícil de rastrear.

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04

O QUE AINDA PREOCUPA

Nem tudo aponta pra baixo. Dois números merecem atenção específica.

O primeiro é o estupro. Em 2025, o RJ registrou 5.867 casos — alta de 0,8% sobre os 5.819 de 2024. O número soa pequeno, mas esconde uma tendência: em fevereiro de 2026, foram 471 casos, contra 435 em fevereiro de 2025. Alta de 8,3% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

3.471 estupros em fevereiro de 2026 — alta de 8% vs fevereiro de 2025

O dado de estupro é provavelmente o mais subnotificado de toda a estatística criminal brasileira. Estimativas internacionais sugerem que menos de 10% dos casos chegam a registro. O crescimento nos números oficiais pode significar mais crimes, mais denúncias — ou os dois. Não dá pra saber com os dados disponíveis.

O segundo ponto de atenção é o estelionato. Com 146.981 registros em 2025 (alta de 2% sobre 2024), fraudes e golpes já são o crime mais registrado no estado — superando roubos, lesões corporais e furtos. O crime migrou de rua pra tela.

05

AS CIDADES DO RIO

O Rio de Janeiro (município) concentra quase 34% dos homicídios dolosos do estado: 965 dos 2.844 registrados em 2025. Mas a Baixada Fluminense aparece com força quando se olha proporcionalmente.

Nova Iguaçu (229), Duque de Caxias (193) e Belford Roxo (115) — três municípios da Baixada — somam 537 homicídios dolosos. Quase tanto quanto a capital, com populações menores. A taxa por 100 mil habitantes na Baixada é consistentemente superior à da capital.

Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, RJ
Foto: Cleber Nadalutti / Unsplash

São Gonçalo, do outro lado da Baía, aparece com 80 casos — número que caiu expressivamente nos últimos anos. Niterói, segunda maior cidade do estado por renda, não aparece no topo: 17 mortes por intervenção policial em 2025, mas número de homicídios dolosos fora do ranking dos 8 maiores.

O que os números do Rio deixam como questão aberta é exatamente o paradoxo do título: um estado que ficou objetivamente menos letal para a maioria da sua população, mas que concentra, cada vez mais, esse excedente de violência nas mãos da própria polícia. Se a queda dos homicídios se sustenta enquanto a letalidade policial volta a subir, o Rio não resolveu o problema da violência — redistribuiu quem tem o poder de matar. Saber se essa é uma nova fase ou um desvio de rota depende dos dados dos próximos dois anos.

06

METODOLOGIA E FONTES

Metodologia, fonte, ressalvas e limites

Fonte dos dados: Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP/RJ), dados agregados por município, mês e tipo de crime, publicados em dados abertos pelo ISP. Acesso em abril de 2026.

Série histórica: 2003 a 2025 para homicídios dolosos e intervenção policial. 2015 a 2025 para estupros e crimes de rua. Dados de 2026 disponíveis para jan-fev apenas.

Mortes violentas intencionais (MVI): soma de homicídios dolosos + latrocínios + feminicídios + mortes por intervenção policial. O total de 3.824 em 2025 é calculado diretamente dos dados do ISP/RJ.

Intervenção policial: categoria oficial do ISP/RJ que registra mortes causadas por agentes do estado (PM, PC, PP, GM) em serviço ou fora dele. Não distingue casos justificados de não justificados — é a soma de todas as mortes registradas nessa categoria.

Granularidade: dados agregados por município e mês. Não há detalhamento por bairro ou por perfil da vítima nos dados públicos do ISP/RJ (diferente do RS, que publica registros individuais).

Variação mensal (outubro 2025): o pico de 175 mortes por intervenção policial em outubro de 2025 está presente nos dados brutos do ISP/RJ. Não localizamos operação específica documentada publicamente para explicar o pico — pode ser revisão retroativa de casos, operação de grande escala, ou combinação de fatores.

Estupro: subnotificação extrema — dados do ISP/RJ representam apenas os casos formalmente registrados. Estimativas internacionais indicam que a maioria dos casos não é registrada. Crescimento nos números pode refletir tanto aumento de ocorrências quanto aumento no registro.

Limitações: esta análise é descritiva — não fazemos inferências causais sobre o que gerou as quedas ou altas observadas. Extração realizada em 12 de abril de 2026.

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Citado por Gazeta do Povo, O Eco, Tribuna do Planalto

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. O Rio mata menos — mas a polícia mata mais. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/criminalidade-rj-2025>. Acesso em: 20 out. 2026.

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Reportagem sobre violência fundiária e baixa punição de crimes ambientais na Amazônia, cruzando dados do Crime Brasil com CPT, Ibama, CNJ e MapBiomas.

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Entrevista do Instituto Humanitas Unisinos que cita a plataforma como fonte de microdado criminal aberto.

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