
A CPI do Crime Organizado encerrou em 14 de abril de 2026. Durou 120 dias, ouviu dezenas de depoimentos, produziu um relatório que pede a cabeça de ministros do STF — e estimou que o crime organizado custa ao Brasil ao menos R$ 450 bilhões por ano, só em impactos diretos ao setor privado.
Esse número é o diagnóstico do custo. Mas não explica o mecanismo. Como o crime organizado chega a esse patamar sem que as pessoas morram mais?
Os dados de RS e RJ respondem essa pergunta. E a resposta é incômoda.
01
O PARADOXO: MENOS MORTES, MAIS TRÁFICO
No RS, homicídios dolosos caíram 40,5% entre 2022 e 2025. No RJ, 7%. Isso é real — e, à primeira vista, é uma boa notícia.
Mas no mesmo período, o tráfico foi na direção contrária. RS: +11,8%. RJ: +23,5%. Os dois estados, ao mesmo tempo, no mesmo sentido.
Isso não é coincidência regional. É um padrão.
O RS teve a queda mais consistente: sem nenhum ano de alta, trajetória contínua para baixo. O RJ oscilou — chegou a subir em 2023, depois recuou. Mas nos dois casos, o resultado final de 2025 ficou abaixo de 2022.
Enquanto os homicídios caíam nos dois estados, o tráfico subia nos dois. Não existe explicação que trate esses movimentos como independentes. A pergunta não é "por que o tráfico sobe?" — é "por que os homicídios caem enquanto o tráfico sobe?"
1.O paradoxo não é acidente — é sinal de controle
Quando uma facção já domina um território, ela não precisa matar todo dia. Precisa cobrar, distribuir, expandir. O ratio tráfico/homicídio no RS passou de 10,3x em 2023 para 18,6x em 2025. Não é menos crime. É crime mais eficiente.
02
O RS SOB A LUPA: O INTERIOR AVANÇA
No RS, o dado que mais revela não é a queda dos homicídios. É onde o tráfico está crescendo.
Porto Alegre concentra 16,6% dos registros de tráfico do estado — exatamente proporcional ao seu peso populacional. A capital oscilou: caiu em 2024, voltou em 2025. Nenhuma tendência clara. Quem cresceu de forma consistente, sem recuo, foi o interior.
Caxias do Sul saiu de 347 registros em 2023 para 648 em 2025: alta de 86,7% em dois anos. Santa Maria foi de 514 para 810 — alta de 57,6%. Cidades do interior gaúcho, sem histórico de domínio de facções na mesma escala das metrópoles, crescendo mais rápido que a capital.
No mesmo período, o crime se armou. Registros de comércio ilegal de arma de fogo saíram de 24 em 2023 para 46 em 2025 — quase dobrou. Não é que a polícia passou a registrar mais. É que há mais movimento de armamento ilegal circulando.
Três movimentos simultâneos no RS: menos homicídios, mais tráfico no interior, mais armamento. Não são dados isolados. São os três sinais clássicos de expansão territorial de crime organizado — fase de consolidação, não de guerra.
2.Interior do RS: expansão sem confronto
Caxias +86,7%, Santa Maria +57,6% no tráfico. Armas ilegais +91,7%. Homicídios em queda. Esse padrão — armamento crescendo enquanto mortes caem — é o oposto do que se espera de crime desorganizado. É o que acontece quando uma organização já estabeleceu controle e está expandindo o alcance sem precisar brigar.
Explore os dados do RS
Veja a evolução de homicídios, tráfico e armamento por município no Crime Brasil.
03
O RJ SOB A LUPA: POLÍCIA MATA MAIS, TRÁFICO TAMBÉM SOBE
No Rio de Janeiro, o dado que chama atenção não é o tráfico sozinho. É o que acontece quando você coloca mortes policiais e tráfico na mesma linha do tempo.
A letalidade policial no RJ teve uma longa trajetória de queda: de 1.814 mortes em 2019, chegou a 703 em 2024 — o menor nível em uma década. Em 2025, reverteu: 798 casos, alta de 13,5% em relação a 2024. Ainda longe do pico histórico, mas a tendência foi interrompida.
Em outubro de 2025, o RJ registrou 175 mortes por intervenção policial em um único mês — o número mais alto do ano. Nesse mesmo período, o tráfico seguia a trajetória de alta que levaria a 23,5% de crescimento no acumulado anual.
O que o RJ mostra é diferente do RS, mas complementa a mesma tese. Nos anos em que a polícia matava mais (2019–2022), o tráfico também era alto. Nos anos em que matava menos (2023–2024), o tráfico começou a subir. Em 2025, os dois subiram juntos.
A letalidade policial não controlou o tráfico nos anos de alta. E a redução da letalidade também não. O tráfico tem lógica própria — e ela não depende da intensidade da repressão para crescer.
3.RJ: 1 em cada 5 mortes violentas foi pela polícia
Em 2025, com 2.844 homicídios dolosos e 798 mortes por intervenção policial, o RJ registrou uma morte policial pra cada 3,6 homicídios. A polícia é responsável por uma fatia significativa da violência letal — e o tráfico cresceu 23,5% no mesmo ano. Os dois indicadores se movendo juntos, sem um neutralizar o outro.
04
O QUE ISSO SIGNIFICA — E O QUE A CPI NÃO VIU
A CPI do Crime Organizado chegou ao número de R$ 450 bilhões por ano como custo ao setor privado. É o maior diagnóstico nacional já feito sobre o tema. Mas o relatório trata o crime organizado como um problema de infiltração — nas instituições, na economia formal, no sistema financeiro.
Os dados estaduais mostram algo diferente: o crime organizado é também um problema de expansão territorial silenciosa.
A queda dos homicídios no RS e no RJ não é sinal de menos crime. É sinal de mais controle. Quando uma facção já domina uma área, ela não precisa matar todo dia — precisa cobrar, distribuir, lavar dinheiro. O tráfico subindo enquanto os homicídios caem é a assinatura desse processo.
No RS, o interior crescendo mais que a capital conta a história da expansão: o crime organizado está chegando em cidades que antes não estavam no radar. Caxias do Sul e Santa Maria não são novas capitais do crime — são novas fronteiras. E o armamento crescendo 91,7% diz que essa expansão não é desarmada.
No RJ, a dinâmica é mais complexa. A polícia mata mais em 2025 que em 2024, e o tráfico também cresce. Nenhum dos dois movimentos cancela o outro — e isso é o que torna o cenário carioca mais difícil de resolver só com mais repressão.
Os R$ 450 bilhões da CPI são o custo do crime consolidado. Os dados de RS e RJ mostram como esse crime se consolida: menos confronto aberto, mais território, mais armamento, mais tráfico. O crime organizado brasileiro está ficando mais silencioso. E silêncio, nesse caso, não é o mesmo que ausência.
Explore os dados do RJ
Veja a evolução de homicídios, letalidade policial e tráfico por município no Crime Brasil.
metodologia e limites
Fontes e metodologia
Os dados de RS são registros individuais de ocorrência da SSP/RS (Lei 15.610/2021, dados abertos), abrangendo 2022–2025, com 2,9 milhões de registros no banco. Tráfico de drogas no RS usa série a partir de 2023 — o volume de 2022 (602 registros) indica cobertura incompleta naquele ano.
Os dados de RJ são agregados municipais do ISP/RJ (Instituto de Segurança Pública), série 2003–2025.
Taxas por 100 mil habitantes calculadas com base nas projeções populacionais IBGE 2022: RS 11.466.630, RJ 17.463.349.
Todos os números foram verificados diretamente contra o banco de dados em 14/04/2026. O banco é atualizado semanalmente com novos arquivos das secretarias estaduais.
Limitação importante: registros policiais capturam apenas parte da criminalidade real. Tráfico, lavagem de dinheiro e associação criminosa têm subnotificação estimada em 50–80% pelos pesquisadores do FBSP.