
Existe um cenário em que ser motorista em Tocantins é mais arriscado que cruzar com um assaltante. Esse cenário aconteceu em julho de 2024.
Naquele mês, 63 pessoas morreram no trânsito do estado. No mesmo mês, os homicídios dolosos somaram 35. Quase o dobro de mortes vieram do volante e da rodovia — não de armas.
Não foi um mês isolado. Em 7 dos 12 meses de 2024, as mortes no trânsito empataram ou superaram os assassinatos. E quando a poeira do ano assentou, o estado contava 642 mortes em sinistros viários contra 658 homicídios. A diferença: 16 vidas.
Tocantins está prestes a viver uma virada estatística que poucos estados brasileiros conhecem.
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A ESCALA DAS MORTES
Entre 2020 e 2026, o trânsito de Tocantins matou 3.579 pessoas. Isso equivale a 1 morte a cada 14 horas, em média, ao longo desses 6 anos.
São três categorias na soma. A mais comum é "morte acidental de trânsito" (1.472 registros) — sinistros sem identificação clara de culpado. Em segundo, "homicídio culposo no trânsito" (1.103) — quando há um motorista responsabilizado, geralmente por imprudência. E em terceiro, "acidentes com vítima fatal provocados pela própria vítima" (1.004) — em geral motociclistas e pedestres atropelados.
A trajetória é desconfortável. De 2020 para 2024, as mortes no trânsito cresceram 46% — saíram de 439 para 642. Os homicídios dolosos seguiram caminho oposto: 979 em 2020, 658 em 2024 (queda de 33%).
Enquanto Tocantins comemorava — com razão — a redução dos assassinatos, o asfalto fazia mais vítimas a cada ano. Quase ninguém estava olhando.
A curva que se cruza
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QUEM MORRE NO ASFALTO
O perfil das vítimas no trânsito tocantinense é quase um espelho do perfil dos homicídios — só que sem motivação, sem briga, sem dívida. Apenas o acaso e o asfalto.
Dos 3.579 mortos, 2.792 são homens — 80% do total. Apenas 687 são mulheres. A diferença não é maior do que a observada nos homicídios dolosos do estado, mas chama atenção porque, no trânsito, ela revela algo cultural: quem dirige (e quem se arrisca) é majoritariamente homem.
A faixa que mais morre é a dos 35 aos 49 anos — 967 mortes. São pessoas em plena idade produtiva, em geral pais e mães de família, profissionais com filhos pequenos ou adolescentes em casa. A faixa seguinte, 25 a 34, soma 690 mortes. Juntas, elas concentram 46% dos óbitos.
O dado que chama atenção é os menores de 18: 353 mortes. Uma criança ou adolescente morre no trânsito de Tocantins a cada 6 dias.
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A HORA E O DIA DO PERIGO
O trânsito tem ritmo. E o ritmo da morte em Tocantins tem hora marcada.
O pico está entre 17h e 20h. Às 19h, o registro chega a 336 mortes ao longo de 6 anos — o maior número da série. Às 18h, são 279. Às 17h, 239. Esse intervalo de 3 horas concentra o que se costuma chamar de "rush" — fim do expediente, motoristas cansados, motoristas que fizeram o happy hour antes de pegar o carro, motoboys correndo para entregar o último pedido.
O dia da semana muda tudo. Domingo lidera com 848 mortes ao longo da série — 24% do total. Sábado vem em seguida, com 755. Os dois dias somam 1.603 mortes — 45% do total em apenas 28% dos dias da semana.
Em compensação, terça-feira é o dia mais seguro: 311 mortes em 6 anos. Menos da metade de domingo. Para quem dirige em Tocantins, o final de semana custa mais que o dobro.
Domingo, o dia mais letal
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O ÁLCOOL VIRADO COMBUSTÍVEL
Há um número que cresce mais rápido que as próprias mortes: as prisões por dirigir embriagado.
Em 2020, Tocantins prendeu 653 motoristas conduzindo sob efeito de álcool ou drogas. Em 2025, foram 1.147. Aumento de 75% em 5 anos. Em média, mais de 3 motoristas por dia tirados das ruas em flagrante de embriaguez.
A leitura mais otimista desse dado é que a fiscalização melhorou. Operações da PRF e da Polícia Militar ficaram mais frequentes, mais regulares, mais agressivas — e o resultado é mais flagrantes registrados. Pode ser.
Mas a leitura mais provável é que dirigir bêbado virou rotina em Tocantins. As 5.529 prisões por embriaguez no período representam quase tantos casos quanto o tráfico de drogas no mesmo intervalo (5.570). E para cada motorista preso, há uma quantidade indeterminada que dirigiu bêbado e não foi parado.
A conexão com as mortes não é direta nos registros — a SSP/TO não publica a taxa de embriaguez nos sinistros fatais. Mas a sobreposição entre o crescimento das duas curvas é difícil de ignorar.
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PALMAS, ARAGUAÍNA E A BR-153
Três cidades concentram quase um terço das mortes. Palmas, a capital, registra 551 óbitos. Araguaína, polo regional do norte, soma 352. Porto Nacional, vizinha de Palmas, fecha o pódio com 206. Juntas, são 31% do total estadual.
Mas o que conecta a maioria desses municípios é a BR-153 — a Belém-Brasília. A rodovia corta Tocantins de norte a sul ao longo de 700 km, passando por Araguaína, Guaraí, Paraíso do Tocantins, Gurupi e Colinas do Tocantins. Todas essas cidades estão entre as 8 com mais mortes no trânsito do estado.
A BR-153 é, há décadas, considerada uma das rodovias mais perigosas do país. Tem trechos de pista simples, fluxo intenso de caminhões pesados, ultrapassagens em curva e iluminação precária. Para muitos motoristas tocantinenses, ela é o caminho diário entre cidade e roça, entre Palmas e o aeroporto de Guaraí, entre o trabalho e o jantar de domingo. E é também onde muitos não voltam.
Dos 3.579 óbitos, 350 foram registrados em "Área Rural" — quase exclusivamente rodovias. Outros 2.465 foram em "Via Pública" — o trânsito urbano que mata todos os dias dentro das próprias capitais regionais.
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O QUE OS DADOS NÃO DIZEM
Os dados públicos da SSP/TO não permitem cruzar embriaguez com sinistro fatal no mesmo registro. Não há também detalhamento sobre tipo de veículo (carro, moto, ônibus) nem sobre se a vítima era condutor, passageiro ou pedestre. Esses recortes precisariam vir de bases complementares — DATASUS, DENATRAN, PRF — que não estão integradas a este conjunto.
A categoria "vítima fatal provocada pela própria vítima" também merece atenção. Os 1.004 registros desse tipo provavelmente concentram motociclistas e pedestres — vítimas vulneráveis em vias projetadas para carros. Mas o dado em si não permite afirmar com precisão.
E os 6 anos da série ainda são pouco para projeções definitivas. O trânsito tocantinense pode estar em alta cíclica, ligada à expansão da frota, à urbanização de novas regiões do estado, ao crescimento da motociclismo de aplicativo. Saber se a tendência vai persistir — ou se 2025 e 2026 marcam uma reversão — só os próximos anos vão dizer.
O que os dados deixam claro é que o trânsito virou um problema de segurança pública em Tocantins. E ainda não está sendo tratado como tal.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia e fontes
Dados de trânsito: registros da Secretaria de Segurança Pública de Tocantins (SSP/TO), disponibilizados como dado aberto via Lei de Acesso à Informação. A categoria "mortes no trânsito" agrega três tipos de enquadramento: Homicídio Culposo no Trânsito (1.103 registros), Morte Acidental de Trânsito (1.472) e Acidente de Trânsito com Vítima Fatal Provocado pela Própria Vítima (1.004). Período: janeiro de 2020 a fevereiro de 2026.
Comparação com homicídios: os 4.972 homicídios dolosos do mesmo período correspondem ao tipo "Homicídio" registrado pela SSP/TO. Não inclui feminicídio (432), latrocínio nem outros crimes letais — apenas homicídio doloso na classificação policial.
Embriaguez ao volante: contagem de registros do tipo "Conduzir Veículo sob Efeito de Álcool ou de Drogas" (5.529 entre 2020 e 2026). O dado representa flagrantes — não acidentes — e portanto reflete tanto o comportamento dos motoristas quanto a intensidade da fiscalização.
Hora e dia da semana: os campos hora_fato e data_fato são preenchidos pelo policial responsável pelo boletim. Quando ausentes ou inconsistentes, os registros foram excluídos da análise específica de hora ou dia, mas mantidos nos totais. Aproximadamente 6 registros tinham hora inválida.
Faixas etárias: a idade da vítima é informada quando identificada no local ou no atendimento médico. Vítimas sem idade (cerca de 5% do total) foram excluídas da análise por faixa etária mas mantidas nos totais.
Geografia: a coluna municipio_fato indica o município onde o sinistro ocorreu, não o município de residência da vítima. Isso explica a alta participação de cidades cortadas pela BR-153, mesmo quando a vítima é de fora.
2026 parcial: os dados de 2026 vão até fevereiro/março e foram destacados como "parcial" nos gráficos. Não devem ser comparados aos anos completos.
Limitações: os registros administrativos da SSP capturam o que foi reportado às autoridades. Sinistros sem boletim de ocorrência ou com classificação imprecisa não estão refletidos. Comparações com outros estados foram limitadas pela ausência de dados detalhados de trânsito em RS, RJ e MG nos registros policiais com o mesmo nível de granularidade.
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