Em 2018, a cidade de São Paulo concentrava quase 18% de todas as prisões por tráfico de drogas do estado. Em 2025, essa fatia caiu para 14%. A queda não é só de proporção — é de volume absoluto: de 8.651 para 6.489 ocorrências, menos 25%.

O interior do estado não teve o mesmo comportamento. Em 2022, as 39.671 ocorrências de tráfico de 2018 tinham derretido para 29.759 — queda de 25%. Em 2025, esse número voltou a 39.018: praticamente igual a sete anos atrás.
A diferença entre os dois mundos — capital e interior — não é só estatística. É estrutural. E os dados da SSP-SP compilados pelo Crime Brasil para os 645 municípios paulistas, mês a mês, de janeiro de 2018 a dezembro de 2025, permitem ver esse deslocamento com uma precisão que os relatórios estaduais agregados apagam.
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A QUEDA E A RECUPERAÇÃO
Olhando o estado como um todo, a curva do tráfico em SP tem um formato de "V" assimétrico.
De 2018 a 2022, o estado perdeu 30% das ocorrências de tráfico: de 48.322 para 33.682. A pandemia contribuiu para a queda de 2020 — menos circulação, menos flagrantes. Mas a queda continuou em 2021 e foi mais acentuada em 2022, sugerindo algo além do efeito covid.
A partir de 2023, a recuperação é consistente. Em 2025, o estado chegou a 45.507 — ainda 6% abaixo de 2018, mas 35% acima do fundo de 2022. O ritmo de crescimento de 2024 para 2025 foi o maior da série pós-2022: +20%.
1.O mínimo de 2022 coincide com o pico de concentração do PCC no tráfico internacional
A queda de 2018 a 2022 (-30%) ocorreu exatamente enquanto o PCC consolidava sua transição do varejo local para o tráfico internacional via Porto de Santos. Menos varejo na rua = menos flagrantes de tráfico. A partir de 2023, com o Comando Vermelho expandindo presença em 23 municípios paulistas e grupos independentes preenchendo espaços, o número de prisões voltou a subir — mesmo sem o PCC dominar o varejo como antes.
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CAPITAL E INTERIOR: DOIS MAPAS DIFERENTES
O agregado estadual esconde a diferença mais importante da série.
O interior praticamente voltou ao ponto de partida: 39.671 em 2018, 39.018 em 2025. Uma diferença de 653 ocorrências em sete anos — menos de 2%.
A capital não voltou. Saiu de 8.651 em 2018, chegou ao fundo em 2022 com 3.923 — queda de 55% — e em 2025 atingiu 6.489. Cresceu, mas ainda está 25% abaixo de 2018.
2.Em 2022, a capital tinha menos da metade das prisões por tráfico de 2018 — o interior ainda tinha 75%
A queda da capital foi mais rápida e mais profunda que a do interior. Em 2022, a cidade de SP registrou 3.923 ocorrências — 55% abaixo de 2018. O interior caiu 25% no mesmo período. A assimetria sugere que a reorganização do mercado de drogas atingiu a capital com mais intensidade, possivelmente porque o PCC mantinha presença mais concentrada e visível ali — e sua retirada do varejo deixou menos disputas visíveis.
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OS MUNICÍPIOS QUE EXPLODIRAM
Dentro do interior, o crescimento não é uniforme. Há municípios que saíram de níveis modestos para máximos históricos em dois ou três anos.
O caso mais extremo é Sumaré. Com cerca de 291 mil habitantes, a cidade registrou 151 prisões por tráfico em 2024 — número dentro da média histórica. Em 2025, saltou para 581: +285% em doze meses. Nenhum outro município com série histórica completa cresceu tanto em um único ano.
A série histórica de municípios selecionados deixa o padrão claro:
| Município | 2022 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Sumaré | 185 | 581 | +214% |
| Jundiaí | 138 | 395 | +186% |
| Hortolândia | 274 | 501 | +83% |
| Itaquaquecetuba | 252 | 596 | +136% |
| Piracicaba | 585 | 808 | +38% |
| Rio Claro | 350 | 512 | +46% |
| Leme | 288 | 490 | +70% |
Sumaré, Jundiaí, Hortolândia e Leme formam um corredor na Região Metropolitana de Campinas — exatamente a área mapeada em investigações do MPSP como rota de expansão de grupos ligados ao tráfico de médio porte, incluindo a estrutura conhecida como "Bonde do Magrelo", que teria se ramificado por sete municípios vizinhos.
3.O corredor Campinas–Sorocaba concentra os maiores saltos de tráfico do interior paulista
Sumaré (+214% vs 2022), Jundiaí (+186%), Hortolândia (+83%) e Leme (+70%) formam um arco em torno de Campinas com crescimento consistente. É a mesma região identificada em operações do GAECO e do MPSP como foco de disputas territoriais entre grupos independentes que ocuparam espaços deixados pela reorganização do PCC. O dado não prova a causa — mas o padrão geográfico é difícil de ignorar.
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RIO CLARO: O LABORATÓRIO DA GUERRA
Rio Claro é o caso que mais apareceu na imprensa. A cidade de 200 mil habitantes no interior paulista virou símbolo da disputa entre o PCC e o Comando Vermelho — uma guerra pelo controle de um mercado que historicamente não teve um "dono" consolidado.
Os dados contam uma história em duas fases. Entre 2019 e 2022, o tráfico caiu de 529 para 350 enquanto os homicídios subiram de 13 para 33 — o sinal clássico de uma disputa territorial violenta enquanto o volume de flagrantes cai (menos controle = menos movimento aberto = menos prisões, mais mortes). A partir de 2023, com operações do GAECO e da Polícia Civil na região, as prisões voltaram a subir e os homicídios estabilizaram.
Em 2025, Rio Claro registrou 512 ocorrências de tráfico — maior número desde 2019 — e 26 homicídios dolosos. Taxa de tráfico por 100 mil: 255 por 100 mil habitantes, contra 56 por 100 mil na capital.
4.Rio Claro: taxa de tráfico quase 5× a da capital paulista
Com 512 prisões por tráfico em 200 mil habitantes, Rio Claro tem uma taxa de 255 por 100 mil — quatro vezes e meia a da capital (56/100k). Piracicaba, com 808 prisões em 412 mil habitantes, chega a 196/100k. Sumaré, com 581 prisões em 291 mil, atinge 199/100k. O interior paulista não é mais o cenário tranquilo que o contraste com o Grande SP sugeria.
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APREENSÕES EM RECORDE — O QUE ISSO SIGNIFICA
Além das prisões por tráfico e porte, a SSP-SP registra separadamente as operações de apreensão de entorpecentes — os flagrantes em que a polícia recolhe drogas sem necessariamente prender alguém por tráfico ou porte.
As apreensões cresceram 54% em sete anos: de 4.070 em 2018 para 6.283 em 2025. O nível de 2025 já é o maior da série — e isso é consistente com o dado divulgado pela Agência SP em 2025: o volume total de drogas apreendidas no estado já havia superado o de todo o ano anterior antes de dezembro.
O crescimento das apreensões é um sinal duplo. Por um lado, reflete maior capacidade e agressividade do policiamento antidrogas. Por outro, indica maior volume de drogas circulando — uma oferta que não diminuiu apesar da reorganização das facções.
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O QUE EXPLICA O DESLOCAMENTO
A hipótese mais consistente com os dados é a de uma reorganização estrutural do mercado de drogas em SP, com dois movimentos simultâneos:
1. O PCC se retirou do varejo da capital. O grupo passou a maior parte dos anos 2020-2022 consolidando sua posição no tráfico internacional — especialmente o escoamento de cocaína pelo Porto de Santos, documentado pela PF e coberto pelo Wall Street Journal em 2026. O varejo local, especialmente na capital onde o monitoramento policial é mais intenso, ficou em segundo plano. O resultado: queda de 55% nas prisões por tráfico na capital entre 2018 e 2022.
2. O interior ficou fragmentado. Sem a hegemonia do PCC no varejo de cidades médias, novos grupos emergiram. O Comando Vermelho, com presença documentada em 23 municípios paulistas, ocupou parte do espaço. Grupos independentes como o "Bonde do Magrelo" se expandiram regionalmente. O resultado: Sumaré +285%, Jundiaí +186%, todo o corredor Campinas–Sorocaba em alta.
3. A policia respondeu com mais apreensões. O crescimento de 54% nas operações de apreensão indica que a resposta institucional também intensificou — o que explica parte do crescimento de registros sem implicar necessariamente que o tráfico em si cresceu na mesma proporção.
O dado que fica: em 2025, o interior de São Paulo registrou 39.018 ocorrências de tráfico — quase o mesmo que em 2018. A capital, que foi o centro histórico do controle do PCC sobre o varejo paulista, ainda está 25% abaixo. O mapa do crime organizado em SP não é mais o mesmo de antes da pandemia. E os dados mostram isso antes de qualquer relatório oficial.
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METODOLOGIA E FONTES
Os dados de tráfico de drogas por município de São Paulo (2018–2025) são do Crime Brasil, compilados a partir das planilhas mensais de ocorrência publicadas pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP). A tipificação "Ocorrência de Tráfico de Entorpecentes" corresponde à categoria da SSP para flagrantes de tráfico; "Apreensão de Entorpecentes" corresponde a operações de confisco sem tipificação de flagrante pessoal.
Populações usadas para taxa por 100 mil: Censo IBGE 2022 (Rio Claro: 200.699; Sumaré: 291.276; Piracicaba: 412.298; cidade de São Paulo: 11.451.245).
Dados externos: expansão do CV em 23 municípios de SP (Metrópoles/MPSP, 2025); "Bonde do Magrelo" e corredor Campinas–Sorocaba (operação GAECO, 2025); volume de apreensões 2025 superando 2024 (Agência SP, 2025); PCC e tráfico internacional via Santos (Agência Brasil/WSJ, 2026).