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Tarifa zero baixou as mortes em Canoas? O que os dados mostram

Por Valdo Stonehart·Metodologia

Verificado em 8 de maio de 2026

No entorno do Paradão Victor Barreto, acidentes caíram 100%. Na cidade inteira, subiram 19,4%. As mortes em acidente de transporte ficaram em 42 em 2024 — dentro da margem histórica. O que a tarifa zero conseguiu e o que não conseguiu entregar no trânsito de Canoas, e por que a literatura europeia esperava exatamente esse resultado.

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Abrigo de parada de ônibus 'Parada Fácil' do sistema municipal de Canoas/RS
Sistema municipal de Canoas: tarifa zero implantada em maio/2024, definitiva por decreto em fev/2026. Foto: Bravotata, Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

Quem está atrás de manchete fácil tem dois caminhos pra contar a história do trânsito de Canoas em 2025. "Acidentes caem 100% após tarifa zero" — verdade no Paradão Victor Barreto, falsa pra cidade inteira. "Acidentes sobem 19,4% mesmo com passe livre" — verdade pro município, falsa pro recorte local. Os dois números são oficiais. Os dois vêm da mesma Secretaria de Mobilidade.

A leitura honesta é a terceira: tarifa zero produziu ganho operacional onde houve intervenção viária integrada, e nada mais. A frota individual continuou crescendo, os acidentes globais subiram, e as mortes em acidente de transporte ficaram estáveis. Exatamente o que a literatura europeia documenta há 12 anos.

Esta análise é parte de uma série de três sobre o caso Canoas. A peça-mãe é a +444% de passageiros e a Europa (demanda, custo, comparação internacional). A irmã é o ar de Canoas em 2024 (FEPAM, NO₂, frota elétrica).

01

O RECORTE QUE MELHOROU — PARADÃO VICTOR BARRETO

A própria Secretaria de Mobilidade Urbana de Canoas reportou ganhos operacionais mensuráveis depois do reordenamento viário associado à tarifa zero, especialmente no entorno do Paradão Golden Center / Av. Victor Barreto:

  • Acidentes no entorno: 7 ocorrências (jul-dez/2024) → 0 (jan-set/2025). Queda de 100% na faixa local.
  • Tempo de viagem dos ônibus -25% em vias críticas como R. Fioravante Milanez e R. Domingos Martins, no pico tarde (17h-18h59).

1.1.Onde houve intervenção viária, o ganho foi imediato e mensurável.

Vale o caveat: esses ganhos são fruto de reorganização de paradas, faixas e semáforos especificamente naquela área — não da política de gratuidade em si. Mas a tarifa zero criou a pressão operacional (mais ônibus, mais passageiros) que motivou a intervenção. É um co-benefício esperado, não uma propriedade automática do passe livre.

A operação SOGAL também escalou: +18% nos horários ofertados (708 → 840), com 132 horários extras só aos sábados. É o maior reforço de oferta desde a pandemia de 2020. Mais ônibus rodando em vias mais bem ordenadas = menos conflito viário no recorte local.

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02

A CIDADE INTEIRA SUBIU 19,4%

Apesar do ganho local no Paradão, o saldo da cidade é negativo: acidentes de trânsito em Canoas subiram 19,4% em 2025 (6.374 → 7.610), segundo a própria Secretaria de Mobilidade. A Av. Boqueirão lidera com 399 ocorrências. Foi exatamente para combater isso que a prefeitura reativou os radares móveis em 2025/2026.

Por que o número global subiu se houve queda no Paradão? Três hipóteses concorrentes, todas com algum suporte:

1) Mais ocorrências reportadas, não necessariamente mais sinistros. A reativação dos radares + presença mais constante de fiscais de trânsito + integração com o BO Eletrônico podem ter aumentado a notificação de pequenos acidentes que antes ficavam fora do registro oficial.

2) Frota individual continuou crescendo. Como mostra a peça-mãe, a frota individual de Canoas cresceu no mesmo ritmo histórico — 465 veículos novos por mês entre dez/24 e dez/25. Mais veículos circulando = mais probabilidade absoluta de sinistro, mesmo com taxa por veículo-km estável.

3) Demanda induzida em modais não-protegidos. Tarifa zero pode ter aumentado o uso de moto e bike (não pelo carro, pelo ônibus): pessoas que antes não saíam de casa começam a circular. Mais exposição em modais com alta letalidade = mais ocorrências, mesmo que mortalidade absoluta fique estável.

A própria SMT reconheceu, ao reativar os radares, que a alta de 19,4% era um problema. A política não estancou o crescimento dos acidentes — só desacelerou onde houve intervenção viária integrada.

03

AS MORTES — DENTRO DA MARGEM HISTÓRICA

O dado mais sensível — mortes — vem do DataSUS Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), que registra todas as Declarações de Óbito. Filtrando por residentes em Canoas com causa básica de transporte (CID-10 V01-V99):

São 302 mortes entre 2018 e 2024, média anual de 43 óbitos. Em 2024 — primeiro ano cheio de tarifa zero — foram 42 mortes (12,15/100k). Em 2023 — último ano antes do passe livre — foram 45 mortes (13,02/100k).

A queda existe, mas é dentro da margem de variação histórica. A taxa oscilou entre 10,7 e 14,17 mortes/100k entre 2018 e 2024, e o valor de 2024 está bem no meio desse intervalo. Não dá pra atribuir essa pequena oscilação à tarifa zero — pode ser ruído estatístico, sazonalidade, ou efeito real diluído.

3.1.A tarifa zero ainda não produziu queda mensurável de mortes no trânsito de Canoas.

Em 2024, primeiro ano cheio com passe livre universal, Canoas teve 42 mortes em acidentes de transporte (taxa de 12,15/100k habitantes). A média histórica 2018-2023 é de 43 mortes/ano e taxa de 12,5/100k. A diferença não é estatisticamente expressiva. O ridership cresceu 5,4×, mas a mortalidade por acidente de transporte ficou estável.

Limite metodológico importante: o SIM registra residência do óbito, não o local do acidente. Um residente de Canoas que morre em Porto Alegre é contado aqui. Ainda assim, a série captura o que importa pro morador da cidade: a probabilidade de que ele ou um vizinho seja vítima de sinistro fatal de trânsito.

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04

QUEM MORRE NO TRÂNSITO DE CANOAS

A composição modal da mortalidade em Canoas é desigual:

Mais da metade das mortes são motociclistas (26,5%) e ocupantes de automóvel (26,5%). Pedestres respondem por 21,9%. Ciclistas, 10,9%. Cinco em cada dez óbitos no trânsito de Canoas envolvem o condutor ou passageiro de algum veículo individual motorizado — exatamente o público-alvo de qualquer política séria de transferência modal pra ônibus.

A frota Senatran reforça a leitura: motociclistas e ocupantes de automóvel, exatamente o público-alvo de qualquer política de transferência modal pra ônibus, continuaram comprando seus veículos no mesmo ritmo de antes (Senatran XLSX, 9 marcos 2023-2025).

A interpretação prática: tarifa zero não converteu motociclista em passageiro de ônibus em escala. E sem essa conversão, a mortalidade não cai — porque é a moto, não o ônibus, que produz a maioria dos óbitos.

05

O QUE A EUROPA JÁ MOSTROU SOBRE ISSO

A literatura internacional sobre tarifa zero é razoavelmente clara sobre o efeito (limitado) na mortalidade viária:

  • Tallinn (Estônia): ridership do transporte público subiu 14% no primeiro ano de tarifa zero (2013), mas o vehicle-km de carro AUMENTOU 31% (Cats, Susilo & Reimal, 2017, Transportation). Em 10 anos, a fatia modal do carro saiu de 42% para 48%. A taxa de mortalidade no trânsito da cidade não apresentou queda atribuível à política.

  • Hasselt (Bélgica): o sistema fare-free transportou 9× mais passageiros em 2006 do que antes. Apenas 16% dos passageiros novos vinham do carro, 12% da bicicleta, 9% da caminhada e 37% eram viagens completamente novas (demanda induzida). Quem dirige continuou dirigindo.

  • Luxemburgo: o EU Urban Mobility Observatory escreveu, dois anos depois da implantação: "little evidence that such programmes have reduced the number of cars on the road". Sem queda de carro = sem queda esperada de letalidade.

  • 9-Euro-Ticket (Alemanha, 2022): tráfego de carro em Munique caiu apenas 3%. Insuficiente pra mover ponteiro de mortalidade em escala mensurável em 6 meses.

A revisão global de Kębłowski (2020, Transportation) cobre 100+ programas e conclui: "Full fare-free transit does not typically reduce car use unless combined with measures to increase the cost of driving." Sem aumentar o custo de dirigir (pedágio urbano, restrição de circulação, zonas de baixa emissão), a tarifa zero amplia acesso — mas não esvazia ruas. E ruas igualmente cheias, com motociclistas comprando suas motos, mantém a curva de mortalidade no patamar histórico.

5.1.Esperar redução de mortes pela tarifa zero é cobrar dela algo que ela nunca entregou em lugar nenhum.

A literatura é taxativa: tarifa zero é política de equidade e acesso, não de redução de fatalidades. O efeito sobre mortalidade só aparece quando há redução documentada de vehicle-km (que Canoas, como Tallinn e Luxemburgo, NÃO registrou) e/ou medidas paralelas que encareçam o uso do carro. Canoas não tem nenhuma das duas. O resultado de 42 mortes em 2024, dentro da margem histórica, era previsível.

06

O QUE FALTA MEDIR

Para fechar a equação ainda seriam necessários:

  • Bilhetagem mensal granular por bairro de origem — pra mapear onde a demanda induzida está se concentrando.
  • Contagens veiculares nas vias estruturais (BR-116, Av. Boqueirão, Av. Guilherme Schell) — pra correlacionar fluxo medido com sinistralidade observada.
  • Nova pesquisa de origem-destino metropolitana — a última é a Metroplan 2003.
  • Série de acidentes 2024-2025 com geolocalização e tipo de veículo — pra entender se o aumento global é em moto, carro, ou caminhão.
  • Dados de internação por trauma viário (SIH-SUS) — proxy de gravidade que captura sinistros não-fatais.

A reportagem solicitou à SMT-Canoas, em abril/2026, dados de GTFS, bilhetagem mensal e ocupação. Os pedidos têm prazo final em 11 de maio de 2026.

A própria Prefeitura sinalizou caminho: agendou para junho de 2026 um fórum nacional sobre tarifa zero, com participação do TCE-RS, focado em "monitoramento técnico" da política. É o reconhecimento de que, sem dados, a política fica vulnerável.

Explore os dados de Canoas

veja indicadores de Canoas no painel oficial do Crime Brasil — criminalidade, saúde, educação e equipamentos urbanos.

Os outros recortes desta série: +444% de passageiros (peça-mãe) e o ar de Canoas em 2024.

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metodologia e limites

Período coberto: 2018-2024 (mortes) + 2024-2025 (acidentes não-fatais).

Acidentes e mortes:

  • DataSUS SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) — todas as Declarações de Óbito por causa de transporte (CID-10 V01-V99) de residentes em Canoas, 2018-2024. Filtro CODMUNRES == '430460'. Total 302 mortes na série, média 43/ano. Detalhamento por categoria (V20-V29 motociclista, V40-V49 automóvel, etc.). Limitação assumida: o SIM registra residência do óbito, não o local do acidente — um residente de Canoas que morre em Porto Alegre é contado aqui.
  • DETRAN-RS via dados.rs.gov.br — dataset id 0dcc52b1-472c-4cbd-b057-e744aebc7b6f — mortes em acidentes por município 2018-2023 (parcial). Cobertura: federal + estadual + municipal. Usado como sanity-check do SIM.
  • DATATRAN/PRF — acidentes nas BRs em Canoas (BR-116, BR-386, BR-448) 2023-2024, 494 registros geolocalizados.
  • Acidentes 2024-2025 totais (não-fatais): Sec. de Mobilidade de Canoas (via abcmais.com): 6.374 em 2024, 7.610 em 2025 (+19,4%). 28 mortes em 2025 (parcial). Av. Boqueirão lidera com 399 acidentes em 2025.

Recortes locais positivos (Sec. Mobilidade Canoas, via Notícias da Aldeia):

  • Reordenamento Paradão Golden Center / Av. Victor Barreto: 7 acidentes (jul-dez/2024) → 0 (jan-set/2025). Tempo de viagem dos ônibus em R. Fioravante Milanez e R. Domingos Martins: -25% no pico tarde (17h-18h59).
  • Operação SOGAL: 708 → 840 horários ofertados (+18%), +132 horários sábados, frota 70 → 128 ônibus + 27 seletivos.

Comparativo internacional (literatura peer-reviewed sobre tarifa zero universal):

Frota individual (vínculo com mortalidade modal):

  • Senatran (gov.br/transportes) — XLSX mensais, linha "RS / CANOAS" (código IBGE 4304606). 9 marcos: Dez/23, Abr/24, Mai/24, Jul/24, Ago/24, Dez/24, Mai/25, Jul/25, Dez/25. Frota total Dez/25: 247.388 veículos.
  • Pré-tarifa zero (Dez/23 → Abr/24): +508 veículos/mês. Pós-tarifa zero estabilizado (Dez/24 → Dez/25): +465/mês. Praticamente o mesmo ritmo.

Limites assumidos:

  1. SIM registra residência, não local do acidente.
  2. Os dados de acidentes 2024-2025 são auto-reportados pela Sec. de Mobilidade — não há auditoria externa pública.
  3. Sem nova pesquisa OD da RMPA (a última é 2003), qualquer afirmação sobre modal shift real é estimativa.
  4. As 28 mortes de 2025 reportadas pela SMT cobrem apenas parte do ano; o ano fechado pelo SIM só sai em meados de 2026.

O que esta análise NÃO afirma:

  • Não afirmamos redução observada de mortes no trânsito atribuível à tarifa zero. A queda de 13,02 → 12,15 mortes/100k entre 2023 e 2024 está dentro da variação histórica natural da série.
  • Não afirmamos relação causal entre o aumento global de acidentes (+19,4% em 2025) e a tarifa zero. Pode ser efeito-radar, demanda induzida em moto/bike, ou simplesmente continuidade da curva pré-existente.
  • Não afirmamos que a política falhou — afirmamos que ela não tinha como, sozinha, baixar mortalidade sem medidas paralelas que reduzissem vehicle-km.

O que afirmamos: o ganho local no Paradão Victor Barreto é real e auditável (-100% acidentes, -25% tempo de viagem), fruto de reordenamento viário. O aumento global de acidentes (+19,4%) é real e auto-reportado pela própria SMT. A estabilidade da mortalidade é real e documentada por DataSUS SIM. As três coisas convivem — exatamente como a literatura europeia previa.

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CRIME BRASIL. Tarifa zero baixou as mortes em Canoas? O que os dados mostram. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/tarifa-zero-canoas-acidentes-mortes>. Acesso em: 5 nov. 2026.

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