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Em Alagoas, 20.927 mortes violentas em 14 anos — e o perfil das vítimas nunca mudou

Por Israel Lehnen Silva·Metodologia

Verificado em 26 de abril de 2026

Alagoas registrou 20.927 mortes violentas entre 2012 e 2025. No pico, em 2013, havia uma morte a cada 3h54min. A queda de 58% é real — mas 83% das vítimas eram negras e 93% eram homens, em todos os anos da série.

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Destaques
14 anos de dados
20.927
Mortes violentas registradas em Alagoas entre 2012 e 2025 — média de 4 mortes por dia ao longo da série.
Vista aérea de comunidade rural em Alagoas, Brasil — casas modestas ao longo de uma estrada de terra no sertão nordestino
Comunidade rural em Alagoas — vista aérea
Foto: Silvio Fotografias / Pexels

Os dados de criminalidade de Alagoas que chegaram até aqui têm uma singularidade que não aparece em nenhum outro estado: dos 21 mil registros disponíveis, todos são mortes. Não há furtos. Não há ameaças. Não há lesões corporais — apenas eventos letais.

É um recorte parcial da realidade. Mas que carrega um peso difícil de ignorar.

01

A ESCALA DAS MORTES

Entre 2012 e 2025, Alagoas registrou 20.927 mortes violentas. Isso equivale a pouco mais de 4 mortes por dia, em média, ao longo de 14 anos. O pico foi 2013, com 2.247 mortes — uma a cada 3 horas e 54 minutos.

No começo da série, Alagoas estava entre os estados com maior taxa de homicídio do Brasil. Com uma população de cerca de 3,1 milhões de habitantes e mais de 2.200 mortes por ano, a taxa estimada ultrapassava 70 por 100 mil habitantes — um nível comparável ao de países em conflito armado.

A partir de 2015, o número começou a cair. Em 2018, o recuo acelerou. Em 2019, pela primeira vez na série histórica, o total ficou abaixo de 1.100. A pandemia interrompeu brevemente o movimento, com alta de 14% em 2020 — 1.252 mortes frente a 1.096 em 2019. Nos anos seguintes, a queda retomou o ritmo.

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02

O ROSTO DE QUEM MORRE

A queda nos números não apaga o que os dados revelam sobre quem eram as vítimas. O padrão é consistente ao longo de todos os 14 anos da série.

Dos 20.927 registros, 93% são homens — apenas 1.408 vítimas são mulheres. Entre as mortes femininas, 311 foram classificadas como feminicídio. As outras 1.097 mulheres foram registradas como homicídio comum, roubo com resultado morte ou outras categorias — o que levanta a questão de quantas dessas mortes tinham motivação de gênero que não foi reconhecida.

A distribuição por cor é marcada. Excluindo os 1.067 registros sem informação de cor, 79,5% das vítimas são pardas, 7,9% são pretas — totalizando 87% de afrodescendentes entre as vítimas com cor registrada. Alagoas é um estado majoritariamente afrodescendente, mas a concentração de negros entre as vítimas supera ainda assim a composição da população.

Os brancos representam 12,2% das vítimas com cor registrada — enquanto compõem aproximadamente 27% da população do estado segundo o Censo IBGE 2022.

O perfil não muda

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03

A QUEDA REAL, MAS INCOMPLETA

Redução de 1.298 mortes violentas entre o pior ano da série e o mais recente. Em 2025, o estado registrava 1 morte a cada 9 horas.
2013 (pico)
2.247
→
2025
949
Variação: -57,8%

A queda de 58% é real e expressiva. Em termos absolutos, são 1.298 mortes a menos por ano frente ao pico — uma redução concreta que representa vidas preservadas.

Mas o contexto importa. Em 2025, Alagoas ainda registrava 1 morte violenta a cada 9 horas. A taxa estimada por 100 mil habitantes — pouco acima de 30 — ficava acima da média nacional, que nos anos mais recentes girava em torno de 22 por 100 mil segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

A queda veio em duas ondas principais. A primeira, entre 2012 e 2015, reduziu o total em cerca de 500 mortes. A segunda — a mais abrupta — aconteceu entre 2017 e 2019, quando o volume caiu de 1.784 para 1.096. Os programas estaduais de redução de homicídios e a reorganização das forças de segurança têm sido citados como fatores; o dado não permite isolar causas, mas a coincidência de timing sugere alguma relação.

O que os dados também mostram é que a queda não foi linear. O estado teve recuos seguidos de altas (2016, 2020, 2022-2023) antes de chegar ao piso de 2025. A consolidação abaixo de 1.000 mortes anuais — se vier — seria uma virada histórica.

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04

MACEIÓ: UM TERÇO DO ESTADO

Em 14 anos, Maceió concentrou 6.696 homicídios — 33% do total estadual, em uma cidade com cerca de 1 milhão de habitantes.

No pico, em 2013, a capital registrou 813 mortes violentas — uma taxa estimada acima de 80 por 100 mil, similar à de zonas de conflito. Em 2025, esse número caiu para 358. A trajetória de queda em Maceió acompanhou a do estado, mas a concentração da violência na capital nunca perdeu peso relativo.

A segunda cidade com mais mortes em 2025 foi Arapiraca, com 63 registros — menos de um quinto do total de Maceió. Isso reforça o quanto a capital domina a estatística estadual: basta entender o que acontece em Maceió para compreender a maior parte da violência letal de Alagoas.

Maceió: 33% de todas as mortes

05

O QUE OS DADOS NÃO DIZEM

Os dados de Alagoas disponíveis nesta análise cobrem apenas crimes letais. Furtos, roubos, ameaças, lesões corporais e estupros sem resultado de morte não estão nesta base — seja porque o governo não os divulga neste formato, seja porque não chegaram até aqui em formato aberto. Isso não significa que não ocorrem: Alagoas segue entre os estados com altos índices de violência geral no Brasil.

O recorte também não captura a subnotificação — mortes que não chegam ao registro policial, ou que são classificadas de forma imprecisa. No caso das mulheres, a diferença entre 311 feminicídios e as outras 1.097 mortes femininas registradas como homicídio comum levanta uma pergunta que os dados sozinhos não respondem: quantas dessas mortes também tinham motivação de gênero?

Qualquer leitura desses 14 anos de registros precisa partir de uma premissa: estamos vendo apenas o chão do iceberg.

06

METODOLOGIA E FONTES

Metodologia e fontes

Dados de mortes violentas: registros da Secretaria de Estado da Segurança Pública de Alagoas (SSP/AL), disponibilizados como dado aberto. A base cobre exclusivamente crimes letais: Homicídio Doloso (20.051 registros), Roubo com Resultado Morte (573), Feminicídio (311), Lesão Corporal Seguida de Morte (135), Estupro com Resultado Morte (15) e Infanticídio (3). Período: janeiro de 2012 a dezembro de 2025.

Cor da vítima: as categorias seguem a padronização IBGE (Branca, Preta, Parda, Amarela, Indígena). Registros com campo não informado (1.067 casos, 5,1% do total) foram excluídos dos cálculos de proporção por raça, mas incluídos nos totais absolutos.

Taxas por 100 mil: estimativas baseadas na população de Alagoas conforme o Censo Demográfico IBGE 2022 (3.127.683 habitantes). Para anos anteriores, utilizou-se estimativa de 3,1 milhões, tendo em vista a relativa estabilidade demográfica do estado no período.

Composição racial da população: Censo IBGE 2022 para Alagoas. Para Maceió, estimativa populacional baseada no Censo 2022 (1.025.360 habitantes).

Análise descritiva: os dados mostram associação entre raça, gênero e risco de morte violenta — não causalidade direta. Os registros administrativos capturam apenas boletins de ocorrência e podem subestimar a realidade total, especialmente em mortes com classificação imprecisa.

Feminicídio: a Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015) entrou em vigor em março de 2015. Os dados de feminicídio na base cobrem 2015 a 2025 (11 anos), com 311 registros. As mortes femininas anteriores a 2015 não tinham essa categoria disponível.

Contexto nacional: taxa nacional de homicídios conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024 (FBSP). Comparações regionais baseadas em dados do SINESP.

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Citado por Gazeta do Povo, O Eco, Tribuna do Planalto

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. Em Alagoas, 20.927 mortes violentas em 14 anos — e o perfil das vítimas nunca mudou. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/alagoas-mortes-violentas-14-anos>. Acesso em: 23 out. 2026.

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Vinícius Mendes
Repórter · Olhar Direto (Cuiabá · MT)

Repórter da editoria de Reportagem do Olhar Direto, portal de notícias de Cuiabá (MT), com cobertura de segurança pública e casos policiais no estado. Usou o dado do Crime Brasil para reportar a queda de roubos e a alta de estelionatos em Mato Grosso.

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Jair Gonçalves
Fundador · Portal Atibaia News

Fundador do Portal Atibaia News, veículo de notícias de Atibaia (interior de São Paulo). Publicou com o dado do Crime Brasil o ranking de ocorrências por bairro da cidade.

“Parabéns à Crime Brasil pelo excelente trabalho de jornalismo de dados! As informações disponibilizadas possibilitaram ao Portal Atibaia News produzir uma importante matéria sobre os números de ocorrências policiais por bairro em Atibaia, levando informação e transparência aos nossos leitores. Muito obrigado.”
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Douglas, médico veterinário, comanda com a família o canal Mundo de Cores, sobre vida no campo, no Rio Grande do Sul.

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“Gratidão pelas informações. Essa é uma excelente ferramenta para uma decisão segura.”

— @marceloguilemond1632

“Verdade, pode ajudar muito mesmo!”

— Mundo de Cores (canal)

“Muito Bom!”

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Artigo assinado · Paraná

Artigo de opinião do editor do Crime Brasil: a queda de homicídios no Paraná esconde a alta em mortes no trânsito, suicídios e feminicídios — com o dado da plataforma.

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O Eco
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Reportagem · Amazônia

Reportagem sobre violência fundiária e baixa punição de crimes ambientais na Amazônia, cruzando dados do Crime Brasil com CPT, Ibama, CNJ e MapBiomas.

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Matéria de capa cruzando a queda de homicídios em Goiás com a alta no entorno do Distrito Federal, a partir do dado da plataforma.

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São Paulo · capital

Levantamento exclusivo do mapa da criminalidade na capital paulista — Moema com muito mais infrações que o Grajaú — com o dado do Crime Brasil.

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Entrevista do Instituto Humanitas Unisinos que cita a plataforma como fonte de microdado criminal aberto.

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IBCCRIM · JCC
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Jornal de Ciências Criminais

Artigo no Jornal de Ciências Criminais sobre os limites do acesso a microdados criminais no Brasil, citando o Crime Brasil.

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