
Os dados públicos de segurança de Alagoas que chegaram até aqui têm uma singularidade que não aparece em nenhum outro estado: dos 21 mil registros disponíveis, todos são mortes. Não há furtos. Não há ameaças. Não há lesões corporais — apenas eventos letais.
É um recorte parcial da realidade. Mas que carrega um peso difícil de ignorar.
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A ESCALA DAS MORTES
Entre 2012 e 2025, Alagoas registrou 20.927 mortes violentas. Isso equivale a pouco mais de 4 mortes por dia, em média, ao longo de 14 anos. O pico foi 2013, com 2.247 mortes — uma a cada 3 horas e 54 minutos.
No começo da série, Alagoas estava entre os estados com maior taxa de homicídio do Brasil. Com uma população de cerca de 3,1 milhões de habitantes e mais de 2.200 mortes por ano, a taxa estimada ultrapassava 70 por 100 mil habitantes — um nível comparável ao de países em conflito armado.
A partir de 2015, o número começou a cair. Em 2018, o recuo acelerou. Em 2019, pela primeira vez na série histórica, o total ficou abaixo de 1.100. A pandemia interrompeu brevemente o movimento, com alta de 14% em 2020 — 1.252 mortes frente a 1.096 em 2019. Nos anos seguintes, a queda retomou o ritmo.
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O ROSTO DE QUEM MORRE
A queda nos números não apaga o que os dados revelam sobre quem eram as vítimas. O padrão é consistente ao longo de todos os 14 anos da série.
Dos 20.927 registros, 93% são homens — apenas 1.408 vítimas são mulheres. Entre as mortes femininas, 311 foram classificadas como feminicídio. As outras 1.097 mulheres foram registradas como homicídio comum, roubo com resultado morte ou outras categorias — o que levanta a questão de quantas dessas mortes tinham motivação de gênero que não foi reconhecida.
A distribuição por cor é marcada. Excluindo os 1.067 registros sem informação de cor, 79,5% das vítimas são pardas, 7,9% são pretas — totalizando 87% de afrodescendentes entre as vítimas com cor registrada. Alagoas é um estado majoritariamente afrodescendente, mas a concentração de negros entre as vítimas supera ainda assim a composição da população.
Os brancos representam 12,2% das vítimas com cor registrada — enquanto compõem aproximadamente 27% da população do estado segundo o Censo IBGE 2022.
O perfil não muda
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A QUEDA REAL, MAS INCOMPLETA
A queda de 58% é real e expressiva. Em termos absolutos, são 1.298 mortes a menos por ano frente ao pico — uma redução concreta que representa vidas preservadas.
Mas o contexto importa. Em 2025, Alagoas ainda registrava 1 morte violenta a cada 9 horas. A taxa estimada por 100 mil habitantes — pouco acima de 30 — ficava acima da média nacional, que nos anos mais recentes girava em torno de 22 por 100 mil segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
A queda veio em duas ondas principais. A primeira, entre 2012 e 2015, reduziu o total em cerca de 500 mortes. A segunda — a mais abrupta — aconteceu entre 2017 e 2019, quando o volume caiu de 1.784 para 1.096. Os programas estaduais de redução de homicídios e a reorganização das forças de segurança têm sido citados como fatores; o dado não permite isolar causas, mas a coincidência de timing sugere alguma relação.
O que os dados também mostram é que a queda não foi linear. O estado teve recuos seguidos de altas (2016, 2020, 2022-2023) antes de chegar ao piso de 2025. A consolidação abaixo de 1.000 mortes anuais — se vier — seria uma virada histórica.
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MACEIÓ: UM TERÇO DO ESTADO
Em 14 anos, Maceió registrou 6.696 homicídios — 33% do total estadual, em uma cidade com cerca de 1 milhão de habitantes.
No pico, em 2013, a capital registrou 813 mortes violentas — uma taxa estimada acima de 80 por 100 mil, similar à de zonas de conflito. Em 2025, esse número caiu para 358. A trajetória de queda em Maceió acompanhou a do estado, mas a concentração da violência na capital nunca perdeu peso relativo.
A segunda cidade com mais mortes em 2025 foi Arapiraca, com 63 registros — menos de um quinto do total de Maceió. Isso reforça o quanto a capital domina a estatística estadual: basta entender o que acontece em Maceió para compreender a maior parte da violência letal de Alagoas.
Maceió: 33% de todas as mortes
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O QUE OS DADOS NÃO DIZEM
Os dados de Alagoas disponíveis nesta análise cobrem apenas crimes letais. Furtos, roubos, ameaças, lesões corporais e estupros sem resultado de morte não estão nesta base — seja porque o governo não os divulga neste formato, seja porque não chegaram até aqui em formato aberto. Isso não significa que não ocorrem: Alagoas segue entre os estados com altos índices de violência geral no Brasil.
O recorte também não captura a subnotificação — mortes que não chegam ao registro policial, ou que são classificadas de forma imprecisa. No caso das mulheres, a diferença entre 311 feminicídios e as outras 1.097 mortes femininas registradas como homicídio comum levanta uma pergunta que os dados sozinhos não respondem: quantas dessas mortes também tinham motivação de gênero?
Qualquer leitura desses 14 anos de registros precisa partir de uma premissa: estamos vendo apenas o chão do iceberg.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia e fontes
Dados de mortes violentas: registros da Secretaria de Estado da Segurança Pública de Alagoas (SSP/AL), disponibilizados como dado aberto. A base cobre exclusivamente crimes letais: Homicídio Doloso (20.051 registros), Roubo com Resultado Morte (573), Feminicídio (311), Lesão Corporal Seguida de Morte (135), Estupro com Resultado Morte (15) e Infanticídio (3). Período: janeiro de 2012 a dezembro de 2025.
Cor da vítima: as categorias seguem a padronização IBGE (Branca, Preta, Parda, Amarela, Indígena). Registros com campo não informado (1.067 casos, 5,1% do total) foram excluídos dos cálculos de proporção por raça, mas incluídos nos totais absolutos.
Taxas por 100 mil: estimativas baseadas na população de Alagoas conforme o Censo Demográfico IBGE 2022 (3.127.683 habitantes). Para anos anteriores, utilizou-se estimativa de 3,1 milhões, tendo em vista a relativa estabilidade demográfica do estado no período.
Composição racial da população: Censo IBGE 2022 para Alagoas. Para Maceió, estimativa populacional baseada no Censo 2022 (1.025.360 habitantes).
Análise descritiva: os dados mostram associação entre raça, gênero e risco de morte violenta — não causalidade direta. Os registros administrativos capturam apenas boletins de ocorrência e podem subestimar a realidade total, especialmente em mortes com classificação imprecisa.
Feminicídio: a Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015) entrou em vigor em março de 2015. Os dados de feminicídio na base cobrem 2015 a 2025 (11 anos), com 311 registros. As mortes femininas anteriores a 2015 não tinham essa categoria disponível.
Contexto nacional: taxa nacional de homicídios conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024 (FBSP). Comparações regionais baseadas em dados do SINESP.
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