Em fevereiro de 2026, o Ministério da Justiça publicou os números nacionais de letalidade policial do ano anterior. O Brasil matou 6.519 pessoas em ações policiais ao longo de 2025 — 18 mortes por dia, alta de 4,5% sobre 2024.

No meio do balanço nacional, um dado passou despercebido. Entre os dois maiores estados do país — São Paulo, com 46 milhões de habitantes, e Rio de Janeiro, com 17 — quem matou mais com a polícia em 2025 foi o paulista. Em valores absolutos. 835 contra 798.
Não é estatística marginal. É inversão histórica. Por décadas, falar em letalidade policial brasileira era falar do Rio de Janeiro: caveirão, operação na favela, manchete internacional. São Paulo aparecia em segundo lugar discreto. Em 2025, o discreto virou líder.
Este artigo cruza os dados oficiais dos dois estados para mostrar onde cada um é pior — e por quê o paradoxo de "SP seguro" precisa ser olhado com mais atenção do que o discurso oficial sugere.
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DOIS SUDESTES, UMA RODOVIA
A Via Dutra liga São Paulo ao Rio de Janeiro em pouco mais de cinco horas de carro. 400 quilômetros de asfalto que separam os dois estados mais ricos do Brasil — e dois modelos completamente diferentes de violência urbana.
São Paulo tem 2,7 vezes a população do Rio. Tem PIB três vezes maior. Tem o maior aparato policial do país. E vende, há quase duas décadas, a narrativa de "estado mais seguro do Sudeste". A queda contínua do homicídio doloso paulista — de 11.847 vítimas em 1999 para 2.438 em 2025 — é real e está documentada.
O Rio, no mesmo período, viveu outra história. Saiu da onda da década de 90 com homicídios elevadíssimos, conviveu com a guerra entre tráfico e milícia, viu a UPP nascer e desmontar, e em 2024 ainda assistiu à Operação Contenção em Vila Cruzeiro — 122 mortos em uma única ação policial no Complexo da Penha, a maior chacina da história fluminense.
A diferença é evidente nos números agregados. Mas quando se olha por dentro, aparece um paradoxo: o estado que se vende como seguro tem indicadores onde superou o estado historicamente associado à violência. É exatamente o caso da letalidade policial em 2025.
02
POR HABITANTE, O RJ É 3× MAIS LETAL
Antes de chegar ao paradoxo, é importante reconhecer o que SP fez de fato.
Em 2025, o estado de São Paulo registrou 2.438 vítimas de homicídio doloso — menor patamar da série iniciada nos anos 1990, segundo a SSP-SP. O Rio de Janeiro, no mesmo ano, registrou 2.844 vítimas de homicídio doloso segundo o ISP/CISP. Em valores absolutos, o RJ tem 406 mortes a mais que SP — apesar de ter 28,8 milhões de habitantes a menos.
Quando você ajusta pela população, a diferença ganha proporção:
São Paulo: 5,3 mortes por 100 mil habitantes. Próximo à taxa da Argentina (4,5) ou da França (1,1) — abaixo do limiar de 10/100k que a OMS considera epidêmico.
Rio de Janeiro: 16,5 por 100 mil. Próximo à média nacional brasileira, e similar a países como Honduras ou El Salvador antes do plano Bukele.
A diferença é de 3,12 vezes. Atravessar a Via Dutra, em valores per capita, triplica o risco de morrer assassinado em uma das duas pontas.
1.Atravessar a divisa estadual triplica o risco de morte violenta
Para cada 100 mil moradores, o Rio de Janeiro registrou 16,5 vítimas de homicídio doloso em 2025. São Paulo registrou 5,3. A diferença não é marginal — é a diferença entre viver na Argentina ou viver em El Salvador. E os dois estados são vizinhos, conectados pela maior rodovia federal do país.
Esse é o lado em que a narrativa de SP funciona. O estado fez uma coisa difícil — derrubou homicídios e segurou a queda por 25 anos. Não é mérito apagado por nada do que vem a seguir. Mas tampouco é mérito que cobre tudo.
03
MAS A POLÍCIA PAULISTA MATA MAIS — EM NÚMEROS ABSOLUTOS
Há um indicador específico em que a comparação direta entre os dois estados produz um resultado contraintuitivo: a letalidade policial.
Em 2025, segundo o SINESP/MJSP, São Paulo registrou 835 pessoas mortas em ações policiais. O ISP/RJ registrou 798. Pela primeira vez em pelo menos duas décadas, em valores absolutos, a polícia paulista matou mais civis que a fluminense.
A leitura imediata é "mas SP tem quase três vezes a população do RJ — claro que mata mais em valores absolutos". Está certo. Por habitante, o Rio ainda mata 2,5 vezes mais (4,6 vs 1,8 por 100 mil). A polícia fluminense continua, em proporção, mais letal.
O que importa não é a fotografia, é o filme. O que mudou no Sudeste é que a curva paulista subiu, a fluminense desceu, e elas se cruzaram em 2024.
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AS TRAJETÓRIAS QUE SE CRUZARAM
A série 2022–2025 mostra duas curvas inversas. SP saiu de 591 mortes pelas polícias em 2022 e chegou a 835 em 2025: alta de +41% em três anos. O RJ saiu de 1.330 em 2022 e caiu para 798 em 2025: queda de −40%.
O cruzamento aconteceu em 2024. O salto paulista — de 505 mortes em 2023 para 813 em 2024 (+61% em um ano) — é o maior aumento já registrado em SP. Coincide com o início das operações na Baixada Santista batizadas de "Verão", "Escudo" e "Verão 2", apontadas por organizações de direitos humanos como o ponto de virada da política de segurança paulista.
A curva fluminense desce praticamente todos os anos desde 2019 (que foi o pico — 1.814 mortos pelas polícias). A queda foi consistente: 1.330 (2022) → 871 (2023) → 703 (2024). Em 2025 houve uma alta pontual para 798, ainda assim 56% abaixo do pico de 2019.
2.Em 2024, as curvas se cruzaram. SP virou o estado em que a polícia mata mais — em números absolutos
Por mais de uma década, falar em letalidade policial era falar do Rio. O caveirão, as operações, a manchete internacional eram fluminenses. Em 2024, isso mudou. SP, que historicamente ficava em segundo lugar discreto, ultrapassou o RJ. Em 2025, manteve a liderança: 835 mortes contra 798. A inversão não é estatística — é estrutural.
A taxa por 100 mil habitantes ainda mostra o RJ pior — 4,6 contra 1,8 — mas a tendência é o que importa para política pública. Se mantida a velocidade atual, SP iguala a taxa fluminense em poucos anos. Não pelo Rio piorar. Por SP continuar piorando.
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17 DESAPARECIDOS POR DIA NO RJ
Há indicadores em que a comparação direta não funciona — porque um estado registra e o outro não, ou porque a categoria existe em uma realidade e na outra não.
O caso mais marcante é o de pessoas desaparecidas. O ISP/RJ registrou 6.330 desaparecidos em 2025. É 17,3 por dia. Todos os dias. Sem feriado, sem fim de semana, sem retorno na maioria absoluta dos casos.
A série fluminense tem alta consistente desde 2022. Quatro anos seguidos com aumento. Não é blip. É padrão.
Em São Paulo, a categoria existe nos boletins de ocorrência mas não tem a mesma escala registrada na estatística pública estadual. Especialistas em segurança fluminense apontam que parte do número do RJ está estruturalmente ligado à atuação de milícias e ao comando do tráfico — pessoas que somem em conflitos, em territórios disputados, em chacinas que não chegam ao atestado de óbito formal. É uma economia paralela do crime que se expressa em pessoas que simplesmente deixam de existir nos registros oficiais.
O RJ tem ainda 3.646 extorsões em 2025 — a estatística que mais de perto retrata o "imposto da milícia" cobrado de comerciantes e moradores em zonas sob controle paramilitar. Em SP, a categoria oficial não tem expressão equivalente nos boletins.
3.O RJ desaparece 17 pessoas por dia. SP não tem fenômeno equivalente
Pessoas desaparecidas no Rio em 2025: 6.330. Por dia: 17,3. Por mês: 528. Por semana: 122. A série sobe ininterruptamente desde 2022 — 5.255, 5.815, 6.047, 6.330. Não há indicador comparável na estatística paulista.
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ESTUPRO, FEMINICÍDIO E O QUE NINGUÉM CELEBRA
No outro lado, há indicadores em que SP é o número que choca.
Em 2025, São Paulo registrou 14.443 vítimas de estupro. O Rio registrou 5.867. Em valores absolutos, SP tem 2,5 vezes mais. Por habitante, a diferença diminui: SP tem 31,3 por 100 mil, RJ tem 34,1. Praticamente equivalente.
A diferença está na trajetória. Entre 2018 e 2025, os registros de estupro em SP cresceram +21% (de 11.949 para 14.443). No RJ, ficaram relativamente estáveis no período, oscilando perto de 5.500 a 5.900.
E há o feminicídio. No primeiro trimestre de 2026, a SSP-SP registrou 86 feminicídios em SP — recorde absoluto da série histórica e alta de 41% sobre o mesmo trimestre de 2025. O RJ tem registros próximos a 100 anuais, dependendo da classificação metodológica adotada pelo ISP.
São Paulo, o estado da queda histórica de homicídio, é também o estado em que a violência contra mulheres mais cresce no Sudeste. As curvas vão em direções opostas — a do homicídio masculino cai, a do estupro e do feminicídio sobe.
4.SP registra 1 estupro a cada 36 minutos — o RJ, 1 a cada 90
Em 2025, São Paulo somou 14.443 vítimas de estupro: 39,6 por dia, 1,65 por hora, 1 a cada 36 minutos. O Rio registrou 5.867: 16 por dia, 1 a cada 90 minutos. Per capita, os dois estados são quase iguais. Em volume absoluto, SP tem o número que choca — e cresce.
07
O QUE OS DADOS DIZEM SOBRE A NARRATIVA
Comparar dois estados serve para questionar narrativas, não para decidir qual é "melhor" ou "pior" — a violência tem estruturas diferentes em cada lugar e responde a políticas diferentes.
O que os números mostram com clareza:
SP é, sim, o estado com menor taxa de homicídio doloso do Sudeste por habitante. Isso é fato, está documentado, e representa duas décadas de queda contínua. Não é discurso, é estatística.
Mas a narrativa de "SP mais seguro" oculta indicadores em que o paulista vai pior. Letalidade policial em alta, estupro em alta, feminicídio em alta. O recorte que o discurso oficial faz é parcial.
O RJ tem violência mais grave por habitante na maior parte dos indicadores letais — homicídio, intervenção policial per capita, desaparecimentos, extorsão. Mas faz parte de uma trajetória de queda no que diz respeito à letalidade da própria polícia, ao contrário do que vem acontecendo em SP.
A política de segurança que SP escolheu nos últimos anos — operações com letalidade alta, especialmente na Baixada Santista — produz resultado em queda de homicídio comum mas a um custo crescente de mortes em ação policial. A política do RJ, depois do pico de 2019, tem buscado ajustar o equilíbrio entre operação ostensiva e contenção do uso letal — em meio ao escândalo de cada chacina, ainda assim a curva caiu.
Os dois estados produzem segurança pública de formas estruturalmente distintas. A única coisa que os dados não permitem dizer é que um deles "resolveu" o problema. Nenhum resolveu. Os dois trocaram um tipo de violência por outro.
Compare São Paulo e Rio de Janeiro
Veja todos os indicadores lado a lado, por município, com os dados oficiais.
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METODOLOGIA E FONTES
metodologia e limites
Homicídio doloso 2025 — SP: 2.438 vítimas, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), divulgação trimestral de 30/04/2026. Inclui feminicídios e homicídios qualificados. Não inclui mortes por intervenção policial (que entram em categoria separada).
Homicídio doloso 2025 — RJ: 2.844 vítimas, segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP/CISP), série histórica oficial por município. Não inclui mortes por intervenção policial (categoria hom_por_interv_policial no dataset do ISP, separada na estatística mensal).
Letalidade policial 2025 — SP: 835 vítimas, segundo o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP/MJSP), publicado em fevereiro de 2026. A SSP-SP utiliza nomenclatura "morte decorrente de intervenção policial" e o número é compatível com a divulgação federal. Para 2024 (813 vítimas), valor consolidado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública 19 (FBSP). Para 2022 (591) e 2023 (505), valores das edições anteriores do Anuário.
Letalidade policial 2025 — RJ: 798 vítimas, conforme dados consolidados do ISP/CISP. Categoria hom_por_interv_policial. Série completa 2022–2025 disponível no dataset oficial do ISP.
Estupro 2025 — SP: 14.443 vítimas, SSP-SP. Categoria "Estupro Total" engloba estupro simples (Art. 213 CP) e estupro de vulnerável (Art. 217-A CP). Estupro de vulnerável representa 76,5% dos casos.
Estupro 2025 — RJ: 5.867 vítimas, ISP/CISP, categoria estupro.
Pessoas desaparecidas — RJ: ISP/CISP, série anual 2022–2025. SP não tem categoria publicada com esquema comparável de série histórica anual aberta por município.
Extorsão — RJ: ISP/CISP, categoria extorsao (3.646 casos em 2025).
Feminicídio Q1 2026 — SP: SSP-SP, divulgação de 30/04/2026.
População: IBGE Censo 2022. SP: 46.081.801 habitantes. RJ: 17.223.547 habitantes (estimativa com base nos dados de população usados pelo Crime Brasil).
Limitações:
- Os dois estados publicam dados com metodologias distintas. ISP/RJ tem série histórica detalhada por município e por DP/CISP desde 2003. SSP-SP publica boletins mensais com agregação por município.
- A categoria de letalidade policial pode variar entre fontes (SINESP usa "morte por intervenção policial"; FBSP consolida dados estaduais; ISP separa em categoria própria). A comparação aqui usa as fontes oficiais primárias para cada estado.
- A taxa por 100 mil habitantes é a métrica mais adequada para comparar estados de tamanhos populacionais diferentes. Os valores absolutos servem para mostrar magnitude, não eficiência relativa.
- "Letalidade policial" não é "polícia atira para defender vítima" — refere-se a todos os casos em que a ação policial resultou na morte de civis. O Anuário FBSP discute as classificações em detalhe.
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