
Na manhã de quarta-feira, 6 de maio, o bairro Zatt em Bento Gonçalves virou cenário do maior simulado de desastre da história do RS. Foram 467 profissionais, helicópteros, cães farejadores, três disparos de alerta cell broadcast pra todo celular conectado às antenas da região. O cenário fictício: um deslizamento de terra com 8 mortos e 35 desaparecidos.
A operação foi um sucesso técnico. Coordenação interinstitucional, comunicação de risco, tempo de resposta — tudo dentro do esperado. A Defesa Civil avaliou como positivo. E está certo em fazer.
Mas há uma coisa que esse simulado, por mais bem feito, não consegue ensaiar. E é justamente o que aconteceu há dois anos no resto do estado.
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O QUE UM SIMULADO TREINA
Simulados são treinos. Você ensaia o que daria pra ensaiar: a logística do resgate, o tempo entre o alerta e a chegada da Brigada Militar, o protocolo de evacuação, a comunicação entre os órgãos. Tudo isso é importante e, em uma tragédia real, faz diferença.
A operação de quarta-feira escolheu Bento Gonçalves porque a cidade é a quarta com maior risco geológico do RS. O simulado testou três rodadas de cell broadcast — aquele alerta sonoro que aparece na tela do celular acima de qualquer aplicativo. Foi a primeira vez que o estado mobilizou tantos profissionais ao mesmo tempo.
O ponto não é desmerecer o exercício. É outro.
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O QUE FICOU DA ENCHENTE REAL
Em maio de 2024, o RS viveu a pior enchente da sua história. Foram 183 mortos, mais de 2 milhões de pessoas afetadas, mais de 400 municípios atingidos. Cidades inteiras submersas. Bairros que ficaram semanas debaixo d'água. Pessoas que perderam tudo e tiveram que recomeçar em outra cidade — algumas, em outro estado.
O Crime Brasil já mostrou, em análise anterior, que durante o pico da enchente as ocorrências policiais despencaram nos municípios afetados. Em maio de 2024, Porto Alegre registrou 46% menos ocorrências que em maio de 2023. Foi a queda mais brusca da série histórica — e aconteceu exatamente porque havia menos gente nas ruas, menos comércio aberto, menos vida circulando.
A pergunta que esta análise faz é diferente: passados quase dois anos, o que sobrou desse impacto? Os números voltaram pro patamar de antes? E o que isso diz sobre a possibilidade real de simular outra enchente como aquela?
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A MARCA DOIS ANOS DEPOIS
Comparando o total de ocorrências policiais por cidade em 2023 (ano normal, antes da enchente) e 2025 (último ano fechado da série), o resultado é claro:
A diferença entre o bloco vermelho e o bloco verde do gráfico é o que importa. Em cidades fora da rota da enchente — Caxias do Sul, Gravataí — o total de ocorrências em 2025 é igual ou levemente maior que em 2023. É o crescimento natural de uma cidade que continua existindo do mesmo jeito.
Já nas cidades atingidas, o cenário é outro. Em algumas, a queda chega a quase 20%. Em todas, permanece negativa dois anos depois.
Cruzeiro do Sul: -19,8% em dois anos
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04
O VALE DO TAQUARI NÃO VOLTOU
A região mais devastada pela enchente foi o Vale do Taquari. Cidades como Muçum, Cruzeiro do Sul, Roca Sales, Encantado e Arroio do Meio ficaram dias inteiros submersas. Em algumas, o nível da água passou de 30 metros acima do normal. Bairros inteiros foram destruídos.
Os dados mostram que o impacto não foi um pico isolado em maio de 2024. Foi uma cicatriz que ainda está aberta:
Encantado merece um destaque. Ali, o efeito não veio em 2024 — veio em 2025. Em 2024 o total ficou praticamente igual ao de 2023 (1.757 vs 1.733). Só no ano seguinte a queda apareceu, forte: 1.538 ocorrências, -11,3%. É o tipo de curva que sugere êxodo lento — gente que tentou ficar, não conseguiu, foi embora.
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SÃO LEOPOLDO E O EFEITO PERSISTENTE
São Leopoldo é o caso mais documentado fora do Vale do Taquari. A cidade da Região Metropolitana ficou semanas com bairros isolados. O Rio dos Sinos invadiu o centro, derrubou comércio, deixou milhares desabrigados.
Olhando mês a mês, o estrago aparece com clareza:
O número 858 em maio de 2024 é o ponto mais baixo da série — uma queda de 40% em relação a maio de 2023. A cidade demorou meses pra voltar pra perto da casa dos 1.300 mensais. E mesmo assim, somando o ano todo, 2025 ficou 11,2% abaixo de 2023.
São Leopoldo tem três anos de gente que saiu e não voltou.
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QUANDO MENOS CRIME SIGNIFICA MENOS GENTE
Aqui está a parte difícil da leitura. Em qualquer outro contexto, uma queda de 19,8% nas ocorrências policiais seria uma boa notícia. Sinal de pacificação, de melhora estrutural, de política pública funcionando. Vale comemorar.
Mas no Vale do Taquari, em 2025, o que esses números provavelmente estão mostrando é diferente. Estão mostrando que tem menos gente pra ser vítima, menos comércio pra ser furtado, menos veículos pra serem batidos. Bairros inteiros que existiam em 2023 hoje não existem mais — ou existem com metade dos moradores.
Os números do IBGE confirmarão isso quando os próximos dados saírem. Cidades como Muçum, Roca Sales e Cruzeiro do Sul perderam uma parcela significativa da população permanentemente. As pessoas que saíram em 2024 fugindo da água, em parte, não voltaram. Foram morar em outras cidades, em outros estados, e a vida que existia antes não foi reconstruída no mesmo lugar.
É por isso que um simulado, por melhor que seja, é incompleto. Bento Gonçalves treinou o que dá pra treinar: a primeira semana. Os helicópteros, os bombeiros, os alertas no celular, a logística do desabrigado. Tudo isso é necessário e bem-feito.
O que ninguém consegue ensaiar é o ano seguinte. O segundo ano. O município que perde 5%, 10%, 20% dos seus moradores e nunca mais volta a ser o que era. As ocorrências que caem porque a vida ficou menor, não mais segura.
Esse é o custo que os dados ainda revelam. E é o tipo de custo que justifica não tratar 2024 como passado — mesmo quando o calendário já marca 2026.
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