
A cidade alagou em maio de 2024. Quando a água baixou, sobrou um problema de mobilidade urgente: trabalhadores sem carro, sem dinheiro pra passagem, com vidas pra refazer. A solução veio em formato de medida emergencial — tarifa zero no ônibus municipal.
Era para durar enquanto a cidade se reerguesse. Foi prorrogada cinco vezes em 2024 e 2025. No dia 27 de fevereiro de 2026, o prefeito Airton Souza assinou o decreto que tornou a medida definitiva. Naquela canetada, Canoas virou a maior cidade do Rio Grande do Sul — e a segunda do Brasil — com transporte público gratuito universal.
E aí veio o número que ninguém esperava.
01
O NÚMERO QUE NINGUÉM PREVIU
Em maio de 2024, último mês com tarifa cobrada, o sistema municipal de Canoas registrou cerca de 268 mil passageiros. Era o piso histórico — a enchente havia paralisado parte da cidade.
Entre novembro de 2024 e abril de 2025, com a tarifa zero já em vigor mas ainda em fase de adaptação, a média mensal subiu pra 852.253. Em julho-dezembro de 2025, a média saltou pra 1.459.030 passageiros por mês. Em dezembro de 2025, sozinho, o sistema bateu 1.319.000+ utilizações.
São 5,4 vezes mais viagens em 18 meses — um crescimento de 444%. Para escala: na primeira semana de dezembro de 2025, o sistema entregou em uma única semana o que entregou no mês inteiro de maio/2024.
1.1.O ônibus deixou de ser opção e virou infraestrutura.
A tarifa zero não atraiu só quem antes pagava. Atraiu quem antes não andava de ônibus de jeito nenhum — quem dependia de carro, mototáxi, app, ou simplesmente não saía de casa por não ter como pagar. Esse efeito de demanda induzida é a marca registrada das experiências brasileiras com passe livre, e Canoas confirmou o padrão em escala maior do que o histórico.
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02
A CRONOLOGIA — DA ENCHENTE AO DECRETO DEFINITIVO
A história tem cinco capítulos:
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| Maio/2024 | Enchente histórica devasta Canoas. Tarifa zero implantada como medida emergencial. |
| 2024 (durante o ano) | Política prorrogada três vezes — sempre com prazo. |
| Dez/2024 | Mais uma prorrogação, agora até dezembro/2025. |
| Dez/2025 | Última prorrogação por dois meses. |
| 27/02/2026 | Decreto do prefeito Airton Souza torna a tarifa zero permanente, sem prazo de fim. |
A medida nasceu como auxílio social emergencial. Sobreviveu duas trocas de governo (a enchente foi sob gestão Jairo Jorge; o decreto definitivo foi assinado por Airton Souza, atual prefeito). E virou política pública estrutural.
A SOGAL — Sociedade Gaúcha de Ônibus, concessionária única do sistema municipal — passou a receber subsídio direto da prefeitura, calculado mensalmente com base em tarifa técnica (~R$ 5,50) multiplicada pelo número real de passageiros transportados. Quanto mais gente anda, mais a SOGAL recebe. É o oposto do modelo tradicional, em que a operadora ganha pela passagem cobrada.
03
O CUSTO DA GRATUIDADE
O subsídio mensal ficou entre R$ 5 e 6 milhões. Acumulado de maio/2024 a dezembro/2025: R$ 100-110 milhões.
Pra dimensionar:
3.1.A prefeitura paga ~R$ 4,11 por viagem ao caixa da concessionária — abaixo da tarifa técnica de R$ 5,50.
A conta é simples: R$ 6 milhões/mês ÷ 1.459.030 viagens/mês ≈ R$ 4,11 por viagem. Como o volume cresceu mais que o custo total, o custo por passageiro caiu — efeito de escala. Quanto mais gente anda, mais barato fica por unidade. É o inverso do modelo concessionário tradicional, em que a operadora tenta minimizar viagens (ônibus parado custa menos que ônibus rodando).
Para a prefeitura, R$ 6 milhões/mês representam aproximadamente 1,3% da receita corrente líquida do município (estimativa baseada em receita 2024 ~R$ 450 milhões/mês). É menos do que se gasta com publicidade institucional em muitos municípios brasileiros — e atende 1,46 milhão de viagens mensais.
04
O SISTEMA AGUENTA?
O risco da tarifa zero é conhecido na literatura técnica: demanda explode antes da oferta acompanhar. Os ônibus enchem, o serviço piora, e a percepção do passageiro pode azedar mesmo com a passagem grátis.
A pesquisa CNT 2024 mostra que 56,7% dos usuários em cidades com tarifa zero percebem aumento na lotação dos veículos.
Em Canoas, a SOGAL respondeu ampliando a frota:
70 → 128 veículos. Crescimento de 83%. E 77 linhas ativas no sistema municipal.
O problema é matemático: a demanda cresceu 444%, a frota cresceu 83%. Cada ônibus, em média, agora carrega 5× mais gente do que carregava antes. Os horários foram esticados (algumas linhas operam até 0h05), os intervalos reduzidos onde possível, mas o gap entre oferta e demanda é gigantesco.
Tomando os dados do simulador Gabarito — que modela capacidade de transporte coletivo em Canoas — a capacidade nominal por linha de ônibus em horário de pico é estimada em 480 passageiros/hora/sentido (80 pax/veículo × headway de 10 min). Com 77 linhas ativas, a capacidade horária total no pico é de cerca de 37 mil pax/hora no sentido predominante. A demanda média diária dividida por 16 horas úteis dá ~3 mil viagens/hora — abaixo do teto teórico, mas concentrada em horários de pico onde o sistema satura.
Em outras palavras: na média, há folga. No pico, há ônibus apertado.
A TRENSURB — que serve Canoas com 6 estações (Mathias Velho, Niterói, Canoas, Fátima, São Luís, Petrobras) — segue cobrando passagem (não é integrada ao passe livre municipal) e mantém capacidade de 8.000 pax/hora/sentido no pico, com headway de 6 minutos. Aqui há folga real, mas a integração tarifária com o ônibus municipal de Canoas continua incompleta.
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05
O TRÂNSITO: O QUE OS DADOS MOSTRAM (E O QUE AINDA NÃO MOSTRAM)
Aqui é onde o jornalismo honesto separa fatos de torcida. A hipótese intuitiva é que mais gente no ônibus = menos carros na rua = menos congestão e menos acidentes. A literatura internacional sustenta essa direção, mas a magnitude depende do modal shift — quantos dos novos passageiros do ônibus deixaram um carro na garagem, e quantos eram pessoas que antes não viajavam (demanda induzida pura).
Em Canoas, não há ainda pesquisa de origem-destino pós-tarifa zero que permita responder isso. A última OD comprehensive da Região Metropolitana de Porto Alegre é a Metroplan 2003 — completamente desatualizada. O Jornal do Comércio, em janeiro de 2026, reconheceu de forma direta: "até o momento, não há dados de impacto". Nenhuma pesquisa peer-reviewed sobre o caso foi publicada (Lume UFRGS, CAPES Catálogo de Teses, SciELO, Scholar — todos retornaram zero artigos).
Mas isso não quer dizer que a gente esteja completamente no escuro. Existem indicadores oficiais — alguns positivos, alguns que jogam balde de água fria — que merecem entrar na conta.
O que melhorou (e tem dado oficial pra provar)
A própria Secretaria de Mobilidade Urbana de Canoas reportou ganhos operacionais mensuráveis depois do reordenamento viário associado à tarifa zero, especialmente no entorno do Paradão Golden Center / Av. Victor Barreto:
- Acidentes no entorno: 7 ocorrências (jul-dez/2024) → 0 (jan-set/2025). Queda de 100% na faixa local.
- Tempo de viagem dos ônibus -25% em vias críticas como R. Fioravante Milanez e R. Domingos Martins, no pico tarde (17h-18h59).
Vale o caveat: esses ganhos são fruto de reorganização de paradas, faixas e semáforos especificamente naquela área — não da política de gratuidade em si. Mas a tarifa zero criou a pressão operacional (mais ônibus, mais passageiros) que motivou a intervenção.
A operação SOGAL também escalou: +18% nos horários ofertados (708 → 840), com 132 horários extras só aos sábados. É o maior reforço de oferta desde a pandemia de 2020.
O que NÃO mudou — a frota individual continuou crescendo
A hipótese mais ambiciosa da política — desestimular a compra de veículos individuais — não se sustenta nos dados. A reportagem extraiu a linha "RS / CANOAS" diretamente dos arquivos XLSX mensais publicados pela Senatran (gov.br/transportes), nove marcos entre dezembro de 2023 e dezembro de 2025:
A leitura: antes da tarifa zero (Dez/23 → Abr/24), a frota crescia ~508 veículos/mês. Depois, no período já estabilizado fora da janela da enchente (Dez/24 → Dez/25), o ritmo é de +465/mês. Praticamente o mesmo. O salto Mai/24 → Dez/24 (+872/mês) é confound de reposição de veículos perdidos na enchente, não atribuível à política.
5.1.A tarifa zero não freou a curva de motorização individual de Canoas.
A frota cresceu 2,52% ao ano antes da política e 3,13% ao ano depois. Se o passe livre tivesse efetivamente substituído viagens individuais, esperaríamos uma desaceleração mensurável. Não houve. O 1,46 milhão de passageiros novos por mês são majoritariamente demanda induzida — gente que antes não viajava, não gente que largou o carro.
Tráfego nas rodovias — o sinal mais difícil de explicar sem tarifa zero
A BR-386 conecta Canoas ao norte do Rio Grande do Sul e tem tráfego medido continuamente pela CCR ViaSul, concessionária que opera o trecho. Os dados auditados pela ANTT no Relatório de Demonstrações Financeiras 2024 da empresa (IPE 2024) mostram um padrão peculiar:
O tráfego de carros de passeio (leves) na BR-386 caiu 5,88% em 2024 vs 2023. Foi o único eixo da concessão com queda. As outras BRs administradas pela ViaSul cresceram: BR-101/RS subiu 3,85%, BR-290/RS 0,63%. O tráfego de veículos comerciais na BR-386 ficou praticamente estagnado (+0,35%) — bem abaixo do crescimento setorial CCR (+3,8%) e da BR-290 comercial (+4,69%).
A própria ViaSul, no relatório, atribuiu o fenômeno à enchente de maio/2024 (que afetou a malha) e a "menos feriados prolongados". Mas a explicação não fecha completamente: a enchente também afetou a BR-101/RS e a BR-290/RS, que passam pelo mesmo entorno geográfico — e ambas cresceram. E a queda foi quase 6× maior no passeio do que no comercial, sinalizando que passageiros individuais sumiram da BR-386, não cargas.
A coincidência cronológica e o recorte modal são compatíveis com a hipótese de que parte das viagens diárias de carro de moradores de Canoas com destino a polos de trabalho em Sapucaia, Esteio, São Leopoldo e POA migrou para o ônibus municipal gratuito a partir de maio de 2024. Não é prova causal — seria preciso pesquisa OD para fechar — mas é o primeiro indicador rodoviário oficial com sinal compatível com a política. A medição é contínua, auditada, e cobre 12 meses do primeiro ano da tarifa zero.
O mesmo IPE 2024 da ViaSul registra um segundo dado positivo: o número de mortos em acidentes no trecho concedido (BR-101 + BR-290 + BR-386 + BR-448) reduziu 4% em 2024 em relação a 2023. A queda é menor que a queda do tráfego de passeio na BR-386 (-5,88%), mas é uma medição auditada e na direção esperada. O dado bruto cobre o conjunto da concessão — não isola Canoas, mas inclui os trechos rodoviários que servem a cidade.
O ar que a gente respira mudou — e tem medição contínua
A FEPAM-RS opera uma estação automática de qualidade do ar em Canoas (Parque Universitário, ULBRA) que mede continuamente seis poluentes desde 2020. O dióxido de nitrogênio (NO₂) é, na literatura, o melhor proxy disponível para emissões de combustão veicular — vem dos motores a diesel e a gasolina.
A leitura: a concentração de NO₂ saiu de 13,8 μg/m³ em 2020 para 6,8 μg/m³ em 2024 — queda de 51% em quatro anos. Em 2024, primeiro ano cheio com tarifa zero, a queda em relação a 2023 foi de −8% (7,4 → 6,8). O monóxido de carbono (CO) caiu pela metade no mesmo período (1,0 → 0,5 ppm). O dióxido de enxofre (SO₂) recuou 18% (8,2 → 6,7).
5.3.O ar de Canoas melhorou — e o NO₂ veicular continuou caindo no ano da tarifa zero.
A FEPAM mede continuamente o ar de Canoas desde 2020. O NO₂, principal indicador de combustão de motores, caiu 51% em quatro anos (13,8 → 6,8 μg/m³). A queda começou antes da tarifa zero — provavelmente reflete renovação da frota (programas PROCONVE/PROMOT) e operação reduzida da refinaria REFAP no entorno. Mas em 2024, ano da tarifa zero, a tendência de queda se manteve, compatível com a hipótese de modal-shift. Não é evidência exclusiva, mas é a primeira medição direta de impacto ambiental veicular em Canoas.
Os dois poluentes que ficaram estáveis foram o material particulado MP10 (19,1 → 19,4 μg/m³) e o ozônio O₃ (29,1 → 29,0). MP10 vem fortemente de queimadas e poeira de pneu — em 2024 o RS ainda recebeu fumaça das queimadas do centro do país (ago-set/2024), o que mascara qualquer ganho local. O O₃ é poluente secundário, formado por reação fotoquímica — não responde diretamente a redução de fluxo veicular.
A estação fica no Parque Universitário, na zona oeste de Canoas, próxima da BR-116 e da REFAP. Não cobre os bairros mais densos (Marechal Rondon, Niterói) onde o efeito da tarifa zero pode ser mais visível. Ainda assim, é a única medição contínua oficial disponível e está pública no relatório FEPAM "Monitoramento da Qualidade do Ar — Rede Ar do Sul, ano de 2024" (julho/2025).
A frota de Canoas está ficando mais limpa — independentemente da tarifa zero
A composição da frota de Canoas mudou nos 19 meses entre maio/2024 e dezembro/2025. Os dados da Senatran por tipo de combustível mostram uma transição significativa:
A frota de veículos puramente elétricos saltou de 117 para 484 unidades (+313,7%). Híbridos a gasolina cresceram 124%. Carros flex (álcool/gasolina) cresceram 8,8% — sinal de que veículos novos predominam novos modelos. Gasolina pura cresceu apenas 1,8%, e o gás natural recuou 6%.
Esse ganho ambiental não é da tarifa zero — é do mercado nacional acompanhando renovação tecnológica + incentivos PROCONVE/PROMOT. Mas ajuda a explicar por que o NO₂ pode estar caindo mesmo com a frota crescendo. As medições FEPAM e a evolução da frota apontam na mesma direção: o ar de Canoas está limpando, ainda que mais por progresso tecnológico do mercado do que por modal-shift comprovado.
Acidentes — cidade toda subiu, apesar do recorte local positivo
Apesar do ganho local no Paradão, o saldo da cidade é negativo: acidentes de trânsito em Canoas subiram 19,4% em 2025 (6.374 → 7.610), segundo a própria Secretaria de Mobilidade. A Av. Boqueirão lidera com 399 ocorrências. Foi exatamente para combater isso que a prefeitura reativou os radares móveis em 2025/2026.
O dado mais sensível — mortes — vem do DataSUS Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), que registra todas as Declarações de Óbito. Filtrando por residentes em Canoas com causa básica de transporte (CID-10 V01-V99):
São 302 mortes entre 2018 e 2024, média anual de 43 óbitos. Em 2024 — primeiro ano cheio de tarifa zero — foram 42 mortes (12,15/100k). Em 2023 — último ano antes do passe livre — foram 45 mortes (13,02/100k).
A queda existe, mas é dentro da margem de variação histórica. A taxa oscilou entre 10,7 e 14,17 mortes/100k entre 2018 e 2024, e o valor de 2024 está bem no meio desse intervalo. Não dá pra atribuir essa pequena oscilação à tarifa zero — pode ser ruído estatístico, sazonalidade, ou efeito real diluído.
5.2.A tarifa zero ainda não produziu queda mensurável de mortes no trânsito de Canoas.
Em 2024, primeiro ano cheio com passe livre universal, Canoas teve 42 mortes em acidentes de transporte (taxa de 12,15/100k habitantes). A média histórica 2018-2023 é de 43 mortes/ano e taxa de 12,5/100k. A diferença não é estatisticamente expressiva. O ridership cresceu 5,4×, mas a mortalidade por acidente de transporte ficou estável.
A composição modal da mortalidade em Canoas é desigual:
Mais da metade das mortes são motociclistas (26,5%) e ocupantes de automóvel (26,5%). Pedestres respondem por 21,9%. Ciclistas, 10,9%. Cinco em cada dez óbitos no trânsito de Canoas envolvem o condutor ou passageiro de algum veículo individual motorizado — exatamente o público-alvo de qualquer política séria de transferência modal pra ônibus.
A frota Senatran reforça a leitura: motociclistas e ocupantes de automóvel, exatamente o público-alvo de qualquer política de transferência modal pra ônibus, continuaram comprando seus veículos no mesmo ritmo de antes.
Para fechar a equação ainda seriam necessários: (i) bilhetagem mensal granular por bairro de origem; (ii) contagens veiculares nas vias estruturais (BR-116, Av. Boqueirão, Av. Guilherme Schell); (iii) nova pesquisa de origem-destino metropolitana — a última é de 2003. A reportagem encaminhou pedidos via Lei de Acesso à Informação à SMT-Canoas em abril/2026 solicitando GTFS, bilhetagem mensal e ocupação. Os pedidos têm prazo final em 11 de maio de 2026.
A própria Prefeitura sinalizou caminho: agendou para junho de 2026 um fórum nacional sobre tarifa zero, com participação do TCE-RS, focado em "monitoramento técnico" da política. É o reconhecimento de que, sem dados, a política fica vulnerável.
A política rendeu economia direta
Apesar da ausência de pesquisa O/D, dois ganhos financeiros são quantificáveis e oficiais:
- R$ 96 milhões/ano economizados pelos próprios usuários — usando a tarifa técnica de R$ 5,50 calculada pelo município (multiplicada pelas 1,46M utilizações/mês), é o gasto de bolso evitado por quem não pagou passagem em 2025. Para referência, em Maricá/RJ, estimativas oficiais indicam que famílias usuárias do passe livre poupam ~20% da renda mensal em transporte.
- R$ 38 milhões economizados pelo município após auditoria do TCE-RS, que reduziu a tarifa técnica de R$ 5,50 para R$ 4,70 (-15%). Outros R$ 35 milhões foram poupados na renegociação do contrato com a SOGAL.
Em outubro de 2025, Canoas lançou a iniciativa "Canoas Resiliente e Sustentável" dentro do Circuito Urbano da UN-Habitat 2025 — tornando-se a primeira cidade brasileira a buscar a certificação LEED for Cities do Green Building Council. A tarifa zero é uma das frentes citadas no portfólio da candidatura.
06
O PADRÃO EUROPEU — CANOAS NÃO É ANÔMALA
A combinação que Canoas mostrou — passageiros explodiram, carros recuaram pouco — não é uma falha. É exatamente o que aconteceu nas cidades europeias que adotaram tarifa zero antes.
A literatura é consolidada:
-
Tallinn (Estônia, tarifa zero universal desde 2013): ridership do transporte público subiu 14% no primeiro ano. Mas o vehicle-km de carro AUMENTOU 31% segundo o estudo de Cats, Susilo & Reimal (2017, Transportation). Caminhada caiu 40% — pedestres viraram passageiros, motoristas continuaram dirigindo. Em 10 anos, a fatia modal do carro subiu de 42% para 48%.
-
Luxemburgo (tarifa zero nacional desde 2020): ridership +14% no primeiro ano. O EU Urban Mobility Observatory escreveu, depois de 2 anos: "little evidence that such programmes have reduced the number of cars on the road". Congestão em maio/2022 era igual ou maior que pré-política.
-
Templin/Lübben (Alemanha): ridership +1.100% em poucos anos. Modal-shift carro→ônibus: "minimal" (Storchmann, 2003). A maior parte do crescimento veio de demanda induzida e migração de pé/bike, não de motoristas.
-
9-Euro-Ticket (Alemanha, 2022): 30-35% mais uso do transporte público. Tráfego de carro em Munique: −3%.
-
Aubagne (França, 2009): o único caso de queda mensurável significativa de tráfego de carro: −10%. Cidade pequena, rede compacta, contexto particular.
A revisão global de Kębłowski (2020, Transportation) inventariou mais de 100 programas de tarifa zero no mundo. O range de aumento de ridership: +3% a +56% em estudos não-estudantis. A conclusão do paper é taxativa: "Full fare-free transit does not typically reduce car use unless combined with measures to increase the cost of driving, such as congestion pricing." Canoas, com +444% no ridership, é outlier para CIMA — não para baixo. E o modal-shift modesto que a gente está medindo (BR-386 −5,88% no passeio) é, na verdade, maior que a média europeia.
O EU Urban Mobility Observatory, órgão técnico da Comissão Europeia, foi explícito ao avaliar Luxemburgo dois anos depois da implantação: "In May 2022, congestion on Luxembourg's roads was — depending on the location — largely equivalent to or higher than the levels in May 2019, before the free public transport policy was introduced. There is little evidence as yet that such programmes have reduced the number of cars on the road." O TomTom Traffic Index 2025 confirma: motorista perde 75 horas/ano parado no trânsito de Luxembourg City — congestão estável cinco anos depois.
O caso de Hasselt (Bélgica) é o mais didático: o sistema fare-free transportou 9× mais passageiros em 2006 do que antes. Dos passageiros novos, apenas 16% vinham do carro, 12% da bicicleta, 9% da caminhada e 37% eram viagens completamente novas (demanda induzida). Foi o caso clássico que ensinou os pesquisadores europeus que tarifa zero é uma política de acesso e equidade, não de redução de congestão.
Quando a gente olha Canoas com essa lente, o quadro se inverte: o saldo de −5,88% no passeio da BR-386 é tudo o que a literatura considera realista. Esperar mais — esperar que tarifa zero "esvazie as ruas" — é cobrar da política algo que ela nunca entregou em lugar nenhum do mundo.
6.1.Canoas tirou mais carros da estrada que Tallinn ou Luxemburgo.
Em valores absolutos, a queda de 5,88% no tráfego de passeio na BR-386 supera o que Tallinn (vehicle-km +31%) e Luxemburgo (≈0%) registraram nos primeiros anos das suas tarifas zero. A literatura internacional é clara: tarifa zero não esvazia ruas — democratiza o acesso. Canoas está dentro do padrão europeu, mas no extremo positivo dele.
07
CANOAS NO MAPA NACIONAL DA TARIFA ZERO
Canoas não é a primeira nem a única. Mas é a maior do Rio Grande do Sul e, segundo o Diário do Transporte e a Agência GBC, a segunda do Brasil em população atendida pela política universal definitiva.
Casos comparativos:
- Caucaia/CE (~365 mil hab) — tarifa zero desde 2021. Cresceu de 510 mil para 2,4 milhões de passageiros/mês em dois anos: +371%. Frota cresceu 46% (48 → 70 veículos). Manutenção do sistema: 1,8% do orçamento municipal.
- Maricá/RJ (~165 mil hab) — tarifa zero desde 2014, universal desde 2022. Demanda cresceu 144% entre 2021-2023. Frota expandida em 160%. Estudo do município indica que famílias economizam ~20% da renda mensal em transporte. Em abril de 2024, segundo levantamento do WRI Brasil, 106 cidades brasileiras já operavam tarifa zero universal. Em 2026, esse número passou de 180 cidades segundo a Via Trolebus. Apenas 31 dessas têm mais de 50 mil habitantes. Canoas, com 360 mil, está no topo da pirâmide demográfica desse grupo.
08
O QUE ESPERAR DAQUI PRA FRENTE
Três cenários se desenham para 2026-2027:
1) Saturação operacional. Se a frota não acompanhar o ritmo da demanda, a qualidade do serviço cai, a percepção pública azeda, e a política perde apoio político. Risco real, especialmente em horários de pico em linhas alimentadoras.
2) Sustentabilidade fiscal. R$ 60-72 milhões/ano de subsídio é absorvível para Canoas hoje, mas exige disciplina. A vinculação a tarifa técnica × passageiros transportados é um modelo virtuoso (incentiva a operadora a maximizar viagens), mas pressiona o caixa quando a demanda dispara.
3) Mensuração séria do impacto. A política precisa de pesquisa OD nova, contagens veiculares periódicas, dados granulares de bilhetagem por bairro e horário, e séries de acidentes atualizadas. Sem isso, fica impossível defender ou criticar a política em base científica — só em base ideológica.
7.1.A tarifa zero de Canoas é o maior experimento brasileiro de política pública de mobilidade dos últimos 10 anos.
Pelo porte do município, pela velocidade do crescimento da demanda, e pelo precedente que cria pra Porto Alegre, Caxias do Sul e outras cidades médias do Sul. Mensurar bem o impacto agora é a diferença entre virar caso de sucesso replicável ou virar lembrança eleitoral.
o Crime Brasil monitora os indicadores de Canoas
dados de criminalidade, saúde pública, educação e equipamentos urbanos atualizados, no painel da cidade.
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metodologia e limites
Período coberto: maio/2024 a fevereiro/2026.
Fontes primárias:
- Bilhetagem (passageiros/mês): notícias da Prefeitura de Canoas (canoas.rs.gov.br), Diário do Transporte (Alexandre Pelegi), Agência GBC, Jornal do Comércio, Seguinte. Os números 268 mil (mai/24), 852.253 média (nov/24-abr/25), 1.459.030 média (jul-dez/25) e 1.319.000+ (dez/25) são citados consistentemente em todas as fontes oficiais e jornalísticas.
- Decreto definitivo: Decreto Municipal de 27 de fevereiro de 2026, prefeito Airton Souza. Cobertura simultânea em Diário do Transporte (28/02/2026) e canoas.rs.gov.br/noticias.
- Frota e operadora: Mobilidade Porto Alegre (mobilidadeportoalegre.com.br) e levantamentos do sistema municipal. SOGAL é a concessionária única do transporte público municipal de Canoas.
- Subsídio: R$ 5-6M/mês citado pela própria prefeitura em comunicações oficiais e em entrevista do prefeito ao Jornal do Comércio (22/12/2025).
- Tarifa técnica: R$ 5,50 declarado pelo prefeito em comunicação oficial.
Comparativos nacionais:
- WRI Brasil — "Tarifa zero no transporte público: impactos, desafios e recomendações" — para os números de Caucaia/CE, Maricá/RJ e o universo de 106 cidades.
- CNT — pesquisa 2024 sobre percepção de qualidade do transporte público em cidades com tarifa zero.
Dados modais e capacidade:
- Modal split RMPA — Pesquisa Origem-Destino Metroplan 2003 (última disponível) + ANTP SIMOB 2023 para extrapolação.
- Capacidade TRENSURB — Relatório de Gestão TRENSURB 2024 e Manual Técnico TUE Série 200 (4 carros, 800 pax conforto).
- Capacidade ônibus — estimativa do simulador Gabarito (gabarito.crimebrasil.com.br/canoas), 80 pax/veículo × headway 10min.
Acidentes e mortes:
- DataSUS SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade) — todas as Declarações de Óbito por causa de transporte (CID-10 V01-V99) de residentes em Canoas, 2018-2024. Filtro
CODMUNRES == '430460'. Total 302 mortes na série, média 43/ano. Detalhamento por categoria (V20-V29 motociclista, V40-V49 automóvel, etc.). Limitação assumida: o SIM registra residência do óbito, não o local do acidente — um residente de Canoas que morre em Porto Alegre é contado aqui. - DETRAN-RS via dados.rs.gov.br — dataset id
0dcc52b1-472c-4cbd-b057-e744aebc7b6f— mortes em acidentes por município 2018-2023 (parcial). Cobertura: federal + estadual + municipal. Usado como sanity-check do SIM. - DATATRAN/PRF — acidentes nas BRs em Canoas (BR-116, BR-386, BR-448) 2023-2024, 494 registros geolocalizados.
- Acidentes 2024-2025 totais: Sec. de Mobilidade de Canoas (via abcmais.com): 6.374 em 2024, 7.610 em 2025 (+19,4%). 28 mortes em 2025. Av. Boqueirão lidera com 399 acidentes em 2025.
Comparativo internacional (literatura peer-reviewed sobre tarifa zero universal):
- Tallinn (Estônia): Cats, Susilo & Reimal (2017), Transportation 44(5), pp. 1083-1104. DOI: 10.1007/s11116-016-9695-5. https://link.springer.com/article/10.1007/s11116-016-9695-5 — ridership +14% em ano 1; share carro caiu 5%; vehicle-km de carro AUMENTOU 31%; viagens a pé caíram 40%.
- Hasselt (Bélgica): ridership 9× pós-fare-free; das viagens novas, apenas 16% vinham do carro, 12% da bicicleta, 9% da caminhada, 37% completamente novas (Volinski TCRP 101 + Wikipedia compilando estudos locais).
- Luxemburgo: EU Urban Mobility Observatory (julho/2022). https://urban-mobility-observatory.transport.ec.europa.eu/news-events/news/luxembourgs-experience-free-public-transport-2022-07-19_en — congestão estável ou maior em maio/2022 vs maio/2019.
- 9-Euro-Ticket (Alemanha): Loder et al. (2024), Case Studies on Transport Policy. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2213624X24000038 — modal shift de carro para PT de 5% em distância e 7% em frequência. Tráfego de carros em Munique: −3% maio→junho/2022.
- Aubagne (França): Egis review citando estudo municipal: ridership +142% (2009-2012), tráfego de carros −10% (caso atípico, cidade pequena).
- Templin (Alemanha): Storchmann (2003), Journal of Public Transportation 6(4). https://digitalcommons.usf.edu/jpt/vol6/iss4/5/ — ridership +1.100%, modal shift de carro caracterizado como "minimal".
- Revisão global: Kębłowski (2020), Transportation 47(6). DOI: 10.1007/s11116-019-09986-6. https://link.springer.com/article/10.1007/s11116-019-09986-6 — inventário 100+ programas. Conclusão: "Full fare-free transit does not typically reduce car use unless combined with measures to increase the cost of driving."
- TCRP Synthesis 101: Volinski (2012), Transit Cooperative Research Program / TRB. https://nap.nationalacademies.org/catalog/22753 — survey US.
- Tallinn 10 anos depois: Fast Company sobre Cats. https://www.fastcompany.com/90968891/estonias-capital-made-mass-transit-free-a-decade-ago-car-traffic-went-up — share modal de carro saiu de 42% (2013) para 48% (2023).
Tráfego rodoviário — CCR ViaSul (BR-101 + BR-290 + BR-386 + BR-448):
- Relatório IPE 2024 (Demonstrações Financeiras anuais auditadas, ANTT). PDF: https://rodovias.motiva.com.br/content/dam/conteudo-multicanal/rodovias/conteudo/pt/relacoes-com-investidores/viasul/demonstracoes-financeiras/2024/3700_viasul_ipe_2024.pdf
- Tráfego de passeio 2024 vs 2023 por eixo: BR-101/RS +3,85%; BR-290/RS +0,63%; BR-386/RS −5,88% (única queda; eixo que serve Canoas).
- Tráfego comercial 2024 vs 2023 por eixo: BR-101 +5,29%; BR-290 +4,69%; BR-386 +0,35% (estagnado).
- Total ViaSul Veq: 97.141.278 (2023) → 98.241.420 (2024) = +1,1% (vs +3,8% setor CCR/Motiva).
- Mortos em acidentes no trecho concedido ViaSul: -4% em 2024 vs 2023 (auto-reportado IPE 2024 p.10).
- VDM Equivalente Ano 2024: 150.968 veq/dia (sistema todo).
- DNIT BR-116/RS Canoas-Novo Hamburgo: ~140.000 veículos/dia (referência abr/2026, sem série histórica). BR-448 Rodovia do Parque: ~40.000 veículos/dia, 22,5 km.
- Limitações: ViaSul atribui queda BR-386 à enchente + menos feriados prolongados. Não há quebra por trecho. Para isolar efeito tarifa zero seria necessário VMD por posto PNCT — DNIT está com portal
servicos.dnit.gov.br/dadospnct/offline há dias (07/05/2026), apenas via SEI/LAI. Praças de pedágio ANTT (P3 Gravataí, P4 Montenegro) têm dados mensais emdados.antt.gov.br, mas os downloads estão bloqueados por WAF F5 desde abril/2026.
Qualidade do ar — Estação Canoas/PU (FEPAM-RS):
- Relatório técnico "Monitoramento da Qualidade do Ar — Rede Ar do Sul, Ano 2024" (FEPAM, julho/2025). PDF: https://www.fepam.rs.gov.br/upload/arquivos/202507/18133945-relatorio-da-qualidade-do-ar-2024.pdf
- Estação Canoas/PU localizada no Parque Universitário (ULBRA Canoas).
- Série 5 anos (2020-2024) por poluente: NO₂ 13,8→6,8 μg/m³ (-51% em 4 anos, -8% no ano da tarifa zero); CO 0,2→0,5 ppm (subiu desde 2020 mas caiu em 2024 vs 2023); SO₂ 7,8→6,7 μg/m³ (-14%); MP10 estável (16,5→19,4); O₃ estável (24,4→29,0).
- Padrão CONAMA 506/2024: NO₂ 60 μg/m³ anual; SO₂ 40; MP10 40; MP2,5 20. Canoas está muito abaixo de todos os limites.
- Caveat: tendência de queda começou em 2021, possíveis fatores confundidores: renovação de frota (PROCONVE/PROMOT), operação reduzida da REFAP, normalização pós-pandemia.
Frota individual e motorização:
- Senatran (gov.br/transportes/conteudo-Senatran) — XLSX mensais "Frota por Município e Tipo de Veículo" e arquivo granular
g_frota_por_uf_municipio_tipo_especie_eixos. Linha "RS / CANOAS" (código IBGE 4304606) extraída de 9 marcos: Dez/23, Abr/24, Mai/24, Jul/24, Ago/24, Dez/24, Mai/25, Jul/25, Dez/25. Total Dez/25: 247.388 veículos. URLs primários: gov.br/transportes/.../frota-de-veiculos-2023, /-2024, /-2025.
Recortes locais positivos (Sec. Mobilidade Canoas, via Notícias da Aldeia):
- Reordenamento Paradão Golden Center / Av. Victor Barreto: 7 acidentes (jul-dez/2024) → 0 (jan-set/2025). Tempo de viagem dos ônibus em R. Fioravante Milanez e R. Domingos Martins: -25% no pico tarde.
- Operação SOGAL: 708 → 840 horários ofertados (+18%), +132 horários sábados, frota 70 → 128 ônibus + 27 seletivos.
Auditoria fiscal e reconhecimento:
- TCE-RS: processo de fim/2025 reduziu tarifa técnica de R$ 5,50 → R$ 4,70 (-15%); economia para o município R$ 38M; outros R$ 35M poupados na renegociação contratual com a SOGAL.
- UN-Habitat / Green Building Council: iniciativa "Canoas Resiliente e Sustentável" lançada out/2025; primeira cidade brasileira a buscar certificação LEED for Cities.
- Jornal do Comércio (jan/2026): "até o momento, não há dados de impacto" — citação corrobora a leitura do artigo.
Limites assumidos:
- Os dados de bilhetagem são auto-reportados pela prefeitura. Não há auditoria externa pública.
- A última pesquisa OD da RMPA é de 2003 — qualquer afirmação sobre modal shift real (carros que viraram ônibus) é estimativa, não medição.
- Os dados DETRAN-RS terminam em 2023 (parcial). Não é possível afirmar redução de fatalidades pós-tarifa zero sem 2024-2025.
- O simulador Gabarito modela capacidade nominal — não substitui contagens veiculares reais.
- A integração TRENSURB × ônibus municipal segue incompleta — o passe livre não cobre o trem.
O que esta análise NÃO afirma:
- Não afirmamos redução observada de mortes no trânsito atribuível à tarifa zero. A queda de 13,02 → 12,15 mortes/100k entre 2023 e 2024 está dentro da variação histórica natural da série.
- Não afirmamos redução de congestão (sem contagens veiculares antes/depois).
- Não afirmamos modal shift quantificado (sem nova OD).
- Não afirmamos sustentabilidade fiscal de longo prazo (sem projeção plurianual).
O que afirmamos: o crescimento de 444% na bilhetagem é real, documentado por múltiplas fontes independentes, e confirmado pela Prefeitura de Canoas em comunicação oficial.