
A FEPAM-RS opera uma estação automática no Parque Universitário da ULBRA Canoas. Mede seis poluentes do ar a cada hora, ininterruptamente, desde 2020. É a única série temporal oficial e contínua de qualidade do ar disponível para a cidade — e talvez a peça mais subutilizada quando se discute o impacto da tarifa zero.
Em 2024, primeiro ano completo de passe livre universal, o ar de Canoas continuou na trajetória de queda que começou em 2021. O dióxido de nitrogênio (NO₂) — proxy direto de emissões veiculares — caiu 8% só em 2024. Em quatro anos, recuo de 51%.
Mas calma. Atribuir isso à tarifa zero é fácil — e errado.
Esta análise é parte de uma série de três sobre o caso Canoas. A peça-mãe é a +444% de passageiros e a Europa (demanda, custo, comparação internacional). A irmã é o trânsito e as mortes (Paradão Victor Barreto, acidentes 2024-2025, DataSUS SIM).
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O QUE A FEPAM MEDE EM CANOAS
A Rede Ar do Sul é a malha de monitoramento atmosférico operada pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul. Em Canoas, a estação fica no Parque Universitário (ULBRA), e mede seis poluentes pelos protocolos do CONAMA:
- NO₂ — dióxido de nitrogênio, vem de motores a diesel e a gasolina.
- CO — monóxido de carbono, queima incompleta de combustíveis fósseis.
- SO₂ — dióxido de enxofre, queima de combustíveis com enxofre (diesel, óleo combustível, refinaria).
- MP10 — material particulado fino. Múltiplas fontes: queimadas, poeira de pneu, emissões veiculares.
- MP2,5 — material particulado ultrafino (parcial).
- O₃ — ozônio troposférico. Poluente secundário — não sai de chaminé, é formado na atmosfera por reação fotoquímica.
A localização da estação importa: zona oeste de Canoas, próxima à BR-116 e à REFAP (refinaria Alberto Pasqualini). Não cobre os bairros mais densos do município, e está sujeita à influência direta do tráfego pesado da BR-116 e da operação industrial do entorno.
O relatório técnico anual da FEPAM "Monitoramento da Qualidade do Ar — Rede Ar do Sul, Ano 2024" (publicado em julho/2025) consolida toda a série temporal por estação. É a fonte primária dos números deste artigo.
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O NO₂ CAIU. O QUE ISSO QUER DIZER?
A leitura: a concentração de NO₂ saiu de 13,8 μg/m³ em 2020 para 6,8 μg/m³ em 2024 — queda de 51% em quatro anos. Em 2024, primeiro ano cheio com tarifa zero, a queda em relação a 2023 foi de −8% (7,4 → 6,8).
2.1.O ar de Canoas melhorou — e o NO₂ veicular continuou caindo no ano da tarifa zero.
A FEPAM mede continuamente o ar de Canoas desde 2020. O NO₂, principal indicador de combustão de motores, caiu 51% em quatro anos (13,8 → 6,8 μg/m³). A queda começou antes da tarifa zero — provavelmente reflete renovação da frota (programas PROCONVE/PROMOT) e operação reduzida da refinaria REFAP no entorno. Mas em 2024, ano da tarifa zero, a tendência de queda se manteve, compatível com a hipótese de modal-shift. Não é evidência exclusiva, mas é a primeira medição direta de impacto ambiental veicular em Canoas.
Para colocar em escala: o padrão CONAMA 506/2024 estabelece o limite anual de NO₂ em 60 μg/m³. Canoas opera hoje em 11% do limite legal. Mesmo no pior ano da série (2020, durante a pandemia), estava em 23%. Isso vai contra a percepção popular de que "Canoas tem o ar pesado" — pelos parâmetros nacionais, é uma cidade saudável.
A queda de 8% em 2024 é compatível com modal-shift. Mas não exclusiva: dá pra explicar com renovação da frota, operação reduzida da REFAP, ou clima atípico. O que a gente tem é um sinal na direção certa, ainda que sem isolamento causal.
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03
OS OUTROS POLUENTES — CO, SO₂, MP10, O₃
CO (monóxido de carbono) caiu pela metade: 1,0 → 0,5 ppm. CO sai principalmente da queima incompleta em motores a gasolina, e o recuo é compatível com a renovação tecnológica da frota (motores mais limpos) e modal-shift.
SO₂ (dióxido de enxofre) recuou 18%: 8,2 → 6,7 μg/m³. SO₂ vem fortemente de combustíveis com enxofre — diesel, óleo combustível industrial, e operação da REFAP. A queda é difícil de atribuir só ao trânsito municipal, mas o padrão de redução é consistente.
MP10 (material particulado fino) ficou estável: 19,1 → 19,4 μg/m³. Esperado. MP10 vem fortemente de queimadas e poeira de pneu — em 2024 o RS recebeu fumaça das queimadas do centro do país (ago-set/2024), o que mascara qualquer ganho local. E poeira de pneu não responde a redução de fluxo veicular se a frota individual continuou crescendo (que foi exatamente o caso, como mostra a peça-mãe).
O₃ (ozônio) ficou estável: 29,1 → 29,0 μg/m³. Esperado também. O₃ é poluente secundário — não sai de chaminé. Forma-se na atmosfera por reação fotoquímica entre NOx e compostos orgânicos voláteis sob luz solar. Não responde diretamente a redução de fluxo veicular; só com queda muito grande de NO₂ por janelas longas dá pra ver efeito.
A leitura de conjunto: os três poluentes que estão diretamente ligados a queima veicular ou industrial caíram (NO₂, CO, SO₂). Os dois que dependem de outros fatores (queimadas regionais, química atmosférica) ficaram estáveis. É exatamente o que se esperaria se a frota emitisse menos por unidade rodada.
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A FROTA MUDOU DE COMBUSTÍVEL ANTES DO CÉU MUDAR
A composição da frota de Canoas mudou nos 19 meses entre maio/2024 e dezembro/2025. Os dados da Senatran por tipo de combustível mostram uma transição significativa:
A frota de veículos puramente elétricos saltou de 117 para 484 unidades (+313,7%). Híbridos a gasolina cresceram 124%. Carros flex (álcool/gasolina) cresceram 8,8% — sinal de que veículos novos predominam novos modelos. Gasolina pura cresceu apenas 1,8%, e o gás natural recuou 6%.
4.1.A frota de Canoas está ficando mais limpa — independentemente da tarifa zero.
Esse ganho ambiental não é da tarifa zero. É do mercado nacional acompanhando renovação tecnológica + incentivos PROCONVE/PROMOT + queda de preço de elétricos. Mas ajuda a explicar por que o NO₂ pode estar caindo mesmo com a frota crescendo. As medições FEPAM e a evolução da frota apontam na mesma direção: o ar de Canoas está limpando, ainda que mais por progresso tecnológico do mercado do que por modal-shift comprovado.
A leitura honesta: a frota total cresceu (gente comprando carro), mas a frota nova é radicalmente mais limpa. Em uma cidade como Canoas, com ~360 mil habitantes e ~247 mil veículos, qualquer renovação rápida do estoque tem impacto agregado relevante na emissão por veículo-km rodado.
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OS CONFOUNDERS HONESTOS — REFAP, PROCONVE, QUEIMADAS
Pra atribuir a queda do NO₂ à tarifa zero, a gente teria que descartar três explicações concorrentes — todas com evidência razoável:
1) Renovação da frota (PROCONVE/PROMOT). Os programas brasileiros de controle de emissão veicular (Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores e o equivalente para motos) impõem limites cada vez mais rigorosos por fase. A fase L8 entrou em vigor em 2025; a L7 vinha aplicada desde 2022. Cada fase nova reduz emissões de NOx por veículo-km em algo como 40-70% pra carro novo. Como a renovação acontece naturalmente (5-7% da frota troca por ano em cidades grandes), o efeito agregado aparece exatamente na trajetória observada.
2) Operação reduzida da REFAP. A refinaria Alberto Pasqualini, no entorno da estação Canoas/PU, opera abaixo da capacidade de pico há vários anos por motivos comerciais (margem de refino) e regulatórios. Operação industrial reduzida = menos NOx e SO₂ no entorno. A própria queda de SO₂ (-18%) é um indicador parcial disso, já que o trânsito é fonte minoritária de SO₂.
3) Queimadas no centro do país. Em 2024, o RS recebeu fumaça intensa das queimadas em Mato Grosso, Pará e Pantanal entre agosto e setembro. Isso aumentou o material particulado (MP10), mas pode ter mascarado, em alguma extensão, sinais de NO₂ via interações químicas atmosféricas — em ambos os sentidos, então o efeito líquido em medição anual é incerto.
A honestidade aqui é dizer: a queda de NO₂ é compatível com tarifa zero, mas não exclusiva. Sem dados desagregados por hora-do-dia (quando o tráfego é dominante) e sem estação de fundo (controle), o sinal causal fica incompleto.
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O QUE FALTA MEDIR
Pra fechar o argumento ambiental, a literatura técnica pediria:
- Estações urbanas em bairros densos (Marechal Rondon, Niterói, Centro) — pra capturar o efeito local onde o tráfego de moradores se concentra.
- Estação de fundo regional (controle) — pra distinguir tendência regional (aplicável a toda RMPA) de efeito específico de Canoas.
- Medição contínua MP2,5 — só parcial hoje. Mais sensível ao tráfego diesel.
- Quebra horária — comparar a curva NO₂ x hora-do-dia em 2023 vs 2024. Se a tarifa zero migrou viagens de carro pro ônibus em horário de pico, isso aparece.
- Contagens veiculares concomitantes nas vias estruturais (BR-116, Av. Boqueirão, Av. Guilherme Schell) — pra correlacionar fluxo medido com poluente medido.
A boa notícia é que a infraestrutura técnica existe. A FEPAM já tem 30+ estações ativas em outras cidades do RS. Adensar a rede em Canoas — uma cidade que virou laboratório nacional de tarifa zero — seria barato e geraria evidência peer-reviewable em 2-3 anos.
A reportagem encaminhou pedido via Lei de Acesso à Informação à FEPAM-RS em abril/2026 solicitando dados horários da estação Canoas/PU, série completa 2020-2025. Resposta até maio/2026.
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Os outros recortes desta série: +444% de passageiros (peça-mãe) e trânsito e mortes em 2024-2025.
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metodologia e limites
Período coberto: 2020-2024 (ar) + maio/2024 a dezembro/2025 (frota).
Qualidade do ar — Estação Canoas/PU (FEPAM-RS):
- Relatório técnico "Monitoramento da Qualidade do Ar — Rede Ar do Sul, Ano 2024" (FEPAM, julho/2025). PDF: https://www.fepam.rs.gov.br/upload/arquivos/202507/18133945-relatorio-da-qualidade-do-ar-2024.pdf
- Estação Canoas/PU localizada no Parque Universitário (ULBRA Canoas), zona oeste, próxima à BR-116 e REFAP.
- Série 5 anos (2020-2024) por poluente: NO₂ 13,8→6,8 μg/m³ (-51% em 4 anos, -8% no ano da tarifa zero); CO 1,0→0,5 ppm (-50%); SO₂ 8,2→6,7 μg/m³ (-18%); MP10 estável (19,1→19,4); O₃ estável (29,1→29,0).
- Padrão CONAMA 506/2024: NO₂ 60 μg/m³ anual; SO₂ 40; MP10 40; MP2,5 20. Canoas está muito abaixo de todos os limites.
- Caveat metodológico: a estação está sujeita à influência direta da BR-116 (tráfego pesado de carga) e da REFAP. Não cobre bairros densos da cidade.
Confounders considerados:
- PROCONVE (Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores) — IBAMA. Fases L7 (2022) e L8 (2025) impõem limites NOx -40 a -70% para veículos novos.
- PROMOT (Programa de Controle da Poluição do Ar por Motociclos) — equivalente para motos, fase 4 desde 2014; revisão em 2024.
- REFAP (Refinaria Alberto Pasqualini, Petrobras) — operação reduzida 2020-2024 confirmada por relatórios anuais Petrobras.
- Queimadas centro-oeste 2024 — INPE / programa Queimadas; pico ago-set/2024 com transporte de fumaça pro Sul confirmado por relatórios CETESB e modelagem CPTEC.
Frota individual e motorização (composição por combustível):
- Senatran (gov.br/transportes/conteudo-Senatran) — XLSX mensais "Frota por Município, Tipo, Espécie e Combustível" e arquivo granular. Linha "RS / CANOAS" (código IBGE 4304606) extraída para mai/2024 e dez/2025.
- Cifras absolutas dez/2025: elétrico 484 (mai/24: 117); híbrido 230 (mai/24: 103); tri-flex 89 (mai/24: 45); flex 152.788 (140.402); diesel 21.345 (20.243); gasolina pura 67.092 (65.890); GNV 4.123 (4.388).
Limites assumidos:
- A estação Canoas/PU é uma medição em ponto fixo — não representa a cidade inteira.
- A tendência de queda do NO₂ começou antes da tarifa zero (2021), portanto a política não é a única causa plausível.
- Sem estação de controle regional, não é possível separar efeito local (Canoas) de tendência regional (RMPA).
- Os dados anuais consolidados não permitem ver curvas horárias — é onde o efeito de tráfego mais aparece.
O que esta análise NÃO afirma:
- Não afirmamos que a tarifa zero CAUSOU a queda do NO₂. A queda começou antes; renovação da frota explica boa parte.
- Não afirmamos correlação 1:1 entre tarifa zero e qualidade do ar. Existem confounders documentados.
- Não afirmamos que Canoas tem ar perfeito — afirmamos que está abaixo dos limites legais nacionais, com tendência consistente de melhora.
O que afirmamos: o NO₂ medido pela FEPAM caiu 8% em 2024 sobre 2023 — primeiro ano completo de tarifa zero. A trajetória de queda é real, oficial, contínua, e auditada pelo padrão CONAMA. A interpretação causal exige mais dados (estações adicionais, contagens veiculares concomitantes, séries horárias).