
Quase todo carioca tem uma. A história começa parecida: o aparelho some na orla, no metrô, no ônibus, na esquina da padaria. Às vezes na mão de alguém apontando uma arma. Às vezes só some — o bolso fica vazio sem ninguém perceber.
Em 2025, isso aconteceu 72.187 vezes no estado do Rio. Foi o maior número da série e a alta foi a mais brusca dos últimos anos: 22,7% em um único ano.
01
O TAMANHO DO PROBLEMA
A série histórica do ISP-RJ (Instituto de Segurança Pública) mostra um crescimento contínuo desde 2022. Mas a aceleração de 2024 para 2025 foi a mais agressiva.
| Ano | Roubo | Furto | Total |
|---|---|---|---|
| 2022 | 16.193 | 30.016 | 46.209 |
| 2023 | 15.496 | 32.912 | 48.408 |
| 2024 | 21.416 | 37.397 | 58.813 |
| 2025 | 25.581 | 46.606 | 72.187 |
Em três anos o número saltou de 46 mil pra 72 mil — alta de 56%. Pra efeito de comparação, no mesmo período o número de homicídios dolosos no estado caiu.
1.A média diária bate quase 200 aparelhos
72.187 dividido por 365 dá 197,77 — o que arredonda pra 198 aparelhos por dia em 2025. Convertendo pra minutos: um celular some a cada 7,3 minutos no estado do Rio. Enquanto você leu até aqui, é provável que mais de um já tenha sido levado em algum lugar do RJ.
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02
DOIS CRIMES, MESMO NOME
Os números agregados escondem uma diferença que importa: roubo e furto de celular não são a mesma coisa.
Roubo envolve violência ou ameaça — alguém com arma, faca, ou força física toma o aparelho. Furto é a subtração silenciosa: bolso, mochila, mesa do bar, dentro do ônibus. A vítima só percebe depois.
O Rio registra muito mais furto que roubo. Em 2025, foram 46.606 furtos contra 25.581 roubos — proporção de quase 2 pra 1.
A foto fica mais nítida quando você separa as duas modalidades. A proporção entre roubo e furto muda completamente dependendo do município.
| Município | Roubo | Furto | % roubo |
|---|---|---|---|
| Belford Roxo | 737 | 112 | 87% |
| Duque de Caxias | 1.916 | 725 | 73% |
| Nova Iguaçu | 1.850 | 830 | 69% |
| São João de Meriti | 849 | 379 | 69% |
| Nilópolis | 364 | 268 | 58% |
| São Gonçalo | 603 | 859 | 41% |
| Rio de Janeiro | 17.580 | 36.763 | 32% |
| Campos dos Goytacazes | 157 | 382 | 29% |
| Niterói | 375 | 1.849 | 17% |
| Petrópolis | 25 | 457 | 5% |
A Baixada Fluminense vive um crime; Niterói e Petrópolis vivem outro.
Em Belford Roxo, 87% das ocorrências são roubo armado. Em Petrópolis, 95% são furto. Mesmo dado nacional, mesma manchete, mas a experiência é completamente diferente — quem perde celular na Baixada quase sempre olhou pra um cano de arma; quem perde em Petrópolis nem viu o ladrão.
2.Belford Roxo tem 7x mais roubo que furto. Petrópolis tem 18x mais furto que roubo.
Não é o mesmo crime. Quando o celular vai embora num assalto à mão armada, a vítima sai com trauma físico e psicológico. Quando some no bolso, o prejuízo é só financeiro — o aparelho, as fotos, eventualmente o acesso a contas bancárias. Tratar tudo como "celular perdido" achata uma diferença que define vidas.
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03
ONDE O CELULAR SOME
O município do Rio de Janeiro concentra 54.343 das 72.187 ocorrências de 2025 — 75% do total estadual. Não é surpreendente: a capital tem 6,7 milhões de habitantes e recebe milhões de turistas e trabalhadores diários.
Mas o que chama atenção é a velocidade da capital. Em 2024 foram 43.742 ocorrências; em 2025, 54.343. Alta de 24,2% — acima da média do estado.
| Município | 2024 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Rio de Janeiro | 43.742 | 54.343 | +24,2% |
| Nova Iguaçu | 2.276 | 2.680 | +17,8% |
| Duque de Caxias | 2.049 | 2.641 | +28,9% |
| Niterói | 1.572 | 2.224 | +41,5% |
| São Gonçalo | 1.048 | 1.462 | +39,5% |
Niterói teve uma das maiores acelerações entre os grandes municípios — mais de 40% em um ano. E em Niterói, lembrando, o crime é majoritariamente furto: gente perdendo celular em restaurante, no calçadão, no ônibus, sem confronto. São João de Meriti, na Baixada, foi ainda mais intenso: saltou de 634 para 1.228 ocorrências (+93,7%) — quase dobrou em doze meses.
04
POR QUE 2025 ACELEROU
Não há resposta única. Mas alguns vetores ajudam a entender.
O primeiro é o PIX coercivo. O celular roubado não vale mais só pelo aparelho. Vale pelo que tem dentro: aplicativos bancários abertos, crédito disponível, capacidade de fazer transferências enquanto a vítima ainda está sem reagir. Reportagens locais (Folha, O Globo) descrevem o modus operandi consolidado: rouba, exige a senha do banco, transfere antes da vítima conseguir bloquear.
O segundo é a mudança no mercado de receptação. Aparelhos de gerações recentes ainda têm valor de revenda alto, sobretudo no mercado paralelo de exportação. A polícia federal e a civil têm operações ativas mapeando rotas Rio-Paraguai-Bolívia.
O terceiro é o policiamento ostensivo. O efetivo policial nas ruas do Rio caiu nos últimos anos — efeito de aposentadorias, exonerações e remanejamentos. Crime de oportunidade prospera quando há pouca presença visível.
Por que furto tem alta tão grande em Niterói?
Niterói teve a maior aceleração proporcional entre as grandes cidades (+41,5% em um ano). A hipótese mais consistente é o crescimento do polo gastronômico e turístico de Icaraí e do Centro de Niterói nos últimos anos — mais bares, mais restaurantes, mais movimento, mais vulnerabilidade pra furto sem violência. A cidade também tem alta concentração de trabalhadores que cruzam diariamente para o Rio, expondo o mesmo público alvo em duas pontas.
A combinação dos três fatores explica boa parte do salto de 22,7%. Mas não tudo. Outra parte do crescimento é provavelmente maior notificação: registros de BO de celular ficaram mais fáceis (algumas delegacias virtuais aceitam o registro online), e operadoras passaram a exigir BO para bloqueio definitivo do aparelho. Mais ocorrências registradas não significam necessariamente mais crime cometido — significam mais crime documentado.
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05
METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ), série mensal por município (CISP), via base de microdados públicos disponibilizada no portal do ISP. Os dados são consolidados pela Polícia Civil do RJ a partir dos boletins de ocorrência registrados em todo o estado.
Período: janeiro de 2022 a dezembro de 2025. Dados parciais de 2026 (até março) existem mas não foram usados nas análises anuais.
Definição de roubo de celular: categoria roubo_celular do dataset ISP — subtração com violência ou grave ameaça especificamente de aparelho celular.
Definição de furto de celular: categoria furto_celular do dataset ISP — subtração sem violência (descuido, distração, batedor de carteira) especificamente de aparelho celular.
Cidades cobertas: a análise inclui todos os 92 municípios do RJ. Os destaques mostrados são os 10 maiores por volume.
Limitações: a notificação varia entre municípios — em cidades com maior infraestrutura digital de registro de BO, a propensão de a vítima formalizar a ocorrência é maior. Parte do crescimento pode refletir melhoria no registro, e não só aumento real do crime. Furto, em particular, tende a ser mais subnotificado que roubo.
Verificação: os números deste artigo foram extraídos da base oficial do ISP-RJ e cruzados com o dataset interno do Crime Brasil em maio de 2026.