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O relógio do crime em Porto Alegre: quando, onde e contra quem

Por Israel Lehnen Silva·Metodologia

Verificado em 21 de abril de 2026

Os 133 mil registros criminais de Porto Alegre em 2025 mostram três cidades sobrepostas no mesmo mapa — cada uma com seu horário, seus bairros e o perfil da vítima. Roubo de manhã cedo. Violência doméstica à noite. Homicídio na madrugada.

Porto AlegreHorário do CrimeViolência DomésticaRoubo A PedestreHomicídio2025

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Destaques
Roubo a pedestre
4.760
Porto Alegre registrou 4.760 roubos a pedestre em 2025 — cerca de 13 por dia. O pico é entre 20h e 21h.
Postes de luz iluminando rua urbana brasileira à noite com céu escuro
Rua urbana brasileira à noite — postes de iluminação
Foto: Vinícius Costa / Unsplash

A sensação difusa de insegurança que atravessa Porto Alegre trata a cidade como um bloco único: perigosa, ou não, dependendo de quem fala. Os dados da SSP-RS sobre os 133 mil registros criminais da capital em 2025 contam uma história mais específica.

Existem três cidades sobrepostas no mesmo mapa, cada uma com o seu relógio. A do roubo a pedestre, que acorda cedo e trabalha até tarde. A da violência doméstica, que pulsa à noite e toma conta da casa. E a do homicídio, que se concentra nas horas em que o resto da cidade dorme.

01

O RELÓGIO DO ROUBO: A CIDADE NO PONTO DE ÔNIBUS

O roubo a pedestre é o crime que mais define o cotidiano de quem circula por Porto Alegre. Em 2025, a capital registrou 4.760 casos — cerca de 13 por dia. O perfil horário é nítido:

  • A curva começa a subir às 05h-06h (de 180 para 283 casos por faixa horária)
  • Cai um pouco no meio do dia
  • Volta a subir até o pico entre 20h e 21h (391 e 397 casos por hora)
  • Só desaba depois das 23h

Mas o detalhe que transforma esse dado em informação útil é quem é a vítima em cada horário. Nas primeiras horas da manhã — 6h, 7h, 8h — mais de 55% das vítimas de roubo a pedestre são mulheres. Às 10h, chegam a 63% das vítimas. É o padrão clássico da cidade indo trabalhar: mulheres que começam a jornada mais cedo, circulam a pé até paradas e estações, e enfrentam o pico de vulnerabilidade antes das 9h.

À noite, o perfil vira. Entre 21h e 01h, a proporção de vítimas femininas cai para 30%-40% — a rua nesse horário é majoritariamente masculina.

O "pico de roubo" das 20h e o "pico de roubo" das 7h são dois problemas diferentes, contra duas populações diferentes, em pontos diferentes da cidade.

O pico da manhã é feminino

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02

O RELÓGIO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: O CRIME QUE FICA EM CASA

A lesão corporal — o proxy mais próximo que os microdados oferecem da violência doméstica — desenha um ciclo completamente distinto. Em 2025, Porto Alegre registrou 6.344 casos dessa natureza. O pico horário é às 20h (411 casos), seguido por 22h (358) e 23h (312).

O dado que importa é o sexo da vítima por hora:

  • Entre 20h e 02h, 60% a 70% das vítimas de lesão corporal são mulheres. Às 23h, são 65% (203 de 312). Na virada do dia, 60% (127 de 213). Às 01h, 67% (134 de 201).
  • Entre 10h e 17h, a proporção se equilibra, com leve predominância masculina em alguns horários — padrão típico de brigas de rua, bares e conflitos de circulação.

O corte é direto: a lesão corporal da madrugada é majoritariamente violência doméstica contra a mulher. A do meio-dia é conflito interpessoal em espaço público. Tratá-las com a mesma política, o mesmo efetivo e o mesmo canal de denúncia é ignorar que são crimes distintos, compartilhando apenas o código penal.

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03

O RELÓGIO DO HOMICÍDIO: A CIDADE SILENCIOSA

O homicídio doloso na capital somou 142 casos em 2025. A curva horária é menos espalhada que a dos roubos:

  • Pico entre 20h e 23h
  • Queda durante o dia
  • Segundo pico, mais sutil, entre 16h e 18h

O dado mais inquietante é o cruzamento com a cor da vítima. No Rio Grande do Sul, em 2025, às 03h da madrugada, 37,5% das vítimas de homicídio foram pessoas negras — quase o dobro da proporção demográfica do grupo no estado (21%). Às 10h da manhã, esse percentual cai para 14,8%.

O perfil da vítima de homicídio varia com o relógio — e não é por acaso. Os territórios urbanos onde a violência letal acontece na madrugada são os mesmos onde se concentra a população negra e periférica.

Na madrugada, 37,5% das vítimas de homicídio no RS são negras

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04

ONDE: O MAPA DE PORTO ALEGRE EM TRÊS CAMADAS

Somando os três tipos de crime, os bairros no topo do ranking em Porto Alegre em 2025 são:

BairroHomicídios ▼Roubos pedestreLesões corporais
Lomba do Pinheiro1135272
Restinga1058466
Partenon9112227
Santa Tereza728216
Rubem Berta759158
Centro Histórico3495290
Sarandi368147
Mário Quintana342169

O padrão é evidente. O Centro Histórico concentra o roubo a pedestre — o crime dos que circulam, do comércio, do fluxo diurno. A periferia — Restinga, Lomba, Santa Tereza, Rubem Berta — concentra o homicídio e a lesão corporal, os crimes da convivência e do conflito doméstico.

São duas geografias do medo morando na mesma cidade: uma sente a rua, a outra sente a casa.

05

O QUE O RELÓGIO ENSINA

A leitura prática que esses três ciclos oferecem é que Porto Alegre não é insegura em bloco. Ela é insegura em frestas de horário que mudam de natureza a cada hora do dia:

  • Antes das 9h: roubo a pedestre, vítima tende a ser mulher indo trabalhar, geografia é o trajeto até paradas e estações no Centro e bairros de passagem.
  • Meio-dia ao fim de tarde: volume cai e se dispersa — conflitos interpessoais, trânsito, pequenos furtos.
  • 18h-21h: novo pico de roubo a pedestre, perfil mais equilibrado, concentração no Centro e corredores de saída do trabalho.
  • 21h-03h: muda a cena. A violência entra em casa (lesão corporal contra mulher) ou se concentra em territórios específicos da periferia (homicídio, com perfil de vítima marcadamente negro).

O efetivo policial, o iluminamento de ruas, o transporte público, as campanhas de denúncia e as casas de acolhimento operam como se a cidade fosse uma só. Os dados dizem que não é.

A resposta que funciona às 7 da manhã pra mulher no ponto de ônibus do Centro é uma política inteiramente diferente da que essa mesma mulher precisa às 23h dentro de casa na Restinga.

06

METODOLOGIA E FONTES

Metodologia e fontes

Fonte: registros individuais da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), publicados sob a Lei Estadual 15.610/2021. Os dados correspondem a todas as ocorrências registradas em Porto Alegre no ano de 2025, consolidados pelo Crime Brasil.

Tipos analisados: HOMICIDIO DOLOSO, ROUBO A PEDESTRE e LESAO CORPORAL. A hora do fato é extraída do campo hora_fato do boletim. O sexo e a cor da vítima seguem a padronização da SSP/RS (alinhada ao IBGE).

Exclusões: registros sem hora preenchida foram mantidos no agregado total, mas excluídos das séries horárias. Registros com sexo ou cor "Sem informação" foram excluídos dos recortes por gênero e raça.

Lesão corporal como proxy de violência doméstica: a base não distingue automaticamente violência doméstica de outros tipos de lesão corporal no campo de tipo de enquadramento. O uso de lesão corporal como proxy é convencional na literatura de segurança pública brasileira — validado pelo padrão horário e pela proporção de vítimas femininas na madrugada.

Dados de raça e hora (RS): os dados de proporção racial por hora (madrugada 03h: 37,5% negros; manhã 10h: 14,8%) referem-se ao estado do RS, não apenas a Porto Alegre, por necessidade de base estatística suficiente.

Período: 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2025.

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Citado por Gazeta do Povo, O Eco, Tribuna do Planalto

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. O relógio do crime em Porto Alegre: quando, onde e contra quem. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/relogio-do-crime-porto-alegre>. Acesso em: 22 out. 2026.

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Depoimento em vídeo
Vinícius Mendes
Repórter · Olhar Direto (Cuiabá · MT)

Repórter da editoria de Reportagem do Olhar Direto, portal de notícias de Cuiabá (MT), com cobertura de segurança pública e casos policiais no estado. Usou o dado do Crime Brasil para reportar a queda de roubos e a alta de estelionatos em Mato Grosso.

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Jair GonçalvesDepoimento
Jair Gonçalves
Fundador · Portal Atibaia News

Fundador do Portal Atibaia News, veículo de notícias de Atibaia (interior de São Paulo). Publicou com o dado do Crime Brasil o ranking de ocorrências por bairro da cidade.

“Parabéns à Crime Brasil pelo excelente trabalho de jornalismo de dados! As informações disponibilizadas possibilitaram ao Portal Atibaia News produzir uma importante matéria sobre os números de ocorrências policiais por bairro em Atibaia, levando informação e transparência aos nossos leitores. Muito obrigado.”
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Review em vídeo
Mundo de Cores
YouTube · 347 mil inscritos

Douglas, médico veterinário, comanda com a família o canal Mundo de Cores, sobre vida no campo, no Rio Grande do Sul.

“Só Compre uma Chácara Após Assistir Esse Vídeo!”

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Comentários no vídeo

“Gratidão pelas informações. Essa é uma excelente ferramenta para uma decisão segura.”

— @marceloguilemond1632

“Verdade, pode ajudar muito mesmo!”

— Mundo de Cores (canal)

“Muito Bom!”

— @edmundosantos3812
Gazeta do Povo
Artigo de opinião
Gazeta do Povo
Artigo assinado · Paraná

Artigo de opinião do editor do Crime Brasil: a queda de homicídios no Paraná esconde a alta em mortes no trânsito, suicídios e feminicídios — com o dado da plataforma.

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O Eco
Reportagem
O Eco
Reportagem · Amazônia

Reportagem sobre violência fundiária e baixa punição de crimes ambientais na Amazônia, cruzando dados do Crime Brasil com CPT, Ibama, CNJ e MapBiomas.

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Tribuna do Planalto
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Tribuna do Planalto
Goiânia · edição impressa

Matéria de capa cruzando a queda de homicídios em Goiás com a alta no entorno do Distrito Federal, a partir do dado da plataforma.

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São Paulo · capital

Levantamento exclusivo do mapa da criminalidade na capital paulista — Moema com muito mais infrações que o Grajaú — com o dado do Crime Brasil.

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IHU · Unisinos
Fonte acadêmica
IHU · Unisinos
Instituto Humanitas Unisinos

Entrevista do Instituto Humanitas Unisinos que cita a plataforma como fonte de microdado criminal aberto.

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IBCCRIM · JCC
Revisado por pares
IBCCRIM · JCC
Jornal de Ciências Criminais

Artigo no Jornal de Ciências Criminais sobre os limites do acesso a microdados criminais no Brasil, citando o Crime Brasil.

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