
A sensação difusa de insegurança que atravessa Porto Alegre trata a cidade como um bloco único: perigosa, ou não, dependendo de quem fala. Os dados da SSP-RS sobre os 133 mil registros criminais da capital em 2025 contam uma história mais específica.
Existem três cidades sobrepostas no mesmo mapa, cada uma com o seu relógio. A do roubo a pedestre, que acorda cedo e trabalha até tarde. A da violência doméstica, que pulsa à noite e toma conta da casa. E a do homicídio, que se concentra nas horas em que o resto da cidade dorme.
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O RELÓGIO DO ROUBO: A CIDADE NO PONTO DE ÔNIBUS
O roubo a pedestre é o crime que mais define o cotidiano de quem circula por Porto Alegre. Em 2025, a capital registrou 4.760 casos — cerca de 13 por dia. O perfil horário é nítido:
- A curva começa a subir às 05h-06h (de 180 para 283 casos por faixa horária)
- Cai um pouco no meio do dia
- Volta a subir até o pico entre 20h e 21h (391 e 397 casos por hora)
- Só desaba depois das 23h
Mas o detalhe que transforma esse dado em informação útil é quem é a vítima em cada horário. Nas primeiras horas da manhã — 6h, 7h, 8h — mais de 55% das vítimas de roubo a pedestre são mulheres. Às 10h, chegam a 63% das vítimas. É o padrão clássico da cidade indo trabalhar: mulheres que começam a jornada mais cedo, circulam a pé até paradas e estações, e enfrentam o pico de vulnerabilidade antes das 9h.
À noite, o perfil vira. Entre 21h e 01h, a proporção de vítimas femininas cai para 30%-40% — a rua nesse horário é majoritariamente masculina.
O "pico de roubo" das 20h e o "pico de roubo" das 7h são dois problemas diferentes, contra duas populações diferentes, em pontos diferentes da cidade.
O pico da manhã é feminino
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O RELÓGIO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: O CRIME QUE FICA EM CASA
A lesão corporal — o proxy mais próximo que os microdados oferecem da violência doméstica — desenha um ciclo completamente distinto. Em 2025, Porto Alegre registrou 6.344 casos dessa natureza. O pico horário é às 20h (411 casos), seguido por 22h (358) e 23h (312).
O dado que importa é o sexo da vítima por hora:
- Entre 20h e 02h, 60% a 70% das vítimas de lesão corporal são mulheres. Às 23h, são 65% (203 de 312). Na virada do dia, 60% (127 de 213). Às 01h, 67% (134 de 201).
- Entre 10h e 17h, a proporção se equilibra, com leve predominância masculina em alguns horários — padrão típico de brigas de rua, bares e conflitos de circulação.
O corte é direto: a lesão corporal da madrugada é majoritariamente violência doméstica contra a mulher. A do meio-dia é conflito interpessoal em espaço público. Tratá-las com a mesma política, o mesmo efetivo e o mesmo canal de denúncia é ignorar que são crimes distintos, compartilhando apenas o código penal.
Veja os dados do seu bairro em Porto Alegre
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O RELÓGIO DO HOMICÍDIO: A CIDADE SILENCIOSA
O homicídio doloso na capital somou 142 casos em 2025. A curva horária é menos espalhada que a dos roubos:
- Pico entre 20h e 23h
- Queda durante o dia
- Segundo pico, mais sutil, entre 16h e 18h
O dado mais inquietante é o cruzamento com a cor da vítima. No Rio Grande do Sul, em 2025, às 03h da madrugada, 37,5% das vítimas de homicídio foram pessoas negras — quase o dobro da proporção demográfica do grupo no estado (21%). Às 10h da manhã, esse percentual cai para 14,8%.
O perfil da vítima de homicídio varia com o relógio — e não é por acaso. Os territórios urbanos onde a violência letal acontece na madrugada são os mesmos onde se concentra a população negra e periférica.
Na madrugada, 37,5% das vítimas de homicídio no RS são negras
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ONDE: O MAPA DE PORTO ALEGRE EM TRÊS CAMADAS
Somando os três tipos de crime, os bairros no topo do ranking em Porto Alegre em 2025 são:
| Bairro | Homicídios ▼ | Roubos pedestre | Lesões corporais |
|---|---|---|---|
| Lomba do Pinheiro | 11 | 35 | 272 |
| Restinga | 10 | 58 | 466 |
| Partenon | 9 | 112 | 227 |
| Santa Tereza | 7 | 28 | 216 |
| Rubem Berta | 7 | 59 | 158 |
| Centro Histórico | 3 | 495 | 290 |
| Sarandi | 3 | 68 | 147 |
| Mário Quintana | 3 | 42 | 169 |
O padrão é evidente. O Centro Histórico concentra o roubo a pedestre — o crime dos que circulam, do comércio, do fluxo diurno. A periferia — Restinga, Lomba, Santa Tereza, Rubem Berta — concentra o homicídio e a lesão corporal, os crimes da convivência e do conflito doméstico.
São duas geografias do medo morando na mesma cidade: uma sente a rua, a outra sente a casa.
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O QUE O RELÓGIO ENSINA
A leitura prática que esses três ciclos oferecem é que Porto Alegre não é insegura em bloco. Ela é insegura em frestas de horário que mudam de natureza a cada hora do dia:
- Antes das 9h: roubo a pedestre, vítima tende a ser mulher indo trabalhar, geografia é o trajeto até paradas e estações no Centro e bairros de passagem.
- Meio-dia ao fim de tarde: volume cai e se dispersa — conflitos interpessoais, trânsito, pequenos furtos.
- 18h-21h: novo pico de roubo a pedestre, perfil mais equilibrado, concentração no Centro e corredores de saída do trabalho.
- 21h-03h: muda a cena. A violência entra em casa (lesão corporal contra mulher) ou se concentra em territórios específicos da periferia (homicídio, com perfil de vítima marcadamente negro).
O efetivo policial, o iluminamento de ruas, o transporte público, as campanhas de denúncia e as casas de acolhimento operam como se a cidade fosse uma só. Os dados dizem que não é.
A resposta que funciona às 7 da manhã pra mulher no ponto de ônibus do Centro é uma política inteiramente diferente da que essa mesma mulher precisa às 23h dentro de casa na Restinga.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia e fontes
Fonte: registros individuais da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), publicados sob a Lei Estadual 15.610/2021. Os dados correspondem a todas as ocorrências registradas em Porto Alegre no ano de 2025, consolidados pelo Crime Brasil.
Tipos analisados: HOMICIDIO DOLOSO, ROUBO A PEDESTRE e LESAO CORPORAL. A hora do fato é extraída do campo hora_fato do boletim. O sexo e a cor da vítima seguem a padronização da SSP/RS (alinhada ao IBGE).
Exclusões: registros sem hora preenchida foram mantidos no agregado total, mas excluídos das séries horárias. Registros com sexo ou cor "Sem informação" foram excluídos dos recortes por gênero e raça.
Lesão corporal como proxy de violência doméstica: a base não distingue automaticamente violência doméstica de outros tipos de lesão corporal no campo de tipo de enquadramento. O uso de lesão corporal como proxy é convencional na literatura de segurança pública brasileira — validado pelo padrão horário e pela proporção de vítimas femininas na madrugada.
Dados de raça e hora (RS): os dados de proporção racial por hora (madrugada 03h: 37,5% negros; manhã 10h: 14,8%) referem-se ao estado do RS, não apenas a Porto Alegre, por necessidade de base estatística suficiente.
Período: 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2025.
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