Quando centenas de milhares de pessoas deixaram a região metropolitana de Porto Alegre em maio de 2024, uma pergunta surgiu nos noticiários e nas redes: o crime vai junto? A hipótese de que a criminalidade teria migrado para o litoral gaúcho circulou amplamente. Mas o que os dados mostram?

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O QUE ACONTECEU NA METRO
1.A região metropolitana registrou queda de 17% no inverno de 2024
Entre abril e agosto, o conjunto de municípios da metro caiu de 121 mil para 100 mil ocorrências, na comparação com o mesmo período de 2023. O impacto foi mais agudo em maio (-40%) e se atenuou nos meses seguintes.
O padrão é claro: maio de 2024 foi um vale profundo, e os registros foram se recuperando gradualmente até outubro, quando voltaram ao patamar de 2023. Isso é consistente com o que já mostramos na análise sobre Porto Alegre.
A queda na metro não é novidade. A questão é se esse crime reapareceu em outro lugar — especificamente, no litoral. Veja os dados de Porto Alegre e Canoas no mapa.
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E NO LITORAL?
Se o crime tivesse migrado para o litoral, esperaríamos ver um aumento nas ocorrências litorâneas exatamente no período em que a metro caiu. Aconteceu o oposto.
Por que comparar inverno com inverno? Porque o litoral gaúcho tem uma sazonalidade brutal. No verão, cidades como Capão da Canoa e Torres dobram ou triplicam de população — e de ocorrências. Comparar o inverno de 2024 com o verão de 2023 seria comparar alhos com bugalhos.
Quando a comparação é feita corretamente — inverno contra inverno — o litoral registrou queda de 10%. Menor do que a metro (-17%), mas ainda assim uma queda. O oposto do que a hipótese de deslocamento previa.
Veja os dados no mapa
Explore as ocorrências por município no litoral e na região metropolitana.
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TIPOS DE CRIME
A queda não foi uniforme entre os tipos de ocorrência. Crimes que dependem de presença física — roubos e furtos — caíram muito mais do que crimes digitais como estelionato.
| Categoria | Metro (variação) | Litoral (variação) |
|---|---|---|
| Roubos | -49% | -39% |
| Furtos | -28% | -16% |
| Ameaças | -14% | -11% |
| Lesão corporal | -7% | -7% |
| Estelionato | -3% | +4% |
| Tráfico | -35% | -15% |
2.Roubos caíram nas duas regiões — e estelionato mal se alterou em ambas
O padrão por tipo é semelhante na metro e no litoral: crimes de rua tiveram quedas expressivas, enquanto crimes que não exigem presença física ficaram praticamente estáveis. Não há sinal de que uma categoria específica tenha "migrado" de uma região para outra.
A queda de 39% nos roubos do litoral é especialmente relevante. Se criminosos da metro tivessem se deslocado para o litoral, roubos deveriam ter subido — não caído. O dado mais provável é que a retração reflete dinâmicas locais: menos circulação de pessoas e redução de atividade econômica no inverno pós-enchente.

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DESLOCAMENTO OU COINCIDÊNCIA?
A hipótese de que o crime migrou da região metropolitana para o litoral após as enchentes de 2024 não encontra sustentação nos dados de ocorrência policial. As duas regiões registraram queda no mesmo período, e os padrões por tipo de crime são paralelos, não opostos.
Isso não significa que nenhum criminoso tenha se deslocado. Significa que, se houve deslocamento individual, ele não foi grande o suficiente para aparecer nos agregados. O sinal nos dados aponta para uma queda generalizada — não para uma redistribuição geográfica.
Três ressalvas importantes:
- Registros não são crimes. A queda no litoral pode refletir menor disposição para registrar ocorrências durante a crise, não menos crime.
- Correlação não é causalidade. Duas quedas simultâneas não provam que têm a mesma causa.
- Bases pequenas amplificam ruído. O litoral registra cerca de 2 mil ocorrências por mês fora da temporada — variações de poucos pontos percentuais podem ser aleatórias.
O que podemos dizer com segurança: os dados disponíveis não confirmam a narrativa de migração do crime. Quem afirmou que o litoral ficou mais perigoso por causa das enchentes terá dificuldade em encontrar evidência nos registros policiais.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), registros individuais de boletins de ocorrência disponibilizados sob a Lei Estadual 15.610/2021.
Período: janeiro de 2023 a dezembro de 2025.
Região metropolitana: Porto Alegre, Canoas, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Gravataí, Viamão, Cachoeirinha, Alvorada, Esteio, Sapucaia do Sul, Eldorado do Sul e Guaíba.
Litoral norte: Capão da Canoa, Torres, Tramandaí, Osório, Imbé, Xangri-lá, Cidreira, Arroio do Sal, Balneário Pinhal e Terra de Areia.
Comparação sazonal: a análise principal compara o inverno de 2024 (abril a agosto) com o inverno de 2023, para controlar a forte sazonalidade turística do litoral. Comparações anuais ou entre estações diferentes distorceriam os resultados.
Agrupamento de categorias: roubos, furtos, estelionato, ameaças e violência doméstica, lesão corporal, tráfico e apreensões de drogas, outros.
Limitações: os dados representam exclusivamente crimes registrados em boletins de ocorrência. Subnotificação, mudanças na capacidade de registro e deslocamento populacional afetam os números. Esta é uma análise descritiva — não fazemos inferências causais.
Reprodutibilidade: os scripts de extração e os dados agregados estão disponíveis no repositório do projeto Crime Brasil. Extração realizada em 19 de março de 2026.
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Compare os padrões de criminalidade entre litoral e região metropolitana no Crime Brasil.