
Minas Gerais é um caso de manual em contradição. O estado comemorou no Carnaval de 2026 uma queda de 48% nos homicídios durante os dias de festa, zero estupros de vulnerável e zero feminicídios — números que viram manchete nacional. Mas quando você abre a série histórica completa, o retrato é mais incômodo.
Os assassinatos caíram, sim. Os roubos despencaram. Só que enquanto MG reduzia a violência letal, os registros de violência sexual foram na direção oposta.
01
A QUEDA DOS HOMICÍDIOS
Em 2019, Minas Gerais registrou 2.644 homicídios consumados. Em 2025, foram 2.204 — queda de 16,6% numa série que começou bem mais alta. O estado que chegou a ter mais de 5 mil mortes por ano em meados dos anos 2010 está, de fato, numa trajetória descendente.
O dado de 2024 quebra a narrativa limpa: o ano teve 2.635 homicídios — quase de volta ao nível de 2019. A queda em 2025 foi real, mas não é uma linha reta. MG oscila, não despenca.
1.2.204 homicídios em 2025 — mas 2024 foi quase tão letal quanto 2019
A redução entre 2023 e 2025 foi expressiva (-12%). Mas a sequência mostra claramente que MG não resolveu o problema — está gerenciando uma tendência que pode reverter. O Carnaval de 2026 com queda de 48% nos assassinatos é um bom sinal, mas seis dias de festa não fazem uma política de segurança.
O que explica a queda estrutural? Parte é a ausência de guerra de facções. O Comando Vermelho não tem presença consolidada em MG — um dos apenas cinco estados do país nessa situação. Sem disputa territorial de facção, os assassinatos por controle de boca de fumo simplesmente não chegam ao volume que vemos no RJ, no CE, ou no RS. A violência em MG é mais difusa e, em muitos casos, mais interpessoal.
| Ano | Homicídio consumado | Homicídio tentado | Total |
|---|---|---|---|
| 2019 | 2.644 | 2.855 | 5.499 |
| 2020 | 2.493 | 2.450 | 4.943 |
| 2021 | 2.285 | 2.297 | 4.582 |
| 2022 | 2.407 | 2.415 | 4.822 |
| 2023 | 2.515 | 2.295 | 4.810 |
| 2024 | 2.635 | 3.009 | 5.644 |
| 2025 | 2.204 | 2.223 | 4.427 |
O total de 2024 (5.644 contando consumados + tentados) foi o maior em toda a série — puxado por um salto nos tentados que chegou a 3.009. O que aconteceu em 2024 pra gerar esse pico? É a pergunta que os dados não respondem sozinhos.
Veja os dados de MG no mapa
Explore homicídios, roubos e violência sexual por município no Crime Brasil.
02
O PARADOXO: ESTUPROS BATEM RECORDE
Aqui é onde o retrato de MG fica incômodo. Enquanto os homicídios caíam, outra categoria de crime foi na direção oposta — e chegou ao maior número da série.
Em 2025, MG registrou 3.862 estupros de vulnerável consumados e mais 1.317 estupros consumados — total de 5.179 casos. Em 2019, eram 4.393. Crescimento de 18% no período em que os homicídios caíam.
O dado que mais pesa é a trajetória. 2020 teve queda — provavelmente subnotificação pelo isolamento da pandemia, quando vítimas ficaram presas com os agressores sem acesso a delegacias. De 2021 pra cá, é crescimento consistente ano a ano, chegando a 3.862 em 2025.
2.5.179 estupros consumados em 2025 — 2,3x mais do que os homicídios
Em Minas Gerais, para cada pessoa assassinada em 2025, mais de duas foram estupradas. E esses números são piso, não teto — a subnotificação de violência sexual é sistematicamente maior do que a de homicídio. O número real pode ser cinco, dez vezes maior.
Somando a série completa de 2019 a 2025, MG acumula 22.446 registros de estupro de vulnerável e 7.945 de estupro consumado — números que raramente aparecem no debate público sobre segurança no estado, dominado pela questão dos homicídios.
| Ano | Estupro consumado | Estupro de vulnerável | Total |
|---|---|---|---|
| 2019 | 1.230 | 3.163 | 4.393 |
| 2020 | 1.000 | 2.668 | 3.668 |
| 2021 | 1.007 | 2.938 | 3.945 |
| 2022 | 974 | 2.881 | 3.855 |
| 2023 | 1.108 | 3.334 | 4.442 |
| 2024 | 1.309 | 3.600 | 4.909 |
| 2025 | 1.317 | 3.862 | 5.179 |
Por que estupro cresce enquanto homicídio cai? Algumas hipóteses não excludentes: maior conscientização e encorajamento ao registro (Delegacias da Mulher, campanha "Não é Não"); melhora nos protocolos de acolhimento; e, provavelmente, crescimento real da violência. A resposta honesta é que ninguém sabe com certeza a proporção de cada fator — e isso em si é um problema.

03
ROUBO EM COLAPSO LIVRE
Se os homicídios caem devagar e os estupros sobem, os roubos estão em queda livre. De longe a maior categoria de crime em MG, os roubos consumados despencaram de 54.054 em 2019 para 13.206 em 2025 — uma redução de 75,6% em seis anos.
Essa queda não é pequena. É estrutural, consistente e acelerada. A série não teve nem um ano de alta entre 2019 e 2025 — cada ano foi menor do que o anterior.
A queda começa em 2020, o que sugere um componente pandêmico — menos circulação de pessoas, menos oportunidade para roubo de rua. Mas a trajetória continuou mesmo com a normalização pós-2022, o que indica que não é só isso. A menor circulação de dinheiro físico, a popularização do Pix, e possivelmente maior efetividade policial contribuem para manter o número baixo.
O que chama atenção é que em 2025 os roubos continuaram caindo mesmo com a economia acelerada — mais circulação de pessoas, mais consumo, menos roubo. Isso não é trivial.
04
BELO HORIZONTE: O PESO DA CAPITAL
Belo Horizonte concentra 27% de todos os crimes registrados em Minas Gerais em 2025. Uma cidade em um estado de 22 milhões de pessoas, responsável por mais de um quarto de toda a criminalidade estadual.
Mas BH não é só quantidade — é também concentração de tipos específicos. Em 2025, a capital registrou 5.102 roubos consumados (38% de todos os roubos do estado), 275 homicídios consumados (12,5% do total de MG), e 380 estupros de vulnerável.
3.BH: 275 homicídios consumados, 380 estupros de vulnerável — em uma única cidade
A concentração em BH é alta, mas não é desproporcional ao tamanho da cidade. O que chama atenção é o ranking interno: roubos lideram com folga (5.102 casos), enquanto extorsões aparecem na terceira posição (323) — acima dos homicídios tentados. É o perfil de uma cidade grande com criminalidade diversificada, não uma guerra de gangues.
O Carnaval de 2026 em BH virou notícia nacional. A Sejusp anunciou zero estupros de vulnerável e zero feminicídios durante os dias de festa, com queda de 48% nos homicídios. Os dados de fevereiro no banco confirmam o contexto: Minas Gerais registrou 191 homicídios em fev/2025 contra 184 em fev/2024 no total estadual — uma diferença modesta. Já em BH especificamente, foram 23 homicídios em fev/2025 contra 26 em fev/2024. O Carnaval pode ter produzido os números anunciados nos dias de festa, mas o contexto mensal não é tão dramático.
Explore Belo Horizonte no mapa
Veja os dados por município e compare BH com outras cidades de MG.
05
POR QUE MG É DIFERENTE
Minas Gerais tem um perfil de segurança pública que não se encaixa nas narrativas simples. O estado não é o Rio — sem guerra de facções pelo controle do tráfico. Não é o Ceará — sem explosão de violência por domínio do Comando Vermelho. Não é o RS — sem disputa territorial como a que transformou Porto Alegre nos últimos anos.
O Comando Vermelho, a maior organização criminosa do Brasil, está presente em 22 estados. MG é um dos apenas cinco onde essa presença não é confirmada. Isso não significa que não há crime organizado — significa que o modelo predominante é diferente: mais fragmentado, menos hierárquico, sem a violência disciplinar que as facções usam pra manter controle territorial.
Os 5 estados sem Comando Vermelho confirmado
Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Tocantins são os estados onde o Comando Vermelho não tem presença territorial consolidada, segundo levantamentos de segurança pública. Isso não significa que esses estados são necessariamente mais seguros — MG ainda tem mais de 2.000 homicídios por ano. Significa que a dinâmica de violência é diferente, menos vinculada a guerras de facções por pontos de venda.
Em abril de 2026, o governo de MG anunciou a adaptação de seis penitenciárias de segurança máxima para abrigar membros de organizações criminosas — uma mudança de abordagem que reconhece que o problema está chegando. A pergunta é se a infraestrutura vai mudar a dinâmica ou só concentrar o problema atrás das grades.
O debate na ALMG (Assembleia Legislativa de Minas Gerais) em abril de 2026 sobre crime rural acrescentou outra dimensão. MG é o maior estado produtor agropecuário do Sudeste, e o avanço do crime organizado no campo — roubo de gado, extorsão de produtores, controle de estradas vicinais — é um fenômeno crescente que os dados urbanos não capturam bem.
06
O QUE VEM POR AÍ
A trajetória dos dados aponta pra algumas tendências que valem acompanhar.
Os roubos vão continuar caindo? Provavelmente sim, enquanto o Pix continuar dominando e a circulação de dinheiro físico continuar caindo. Mas chegará um piso — o crime de rua não some, migra.
Os homicídios vão continuar oscilando? O pico de 2024 (2.635) foi uma surpresa numa tendência de queda. Em 2025 voltou para 2.204. Sem entender o que causou o pico, é impossível garantir que ele não se repita.
A violência sexual vai continuar crescendo? Esse é o dado mais preocupante. A série de 2019 a 2025 não mostrou nem um ano de queda real (exceto 2020, que provavelmente é subnotificação pandêmica). Crescimento de 18% nos registros de estupro num período de queda geral da violência é um sinal de que algo estrutural está acontecendo.
4.O paradoxo central: MG fica mais seguro nos indicadores que aparecem nos rankings — e piora nos que ficam invisíveis
Homicídio é manchete. Estupro de vulnerável raramente é. A política de segurança pública responde ao que vira manchete. Enquanto MG celebra queda de homicídios, 3.862 crianças e adolescentes foram vítimas de violência sexual consumada em 2025 — quase 11 por dia. Esse número precisa aparecer no debate com a mesma urgência.
Veja os dados completos de Minas Gerais no mapa interativo, incluindo a distribuição por município.
Explore o mapa completo
Compare municípios, filtre por tipo de crime e veja a evolução ano a ano em MG.
07
METODOLOGIA E FONTES
Metodologia, fonte, ressalvas e limites
Fonte dos dados: Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (SEJUSP/MG), registros de crimes violentos por município e mês. Dados disponibilizados via Anuário de Segurança Pública de MG e carregados no banco do Crime Brasil via pipeline mg_violent.
Período analisado: janeiro de 2019 a dezembro de 2025. Os dados de 2026 existem no banco mas são parciais (até março) e não foram usados nas comparações anuais.
Cobertura: MG é classificado como estado "parcial" no Crime Brasil — os dados cobrem apenas crimes violentos (homicídio, tentativa de homicídio, roubo, estupro, extorsão, sequestro, feminicídio). Crimes patrimoniais menores, furtos e crimes digitais não estão incluídos nesta fonte.
Feminicídio: os dados de feminicídio no banco aparecem apenas para 2025 e 2026. Não há ausência de feminicídios antes de 2025 — a categoria provavelmente não era reportada separadamente ou não estava disponível no formato carregado. Os totais (104 consumados e 166 tentados em 2025) devem ser tratados como referência, não série histórica.
Nota sobre Carnaval 2026: os dados de redução durante o Carnaval (homicídios -48%, roubo de celular -55,7%, zero estupros de vulnerável) foram anunciados pela SEJUSP/MG e amplamente divulgados na imprensa. Esses números referem-se aos dias específicos de festa e não ao mês completo de fevereiro — por isso não coincidem exatamente com os dados mensais do banco.
Subnotificação: violência sexual é sistematicamente subnotificada no Brasil — estimativas conservadoras indicam que apenas 10-20% dos casos chegam a registro policial. Os números desta análise representam o piso dos registros formais, não a prevalência real do crime.
Sobre Comando Vermelho: a informação sobre ausência do CV em MG é baseada em relatórios públicos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e reportagens de 2024-2025. A situação pode ter mudado — crime organizado não anuncia expansão territorial.
Reprodutibilidade: todos os números deste artigo foram extraídos diretamente do banco crimes_staging do Crime Brasil, filtrados por state = 'MG'. Extração realizada em 12 de abril de 2026.