
Em março de 2019, dois ex-alunos invadiram a Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo. Cinco estudantes e dois funcionários foram mortos. O Brasil parou.
Mas o que ninguém sabia ainda é que Suzano não era um episódio isolado. Era o início de uma nova fase.
Nos 17 anos anteriores, de 2001 a 2018, o Brasil tinha registrado 10 ataques graves em escolas. Nos 7 anos seguintes — de 2019 a 2025 —, foram 37. Quase quatro vezes mais, em menos da metade do tempo.
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OS NÚMEROS: UMA ACELERAÇÃO SEM PRECEDENTE
O levantamento mais recente, feito pelo MEC e divulgado em abril de 2026, contabiliza 47 ataques de violência extrema em escolas brasileiras entre 2001 e 2025. Resultado: 56 mortos e 121 feridos.
O contraste é brutal: em 17 anos, 10 casos. Em 7, quase quatro vezes mais. A taxa de ataques por ano foi de 0,6 entre 2001 e 2018. A partir de 2019, passou para 5,3 — um aumento de 8 vezes.
Os anos de maior concentração foram 2022 e 2023. Só nesses dois anos, foram 22 episódios — mais do que nos 20 anos anteriores combinados.
A queda de 2024 em relação a 2023 não é necessariamente sinal de reversão. Outros indicadores — como ameaças online e grupos de incitação — continuaram crescendo no mesmo período.
1.O pico foi 2023 — mas o pipeline online continua cheio
Em 2023, 15 ataques em 12 meses. Em 2024, 5. A redução nos ataques físicos coincidiu com o aumento das operações policiais de monitoramento de grupos online. Mas as ameaças nas redes continuaram crescendo. O funil estreitou — o volume que entra nele, não.
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O QUE MUDOU: A INTERNET COMO COMBUSTÍVEL
A pergunta que mais importa não é "quantos ataques?" — é "por que agora?"
A resposta está nas redes. Não é coincidência que a aceleração dos ataques físicos acompanhe, com algum atraso, o crescimento de comunidades online de incitação. Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública rastreou postagens com ameaças a escolas em redes sociais entre 2021 e 2024.
Em 2021, eram 44 mil menções. Em 2024, 105 mil — alta de 360% em três anos. E o que antes estava escondido está ficando mais visível: em 2023, 90% dessas ameaças circulavam exclusivamente na deep web. Em 2025, essa proporção caiu para 78%. Um em cada cinco conteúdos de incitação já está na internet aberta, sem filtro.
Mas o número que mais preocupa pesquisadores não é o volume de ameaças. É a mudança de tom.
Em 2011, durante o ataque à Escola Municipal Tasso da Silveira, no Realengo (RJ), apenas 0,2% dos comentários online tinham tom de glorificação ao autor. Em 2025, esse número chegou a 21%. Quase um em cada cinco comentários trata o agressor como herói ou figura a ser imitada.
2.Glorificação: de 0,2% para 21% em 14 anos
O ataque físico dura minutos. O ciclo de glorificação que se forma depois pode durar meses — e recrutar o próximo agressor. Pesquisadores identificam esse padrão como o principal mecanismo de contágio: não é o método que é imitado, é o status percebido.
Os autores dos ataques recentes têm um perfil comum: participavam de comunidades em Discord, X, Telegram e TikTok, em subculturas conhecidas como TCC (True Crime Community) e grupos de incitação específicos. Em muitos casos, compartilhavam planos antes de agir — e outros membros do grupo sabiam.
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QUEM SÃO AS VÍTIMAS — E QUEM ATACA
Dos 56 mortos registrados entre 2001 e 2025, 77% foram por arma de fogo. As demais mortes foram por arma branca — facas, facões, machetes.
O perfil das vítimas fatais contraria a imagem do agressor mirando qualquer um. As principais vítimas são meninas e professoras. Não é aleatório: em vários casos documentados, o agressor escolhia alvos específicos ligados a rejeição afetiva ou figuras de autoridade feminina.
Em abril de 2025, uma professora de inglês foi esfaqueada pelas costas por três adolescentes — dois meninos e uma menina, entre 13 e 15 anos — enquanto entrava em sala de aula na Escola Estadual João de Zorzi, em Caxias do Sul (RS). Sobreviveu. Os três foram apreendidos no mesmo dia.
O caso de Caxias não é exceção no padrão recente: arma branca, autores adolescentes, vítima professora. E escola pública — 30 das 36 escolas afetadas entre 2002 e 2023 eram da rede pública.
3.Escola pública concentra 83% dos casos
Das escolas atingidas por ataques entre 2002 e 2023, 30 eram públicas e 6 eram privadas. Não é só uma questão de segurança física — é uma questão de suporte psicossocial. Escolas públicas têm menos acesso a psicólogos, assistentes sociais e programas de prevenção.
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O QUE ESTÁ SENDO FEITO — E O QUE FALTA
Em abril de 2026, o MEC abriu período de adesão ao programa Escola que Protege, voltado à prevenção e resposta a violência extrema. É a resposta institucional mais abrangente desde Suzano.
Mas os dados mostram o tamanho do problema a enfrentar.
Apenas 4% das escolas brasileiras têm algum profissional de saúde ou segurança atuando no campus — bombeiro, enfermeiro, técnico de emergência. Outros 40% dos estudantes já sofreram bullying, mas só 37% das escolas realizam ações de prevenção.
Em 2023, 12,6% das escolas do Brasil — 16.506 unidades — relataram ter sofrido ameaça ou tentativa de ataque nos 12 meses anteriores. Um em cada oito. E o calendário escolar já sente os efeitos: interrupções de aulas por episódios de violência cresceram 245,6% entre 2021 e 2023, afetando 2.182 escolas.
O que os dados sugerem é que o problema chegou antes da estrutura de resposta. A escola brasileira foi pega no contramão — sem protocolos, sem profissionais, e com 16 mil unidades já na mira.
4.1 em cada 8 escolas foi ameaçada em 2023 — 96% sem estrutura de resposta
16.506 escolas relataram ameaça ou tentativa de ataque. Apenas 4% do total têm profissionais de saúde ou segurança. A distância entre a dimensão do problema e a capacidade de resposta instalada é o dado mais preocupante de todo o levantamento.
O padrão dos últimos sete anos é claro: os ataques físicos são a última etapa de um processo que começa online, passa por comunidades de glorificação, e termina numa escola despreparada. Combater o fenômeno só na ponta — com câmeras e guaritas — é tratar o sintoma sem tocar na causa.
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metodologia e limites
Fontes e metodologia
Os dados sobre ataques graves em escolas são do relatório Ataque às Escolas no Brasil: Análise do Fenômeno (MEC/GT Prevenção, 2026), do levantamento do IBCCRIM (2024, cobrindo 2001–2024), e do relatório D3E (atualizado em maio de 2025). As fontes divergem em até 5 casos dependendo da definição de "ataque grave" — utilizamos como base os dados do MEC (47 ataques, 2001–2025).
Os dados de ameaças online são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2024). Os dados de glorificação são do mesmo levantamento do FBSP, cobrindo comentários públicos monitorados entre 2011 e 2025.
O dado de escolas ameaçadas (16.506) é do levantamento FBSP de julho de 2023, aplicado a uma amostra representativa de escolas brasileiras.
Os dados de vítimas e perfil de autores são do relatório MEC (2026) e do estudo IBCCRIM (2024).
Limitação importante: os registros de ataques cobrem apenas episódios que chegaram ao conhecimento público e foram formalmente documentados. Episódios menores ou encerrados antes de chegar a noticiário nacional podem estar subcontabilizados.