A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP/SP) é a fonte oficial dos registros de ocorrência do estado. Quem precisa desses dados — jornalista cobrindo um bairro específico, pesquisador comparando municípios, órgão público checando uma série histórica — esbarra sempre nas mesmas três perguntas: desde quando a série existe, com que atraso ela chega e o que exatamente está catalogado. Este guia responde às três com números reais, verificados por consulta direta à base que sustenta o Crime Brasil.
A resposta curta: a série útil começa em janeiro de 2018, o mês mais recente com dado completo fica hoje (14/07/2026) cerca de dois meses e meio atrás, e a cobertura geográfica é ampla — mas o campo de bairro é texto livre, não uma lista fixa, o que muda como ele deve ser lido.
De onde vêm os dados
A SSP/SP disponibiliza dois conjuntos que se complementam. O primeiro é um lote histórico de boletins de ocorrência individuais, referente a 2018–2021, que se tornou público por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e hoje circula em formato de dados abertos. O segundo é a base corrente do portal de transparência da própria SSP/SP, com dados de 2022 em diante, atualizada mensalmente.
Os dois conjuntos usam esquemas de campo compatíveis — mesma estrutura de tipo de ocorrência, município, bairro e data — o que permite tratá-los como uma série contínua desde 2018. É a série mais longa entre os cinco estados deste guia.
O que dá para consultar
A tabela abaixo resume a cobertura real, medida por consulta direta à base — não estimativa.
| Item | São Paulo (SSP/SP) |
|---|---|
| Série início | Jan/2018 (lote LAI) — usável de forma contínua |
| Última atualização completa | Abr/2026 (mai/2026 aparece só como amostra isolada, ainda em ingestão) |
| Defasagem observada | Cerca de 2,5 meses em relação a hoje |
| Granularidade | Município (quase 700 nomes distintos) + bairro em texto livre (98% das linhas) |
| Tipos de crime catalogados | 265 subtipos, em 40 grupos maiores |
| Volume da série | Cerca de 9,46 milhões de registros válidos |
O ponto que mais surpreende quem espera uma lista fechada de bairros: o campo de bairro em São Paulo é texto livre digitado por quem registra a ocorrência, não um código de um cadastro oficial. Isso explica por que a contagem bruta de valores distintos de bairro no estado passa de 60 mil — muito mais do que os 96 bairros oficiais da prefeitura da capital ou qualquer lista município a município somada. Não são 60 mil lugares diferentes; são variações de grafia, abreviação e digitação do mesmo conjunto real de bairros.
Isso não invalida o dado — ele ainda permite localizar a imensa maioria das ocorrências em um bairro específico, com 98% de preenchimento — mas significa que qualquer comparação "bairro a bairro" precisa de normalização de texto antes de virar número confiável, e nomes muito parecidos (ou digitados de forma diferente em anos diferentes) podem não bater automaticamente.
O mesmo vale para município: quase 700 nomes distintos aparecem na base, cerca de 45 a mais que os 645 municípios oficiais do estado. A diferença é explicada por pequenas variações de grafia entre o lote histórico (LAI) e a base atual do portal — não por dados de fora de São Paulo.
Cuidados na leitura
Registro policial mede o que chegou à delegacia, não a criminalidade real — subnotificação existe, principalmente em crimes contra a pessoa que a vítima às vezes não formaliza. Isso vale para qualquer base de ocorrência policial, não é peculiaridade paulista.
A defasagem de cerca de dois meses e meio significa que qualquer manchete sobre "o mês passado" precisa checar se o mês em questão já tem dado completo publicado — o mês corrente e o anterior quase sempre ainda estão incompletos no momento da consulta.
Comparações entre 2018–2021 (lote LAI) e 2022 em diante (portal) são estruturalmente válidas, mas mudanças no processo de registro entre os dois períodos podem introduzir descontinuidades que não refletem mudança real na criminalidade — vale checar o comportamento da série ao redor da virada 2021→2022 antes de tirar conclusões fortes desse ponto específico.
Quando os dados públicos não bastam
Este guia cobre o que está disponível nos canais oficiais e no que sustenta o Crime Brasil. Para recortes mais finos — cruzamento por faixa etária e tipo de crime num único bairro, séries customizadas por período específico, ou comparações entre municípios com controle estatístico — a Crime Brasil também produz relatórios personalizados sob encomenda.
fontes e consultas usadas neste guia
Todos os números acima vêm de consulta direta à base que sustenta o Crime Brasil, rodada em 14/07/2026:
- Série e volume:
MIN/MAX/COUNTde mês-ano válido (padrãoAAAA-MM, 2018–2026), excluindo cerca de 15,3 mil linhas (0,16% do total) com erro de digitação de ano no campo de data original. - Municípios e bairros: contagem de nomes distintos (com e sem normalização de texto), incluindo percentual de linhas com bairro preenchido.
- Tipos de crime: contagem de valores distintos de tipo de ocorrência e de grupo de ocorrência.
- Últimos meses: contagem de registros por mês para os últimos nove meses, para identificar o corte real entre "completo" e "em ingestão".
Como em qualquer base de ocorrência policial, os números refletem registros administrativos, não a totalidade dos eventos criminais ocorridos.