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Roraima: o pior estado do Brasil em violência — do macro ao micro

Por Crime Brasil·Metodologia

Verificado em 20 de maio de 2026

Roraima saltou da 7ª pra 1ª posição no ranking nacional de estupro em sete anos. A taxa quase triplicou: 34 para 91 casos por 100 mil habitantes. E não é só estupro — o estado aparece no top-5 de quase todo crime grave. Análise do macro ao micro com dados SINESP e DataSUS.

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#1 em estupro no Brasil
90,8/100k
Roraima registrou 578 estupros em 2022 — taxa de 90,8 por 100 mil habitantes. É a maior do país, 27% acima do segundo colocado (Mato Grosso do Sul, 71,5).
Lavrado de Roraima — savana com montanhas baixas ao fundo, sul da Serra do Tucano
Lavrado de Roraima — a paisagem do estado menos visto e mais violento do Brasil
Foto: Tadeu Jnr / Unsplash

Quando se pergunta qual é o estado mais violento do Brasil, a resposta automática é uma capital do Nordeste, ou o Rio. Quase ninguém aponta Roraima.

E faz sentido: é um estado pequeno, distante, com 636 mil habitantes — menos do que Caxias do Sul. Aparece pouco na imprensa nacional. Os números absolutos são modestos.

Mas quando o cálculo passa a ser por 100 mil habitantes, o quadro vira. Roraima lidera o ranking nacional de estupro pelo segundo ano consecutivo. E não foi um caso isolado: a subida vem desde 2015, sustentada, em todos os anos. O estado também aparece no top-5 do país em latrocínio, tentativa de homicídio e lesão corporal seguida de morte.

Este artigo vai do macro ao micro com os números oficiais.

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01

O DADO QUE COLOCA RORAIMA NO TOPO

Em 2022, Roraima registrou 578 estupros junto à Polícia Civil. Sobre uma população de 636.707 habitantes (IBGE Censo 2022), a taxa fica em 90,8 casos por 100 mil pessoas.

Isso é mais do que qualquer outro estado do Brasil. E não é uma vitória apertada.

A diferença pro segundo colocado é grande. Mato Grosso do Sul ficou em 71,5 — quase 20 pontos abaixo. E nenhum estado do Sudeste ou do Nordeste aparece no top-10: o ranking é todo dominado pelo Norte e Centro-Oeste.

Pra ter referência: a média nacional ponderada por população em 2022 ficou em torno de 33 casos por 100 mil habitantes. Roraima registra quase o triplo disso.

Vale uma observação metodológica antes de seguir. O dado é de ocorrência registrada — quem chegou na delegacia. Estados com cultura de denúncia mais forte podem aparecer artificialmente piores. Isso é um problema real do indicador, e há gente séria que argumenta que parte da liderança de RR pode refletir mais notificação, não mais crime. Mas a tendência de crescimento (próxima seção) é robusta: o estado não estava no topo até 2020, e chegou lá rapidamente. Mudança cultural de denúncia em sete anos é improvável nessa magnitude.

02

SETE ANOS DE ESCALADA — DE #7 A #1

A foto de 2022 esconde o filme. Roraima não foi sempre o pior. O estado escalou o ranking de forma quase linear desde 2015.

Em números absolutos a curva mais que dobrou: de 218 casos em 2015 pra 578 em 2022. Na taxa por habitante, saiu de 34,2/100k pra 90,8/100k — alta de 165% em sete anos.

A posição no ranking nacional acompanhou:

AnoPosição RRTaxa RR (/100k)#1 do Brasil naquele ano
20157º34,2Mato Grosso do Sul (56,9)
20167º40,5Mato Grosso do Sul (61,1)
20174º49,2Mato Grosso do Sul (65,6)
20189º35,3Mato Grosso do Sul (65,9)
20199º40,8Rondônia (69,1)
20202º53,6Mato Grosso do Sul (57,2)
20211º72,2Roraima
20221º90,8Roraima

O ano de virada foi 2020. Em 2018 e 2019, RR oscilou na nona posição. Em 2020 já era #2. Em 2021 ultrapassou MS pela primeira vez. Em 2022, alargou a diferença.

Coincide com o período de intensificação da crise migratória venezuelana — a Operação Acolhida está em curso em Pacaraima desde 2018, e o pico de fluxo de migrantes coincide com 2020–2022. Não é prova de causalidade, mas é contexto que qualquer análise séria precisa registrar.

1.Roraima foi de #7 a #1 em sete anos — alta de 165% na taxa

Em 2015, Roraima registrava 34,2 estupros por 100 mil habitantes e ocupava a 7ª posição nacional. Em 2022, a taxa chegou a 90,8/100k e o estado liderava o ranking pelo segundo ano consecutivo. Nenhum outro estado teve crescimento comparável no período. O salto começou por volta de 2020, durante o pico do fluxo migratório venezuelano pela fronteira de Pacaraima.

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03

O PADRÃO MAIS AMPLO: RR NO TOP-5 DE QUASE TUDO

Se fosse só estupro, daria pra atribuir ao ambiente específico da fronteira — exploração sexual, tráfico de pessoas, vulnerabilidade migrante. Mas a posição de Roraima no ranking nacional é parecida em quase todo crime grave medido pelo SINESP.

Em tentativa de homicídio, RR ficou em 4º com 27,5/100k — atrás só de Espírito Santo, Rondônia e Acre. Em lesão corporal seguida de morte, também 4º. Em latrocínio, 5º.

Em homicídio doloso a posição é menos extrema: 11º lugar, com 25,9 mortes por 100 mil. Mas isso ainda está acima da média nacional, e bem acima de estados como São Paulo (~9/100k em 2022) ou Santa Catarina (~10/100k).

Tem dois indicadores em que RR não aparece no topo: roubo a instituição financeira (0 casos em 2022) e roubo de carga (também 0). Isso reflete mais a estrutura econômica do estado — pouca rota de carga, poucas agências bancárias urbanas — do que segurança.

A leitura combinada é importante. Em crimes contra a pessoa (estupro, tentativa de homicídio, lesão grave), Roraima é dos piores estados do Brasil. Em crimes patrimoniais de alto valor (carga, banco), praticamente não há ocorrência. O perfil de violência do estado é interpessoal e direto — não é violência ligada a quadrilhas organizadas de assalto a grandes alvos.

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04

MICRO: BOA VISTA CONCENTRA QUASE 60% DAS MORTES

O SINESP só vai até o nível UF. Pra olhar dentro de Roraima, é preciso ir pra outra fonte: o DataSUS, sistema do Ministério da Saúde que registra todos os óbitos por causa externa (homicídio, suicídio, acidente) por município de ocorrência.

Os dados de 2020 a 2024 do DataSUS/RR mostram a distribuição das mortes violentas dentro do estado.

Boa Vista, sozinha, registrou 1.684 óbitos por causa externa no período — cerca de 56% do total de 2.998 mortes do estado inteiro. O peso é desproporcional mesmo considerando que a capital concentra dois terços da população (cerca de 437 mil dos 636 mil habitantes do estado).

Alto Alegre, ao norte da capital, aparece em segundo com 297 óbitos. É um município pequeno (em torno de 17 mil habitantes), com presença significativa de territórios indígenas yanomami, e historicamente afetado por garimpo ilegal e conflito fundiário.

Os cinco municípios seguintes — Mucajaí, Caracaraí, Rorainópolis, Amajari e Cantá — concentram juntos 669 óbitos. Todos ficam ao longo da BR-174, a rodovia que corta o estado de norte a sul e funciona como espinha dorsal econômica e migratória de Roraima. É nesse corredor que migrantes venezuelanos se distribuem depois de entrar pela fronteira; é nele que circula o tráfego de carga, gado e garimpo.

Pacaraima — o município de fronteira com a Venezuela e porta de entrada da maior parte do fluxo migratório — registrou apenas 40 óbitos por causa externa no período, ficando em 12º lugar entre os 15 municípios do estado. Sobre uma população de cerca de 17 mil habitantes, a taxa fica em aproximadamente 235 mortes por 100 mil habitantes ao longo dos cinco anos. O dado merece atenção: a fronteira é o ponto de entrada, mas a violência e a mortalidade se distribuem pelo interior do estado, com Boa Vista como destino final do fluxo populacional e a BR-174 como vetor.

Uma observação metodológica: o DataSUS captura óbito, não crime registrado. Os números acima incluem homicídios, suicídios, acidentes de trânsito e mortes violentas indeterminadas. A leitura é mais ampla do que apenas crime — é a totalidade de mortes não-naturais.

05

POR QUE NINGUÉM OLHA — E POR QUE DEVERIA

Roraima sai pouco da pauta nacional. Os motivos são estruturais.

É o estado mais distante de qualquer grande centro brasileiro. Tem o segundo menor PIB estadual. Tem o segundo menor eleitorado. Não recebe atenção midiática proporcional à intensidade do que acontece lá. Quando entra no noticiário, é por garimpo ilegal em terras indígenas, ou crise migratória, ou conflito na fronteira — raramente por segurança pública strictu sensu.

E essa invisibilidade tem custo. Política pública dirigida ao estado costuma ser pontual (Operação Acolhida, intervenções em terras Yanomami) e raramente integrada a uma estratégia de segurança que considere o estado inteiro. Capacidade institucional da Polícia Civil de RR é proporcional ao seu tamanho — pequena. A perícia tem fila. O sistema prisional opera acima da capacidade. Para um estado que lidera o ranking nacional de estupro, isso é desproporcional.

Os dados deste artigo são os oficiais do Ministério da Justiça (SINESP) e do Ministério da Saúde (DataSUS). Estão disponíveis publicamente. Mas a comparação por 100 mil habitantes, que é o que torna o quadro de Roraima visível, raramente é feita em coberturas nacionais.

Vale registrar uma limitação. A série SINESP termina em 2022. Os dados mais recentes ainda não foram absorvidos no banco analítico do Crime Brasil. É possível que 2023 ou 2024 mostrem reversão da tendência — ou aceleração. Sem dados, é especulação. Vale acompanhar.

2.O estado de menor visibilidade do Brasil tem os piores indicadores de violência interpessoal

Roraima é o segundo estado menos populoso (636 mil hab.), o mais distante geograficamente, o segundo menor PIB. Em compensação, tem a maior taxa de estupro do país, está no top-5 em tentativa de homicídio, latrocínio e lesão corporal seguida de morte. A discrepância entre relevância política/midiática e gravidade dos números é o que torna o caso especialmente preocupante — porque não há pressão pública proporcional ao tamanho do problema.

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metodologia e limites

Metodologia e fontes

Fonte primária para ranking nacional (seções 1–3):

  • SINESP — Indicadores de UF (Ministério da Justiça e Segurança Pública). Tabela app.sinesp_indic_uf_ocorrencias no banco PostgreSQL do Crime Brasil. Cobertura: 27 UFs, série 2015–2022 (mensal), por tipo de crime. Os tipos disponíveis nesse dataset são: estupro, furto de veículo, homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte, roubo a instituição financeira, roubo de carga, roubo de veículo, roubo seguido de morte (latrocínio), tentativa de homicídio.

  • Taxas por 100 mil habitantes: calculadas como (ocorrências × 100.000) / população. Populações usadas: IBGE Censo 2022 (Roraima: 636.707; Mato Grosso do Sul: 2.757.013; Acre: 830.018; demais estados conforme population.json do Crime Brasil).

  • Ranking nacional: ordenação decrescente da taxa por estado, somando ocorrências de janeiro a dezembro de cada ano. Para anos anteriores a 2022, a população usada foi a do Censo 2022 (não houve correção retrospectiva — o efeito sobre o ranking é desprezível para a maior parte do período).

Fonte primária para distribuição municipal dentro de RR (seção 4):

  • DataSUS — Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Tabela app.datasus_sim_new_rr no banco do Crime Brasil. Cobertura: 13.944 óbitos em Roraima, 2000–2024.

  • Causas consideradas: óbitos por causa externa (capítulos V, W, X, Y da CID-10). Inclui agressões (X85–Y09), acidentes (V, W), suicídios e mortes violentas indeterminadas.

  • Município de ocorrência: campo codmunocor do SIM. Códigos IBGE de 6 dígitos (alguns registros aparecem com padding/espaço — o número total considera todas as variantes do mesmo município).

Limitações:

  1. SINESP é registro de ocorrência policial. Reflete crime denunciado, não necessariamente crime ocorrido. Estados com cultura de denúncia mais forte aparecem artificialmente piores.

  2. A série SINESP termina em 2022. Dados mais recentes (2023, 2024) não estão no levantamento. A reversão ou aceleração da tendência pós-2022 é desconhecida no momento desta análise.

  3. DataSUS captura óbito por causa externa, não crime. Os números da seção 4 incluem homicídios, mas também acidentes, suicídios e mortes indeterminadas. A leitura é de mortalidade violenta, não de crime stricto sensu.

  4. A correlação temporal entre o salto de Roraima no ranking (2020 em diante) e a crise migratória venezuelana é mencionada como contexto, não como causalidade. A análise causal precisa de estudos demográficos mais finos do que este levantamento.

  5. Roraima é o segundo estado menos populoso do Brasil. Taxas por 100 mil podem ser sensíveis a oscilações de baixa magnitude absoluta — mas a tendência sustentada (sete anos, sempre subindo) reduz essa fragilidade.

Verificação: todos os números foram consultados diretamente no banco PostgreSQL do Crime Brasil em 20/05/2026, contra as tabelas app.sinesp_indic_uf_ocorrencias e app.datasus_sim_new_rr.

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. Roraima: o pior estado do Brasil em violência — do macro ao micro. Disponível em: <https://crimebrasil.com.br/analises/roraima-pior-estado-violencia-brasil>. Acesso em: 5 out. 2026.

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