
Quando se pergunta qual é o estado mais violento do Brasil, a resposta automática é uma capital do Nordeste, ou o Rio. Quase ninguém aponta Roraima.
E faz sentido: é um estado pequeno, distante, com 636 mil habitantes — menos do que Caxias do Sul. Aparece pouco na imprensa nacional. Os números absolutos são modestos.
Mas quando o cálculo passa a ser por 100 mil habitantes, o quadro vira. Roraima lidera o ranking nacional de estupro pelo segundo ano consecutivo. E não foi um caso isolado: a subida vem desde 2015, sustentada, em todos os anos. O estado também aparece no top-5 do país em latrocínio, tentativa de homicídio e lesão corporal seguida de morte.
Este artigo vai do macro ao micro com os números oficiais.
01
O DADO QUE COLOCA RORAIMA NO TOPO
Em 2022, Roraima registrou 578 estupros junto à Polícia Civil. Sobre uma população de 636.707 habitantes (IBGE Censo 2022), a taxa fica em 90,8 casos por 100 mil pessoas.
Isso é mais do que qualquer outro estado do Brasil. E não é uma vitória apertada.
A diferença pro segundo colocado é grande. Mato Grosso do Sul ficou em 71,5 — quase 20 pontos abaixo. E nenhum estado do Sudeste ou do Nordeste aparece no top-10: o ranking é todo dominado pelo Norte e Centro-Oeste.
Pra ter referência: a média nacional ponderada por população em 2022 ficou em torno de 33 casos por 100 mil habitantes. Roraima registra quase o triplo disso.
Vale uma observação metodológica antes de seguir. O dado é de ocorrência registrada — quem chegou na delegacia. Estados com cultura de denúncia mais forte podem aparecer artificialmente piores. Isso é um problema real do indicador, e há gente séria que argumenta que parte da liderança de RR pode refletir mais notificação, não mais crime. Mas a tendência de crescimento (próxima seção) é robusta: o estado não estava no topo até 2020, e chegou lá rapidamente. Mudança cultural de denúncia em sete anos é improvável nessa magnitude.
02
SETE ANOS DE ESCALADA — DE #7 A #1
A foto de 2022 esconde o filme. Roraima não foi sempre o pior. O estado escalou o ranking de forma quase linear desde 2015.
Em números absolutos a curva mais que dobrou: de 218 casos em 2015 pra 578 em 2022. Na taxa por habitante, saiu de 34,2/100k pra 90,8/100k — alta de 165% em sete anos.
A posição no ranking nacional acompanhou:
| Ano | Posição RR | Taxa RR (/100k) | #1 do Brasil naquele ano |
|---|---|---|---|
| 2015 | 7º | 34,2 | Mato Grosso do Sul (56,9) |
| 2016 | 7º | 40,5 | Mato Grosso do Sul (61,1) |
| 2017 | 4º | 49,2 | Mato Grosso do Sul (65,6) |
| 2018 | 9º | 35,3 | Mato Grosso do Sul (65,9) |
| 2019 | 9º | 40,8 | Rondônia (69,1) |
| 2020 | 2º | 53,6 | Mato Grosso do Sul (57,2) |
| 2021 | 1º | 72,2 | Roraima |
| 2022 | 1º | 90,8 | Roraima |
O ano de virada foi 2020. Em 2018 e 2019, RR oscilou na nona posição. Em 2020 já era #2. Em 2021 ultrapassou MS pela primeira vez. Em 2022, alargou a diferença.
Coincide com o período de intensificação da crise migratória venezuelana — a Operação Acolhida está em curso em Pacaraima desde 2018, e o pico de fluxo de migrantes coincide com 2020–2022. Não é prova de causalidade, mas é contexto que qualquer análise séria precisa registrar.
1.Roraima foi de #7 a #1 em sete anos — alta de 165% na taxa
Em 2015, Roraima registrava 34,2 estupros por 100 mil habitantes e ocupava a 7ª posição nacional. Em 2022, a taxa chegou a 90,8/100k e o estado liderava o ranking pelo segundo ano consecutivo. Nenhum outro estado teve crescimento comparável no período. O salto começou por volta de 2020, durante o pico do fluxo migratório venezuelano pela fronteira de Pacaraima.
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03
O PADRÃO MAIS AMPLO: RR NO TOP-5 DE QUASE TUDO
Se fosse só estupro, daria pra atribuir ao ambiente específico da fronteira — exploração sexual, tráfico de pessoas, vulnerabilidade migrante. Mas a posição de Roraima no ranking nacional é parecida em quase todo crime grave medido pelo SINESP.
Em tentativa de homicídio, RR ficou em 4º com 27,5/100k — atrás só de Espírito Santo, Rondônia e Acre. Em lesão corporal seguida de morte, também 4º. Em latrocínio, 5º.
Em homicídio doloso a posição é menos extrema: 11º lugar, com 25,9 mortes por 100 mil. Mas isso ainda está acima da média nacional, e bem acima de estados como São Paulo (~9/100k em 2022) ou Santa Catarina (~10/100k).
Tem dois indicadores em que RR não aparece no topo: roubo a instituição financeira (0 casos em 2022) e roubo de carga (também 0). Isso reflete mais a estrutura econômica do estado — pouca rota de carga, poucas agências bancárias urbanas — do que segurança.
A leitura combinada é importante. Em crimes contra a pessoa (estupro, tentativa de homicídio, lesão grave), Roraima é dos piores estados do Brasil. Em crimes patrimoniais de alto valor (carga, banco), praticamente não há ocorrência. O perfil de violência do estado é interpessoal e direto — não é violência ligada a quadrilhas organizadas de assalto a grandes alvos.
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04
MICRO: BOA VISTA CONCENTRA QUASE 60% DAS MORTES
O SINESP só vai até o nível UF. Pra olhar dentro de Roraima, é preciso ir pra outra fonte: o DataSUS, sistema do Ministério da Saúde que registra todos os óbitos por causa externa (homicídio, suicídio, acidente) por município de ocorrência.
Os dados de 2020 a 2024 do DataSUS/RR mostram a distribuição das mortes violentas dentro do estado.
Boa Vista, sozinha, registrou 1.684 óbitos por causa externa no período — cerca de 56% do total de 2.998 mortes do estado inteiro. O peso é desproporcional mesmo considerando que a capital concentra dois terços da população (cerca de 437 mil dos 636 mil habitantes do estado).
Alto Alegre, ao norte da capital, aparece em segundo com 297 óbitos. É um município pequeno (em torno de 17 mil habitantes), com presença significativa de territórios indígenas yanomami, e historicamente afetado por garimpo ilegal e conflito fundiário.
Os cinco municípios seguintes — Mucajaí, Caracaraí, Rorainópolis, Amajari e Cantá — concentram juntos 669 óbitos. Todos ficam ao longo da BR-174, a rodovia que corta o estado de norte a sul e funciona como espinha dorsal econômica e migratória de Roraima. É nesse corredor que migrantes venezuelanos se distribuem depois de entrar pela fronteira; é nele que circula o tráfego de carga, gado e garimpo.
Pacaraima — o município de fronteira com a Venezuela e porta de entrada da maior parte do fluxo migratório — registrou apenas 40 óbitos por causa externa no período, ficando em 12º lugar entre os 15 municípios do estado. Sobre uma população de cerca de 17 mil habitantes, a taxa fica em aproximadamente 235 mortes por 100 mil habitantes ao longo dos cinco anos. O dado merece atenção: a fronteira é o ponto de entrada, mas a violência e a mortalidade se distribuem pelo interior do estado, com Boa Vista como destino final do fluxo populacional e a BR-174 como vetor.
Uma observação metodológica: o DataSUS captura óbito, não crime registrado. Os números acima incluem homicídios, suicídios, acidentes de trânsito e mortes violentas indeterminadas. A leitura é mais ampla do que apenas crime — é a totalidade de mortes não-naturais.
05
POR QUE NINGUÉM OLHA — E POR QUE DEVERIA
Roraima sai pouco da pauta nacional. Os motivos são estruturais.
É o estado mais distante de qualquer grande centro brasileiro. Tem o segundo menor PIB estadual. Tem o segundo menor eleitorado. Não recebe atenção midiática proporcional à intensidade do que acontece lá. Quando entra no noticiário, é por garimpo ilegal em terras indígenas, ou crise migratória, ou conflito na fronteira — raramente por segurança pública strictu sensu.
E essa invisibilidade tem custo. Política pública dirigida ao estado costuma ser pontual (Operação Acolhida, intervenções em terras Yanomami) e raramente integrada a uma estratégia de segurança que considere o estado inteiro. Capacidade institucional da Polícia Civil de RR é proporcional ao seu tamanho — pequena. A perícia tem fila. O sistema prisional opera acima da capacidade. Para um estado que lidera o ranking nacional de estupro, isso é desproporcional.
Os dados deste artigo são os oficiais do Ministério da Justiça (SINESP) e do Ministério da Saúde (DataSUS). Estão disponíveis publicamente. Mas a comparação por 100 mil habitantes, que é o que torna o quadro de Roraima visível, raramente é feita em coberturas nacionais.
Vale registrar uma limitação. A série SINESP termina em 2022. Os dados mais recentes ainda não foram absorvidos no banco analítico do Crime Brasil. É possível que 2023 ou 2024 mostrem reversão da tendência — ou aceleração. Sem dados, é especulação. Vale acompanhar.
2.O estado de menor visibilidade do Brasil tem os piores indicadores de violência interpessoal
Roraima é o segundo estado menos populoso (636 mil hab.), o mais distante geograficamente, o segundo menor PIB. Em compensação, tem a maior taxa de estupro do país, está no top-5 em tentativa de homicídio, latrocínio e lesão corporal seguida de morte. A discrepância entre relevância política/midiática e gravidade dos números é o que torna o caso especialmente preocupante — porque não há pressão pública proporcional ao tamanho do problema.
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Compare Roraima com outros estados
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metodologia e limites
Metodologia e fontes
Fonte primária para ranking nacional (seções 1–3):
-
SINESP — Indicadores de UF (Ministério da Justiça e Segurança Pública). Tabela
app.sinesp_indic_uf_ocorrenciasno banco PostgreSQL do Crime Brasil. Cobertura: 27 UFs, série 2015–2022 (mensal), por tipo de crime. Os tipos disponíveis nesse dataset são: estupro, furto de veículo, homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte, roubo a instituição financeira, roubo de carga, roubo de veículo, roubo seguido de morte (latrocínio), tentativa de homicídio. -
Taxas por 100 mil habitantes: calculadas como
(ocorrências × 100.000) / população. Populações usadas: IBGE Censo 2022 (Roraima: 636.707; Mato Grosso do Sul: 2.757.013; Acre: 830.018; demais estados conformepopulation.jsondo Crime Brasil). -
Ranking nacional: ordenação decrescente da taxa por estado, somando ocorrências de janeiro a dezembro de cada ano. Para anos anteriores a 2022, a população usada foi a do Censo 2022 (não houve correção retrospectiva — o efeito sobre o ranking é desprezível para a maior parte do período).
Fonte primária para distribuição municipal dentro de RR (seção 4):
-
DataSUS — Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Tabela
app.datasus_sim_new_rrno banco do Crime Brasil. Cobertura: 13.944 óbitos em Roraima, 2000–2024. -
Causas consideradas: óbitos por causa externa (capítulos V, W, X, Y da CID-10). Inclui agressões (X85–Y09), acidentes (V, W), suicídios e mortes violentas indeterminadas.
-
Município de ocorrência: campo
codmunocordo SIM. Códigos IBGE de 6 dígitos (alguns registros aparecem com padding/espaço — o número total considera todas as variantes do mesmo município).
Limitações:
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SINESP é registro de ocorrência policial. Reflete crime denunciado, não necessariamente crime ocorrido. Estados com cultura de denúncia mais forte aparecem artificialmente piores.
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A série SINESP termina em 2022. Dados mais recentes (2023, 2024) não estão no levantamento. A reversão ou aceleração da tendência pós-2022 é desconhecida no momento desta análise.
-
DataSUS captura óbito por causa externa, não crime. Os números da seção 4 incluem homicídios, mas também acidentes, suicídios e mortes indeterminadas. A leitura é de mortalidade violenta, não de crime stricto sensu.
-
A correlação temporal entre o salto de Roraima no ranking (2020 em diante) e a crise migratória venezuelana é mencionada como contexto, não como causalidade. A análise causal precisa de estudos demográficos mais finos do que este levantamento.
-
Roraima é o segundo estado menos populoso do Brasil. Taxas por 100 mil podem ser sensíveis a oscilações de baixa magnitude absoluta — mas a tendência sustentada (sete anos, sempre subindo) reduz essa fragilidade.
Verificação: todos os números foram consultados diretamente no banco PostgreSQL do Crime Brasil em 20/05/2026, contra as tabelas app.sinesp_indic_uf_ocorrencias e app.datasus_sim_new_rr.