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Latrocínio no Brasil: estatísticas, evolução e os estados com maiores taxas

Por Crime Brasil·Metodologia

Verificado em 20 de maio de 2026

Latrocínio é o roubo que termina em morte — o crime que nenhuma estatística de homicídio captura completamente. Análise com dados de 8 estados brasileiros (2022–2025) mostra queda consistente, mas Acre e Tocantins lideram taxas que superam 1,3 por 100 mil habitantes.

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Maior taxa em 2024
Acre
O Acre registrou 1,58 latrocínios por 100 mil habitantes em 2024 — a maior taxa entre os estados com dados disponíveis no Crime Brasil, bem à frente de Tocantins (1,32).
Estátua da Justiça — balança e espada como símbolo do direito penal brasileiro
Justiça
Foto: Tingey Injury Law Firm / Unsplash

A maioria das estatísticas de violência começa e termina no homicídio doloso.

É o indicador mais rastreado, mais comparado, mais coberto pela imprensa. Mas existe um crime que mata com a mesma frequência — e que desaparece das métricas principais: o latrocínio.

O nome técnico é roubo seguido de morte. O Código Penal (art. 157, §3º, inciso II) define com precisão: é o roubo em que a violência empregada resulta na morte da vítima, quando essa morte é consumada. Não é tentativa. Não é homicídio em contexto de roubo sem a subtração do bem. É o crime que cruza a fronteira entre patrimônio e vida — e que, por isso, recebe pena de 20 a 30 anos, o mesmo patamar dos crimes mais graves do ordenamento penal.

O problema estatístico é simples: latrocínio é classificado como crime contra o patrimônio, não contra a vida. Então ele não aparece nos dados de homicídio doloso. Escapa dos índices de mortes violentas. Fica num limbo entre as duas grandes categorias de crime.

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01

O QUE É LATROCÍNIO — E POR QUE IMPORTA SEPARAR

O roubo está no art. 157 do Código Penal. O caput define o tipo base: subtrair coisa alheia mediante violência ou ameaça. A pena base é de quatro a dez anos de reclusão.

O §3º qualifica o roubo pelo resultado. Se da violência resulta lesão corporal grave, a pena sobe. Se resulta em morte — e se essa morte era querida ou aceita como resultado —, o crime passa a se chamar latrocínio. Pena: 20 a 30 anos de reclusão.

A Súmula 610 do STF esclarece um ponto que gera confusão: o latrocínio é consumado ainda que o roubo não se consuma, desde que a morte ocorra. Se o agente mata, mas não consegue levar o bem, ainda responde por latrocínio consumado — não por tentativa. O bem jurídico protegido que determina a consumação é a vida, não o patrimônio.

Isso cria uma separação importante para as estatísticas. Um homicídio seguido de roubo do celular da vítima pode ser classificado de formas distintas pelos estados — alguns registram como latrocínio, outros como homicídio qualificado, dependendo do dolo demonstrado no inquérito. A heterogeneidade classificatória é real, e é um limite de qualquer análise nacional que dependa de registros de ocorrência.

Ainda assim, o latrocínio é um indicador relevante por si mesmo. Ele captura um perfil específico de crime: violento, oportunista, tipicamente ocorrendo em situações de roubo a pedestre, motorista, residência ou estabelecimento. As políticas de segurança pública voltadas a preveni-lo são distintas das que miram o homicídio doloso entre conhecidos.

1.Crime hediondo que escapa dos índices de homicídio

Latrocínio é classificado como crime contra o patrimônio no Código Penal — não contra a vida. Por isso não entra nos indicadores de homicídio doloso nem nas Mortes Violentas Intencionais (MVI) do Anuário do FBSP. É um número que quase nenhum levantamento nacional isola com clareza.

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02

OS NÚMEROS POR ESTADO EM 2024

O Crime Brasil tem dados de latrocínio para 8 estados via registros individuais de ocorrência das SSPs estaduais. São eles: Acre, Alagoas, Bahia, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, São Paulo e Tocantins. Também há um registro isolado para o Piauí (2018 apenas), que não entra na análise de tendências recentes.

O gráfico abaixo mostra a taxa de latrocínios por 100 mil habitantes em 2024 — o dado mais comparável, por controlar o tamanho da população.

Acre e Tocantins lideram com folga. O Acre registrou 14 latrocínios em 2024 — número absoluto pequeno, mas sobre uma população de 884 mil habitantes, resulta em taxa de 1,58 por 100 mil. Tocantins: 21 casos, 1,59 milhão de habitantes, taxa de 1,32.

A distância entre os dois líderes e o restante é significativa. Rio Grande do Norte, o terceiro colocado, tem taxa de 0,55 — menos de metade do Acre. São Paulo, com 166 casos, tem taxa de apenas 0,36 porque divide esse número por 46 milhões de pessoas. Alagoas, com 6 casos em 2024, registra a menor taxa: 0,19.

Em termos absolutos, o cenário é invertido. São Paulo concentrou 166 latrocínios em 2024. Bahia veio em segundo com 75. Rio Grande do Sul registrou 28. Os demais estados ficaram abaixo de 25.

A diferença entre o ranking por taxa e o ranking por número absoluto é o dado mais importante pra entender esse crime. Estados pequenos com poucos casos podem ter taxas muito altas — e desaparecer na contagem bruta.

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03

A TENDÊNCIA: QUEDA CONSISTENTE EM QUASE TODOS OS ESTADOS

Entre 2022 e 2024, a tendência dominante nos estados com dados disponíveis é de queda. Isso vale pra maioria dos estados.

Rio Grande do Sul: queda de 52 casos em 2022 para 28 em 2024, retração de -46%. Rio Grande do Norte: de 30 para 19, queda de -37%. Tocantins: de 33 para 21, queda de -36%. Mato Grosso: de 28 para 18, queda de -36%.

São Paulo, o estado com maior volume, ficou relativamente estável: 178 em 2022, 163 em 2023, 166 em 2024. Em 2025 (dados parciais até o momento), o estado já mostrava queda para 129.

Alagoas apresenta a maior queda percentual no período: de 25 casos em 2022 para 6 em 2024, retração de 76%. O número absoluto é pequeno, o que amplifica oscilações percentuais — mas a tendência é consistente, sem sinal de recuperação.

A única exceção notável é o Acre. Em 2023, o estado registrou 58 latrocínios — mais do que o triplo da média dos anos anteriores (18/ano de 2018 a 2022). Em 2024, voltou a 14. O pico de 2023 pode refletir mudança metodológica de classificação ou evento concentrado naquele ano. Fica como anomalia que merece atenção em análises futuras.

2.Queda generalizada de 2022 a 2024 — mas o Acre tem um pico inexplicado

6 dos 7 estados com série completa de 2022 a 2024 registraram queda. O Acre destoa: saiu de ~17 casos anuais para um pico de 58 em 2023, depois voltou a 14 em 2024. Não há indicação nos dados se foi mudança classificatória ou evento concentrado. A anomalia precisa de investigação junto à SSP/AC.

04

SÃO PAULO: O MAIOR VOLUME, A MENOR TAXA

São Paulo merece destaque separado, tanto pela escala quanto pela origem dos dados.

Os números de SP que aparecem nesta análise vêm da plataforma de transparência ativa da SSP-SP — o portal ssp.sp.gov.br, que disponibiliza dados anuais desde 2022 em formato Excel. São registros agregados por delegacia e município, com o campo natureza_apurada classificando o tipo de crime.

Em 2022, São Paulo registrou 178 latrocínios. Em 2023, 163. Em 2024, 166. Em 2025 (até o fechamento deste levantamento), o dado já acumulava 129 casos com cobertura parcial do ano.

A taxa de 0,36 por 100 mil habitantes em 2024 coloca SP entre os estados com menor incidência relativa da lista — o que é contraintuitivo. Mas faz sentido quando se considera que São Paulo concentra mais de 46 milhões de pessoas. O denominador grande dilui os números absolutos.

Não temos dados comparáveis de latrocínio para Rio de Janeiro e Minas Gerais no banco do Crime Brasil — esses estados estão presentes em outros indicadores (homicídio doloso, tráfico), mas a granularidade de tipo de crime em seus dados de ocorrência não permite isolar latrocínio com a mesma confiabilidade. Isso é uma lacuna relevante, discutida mais abaixo.

Explore os dados de SP, RS e AL

Veja homicídios, roubos e outros crimes por município no Crime Brasil.

05

COBERTURAS E LACUNAS — O QUE NÃO ESTÁ AQUI

Esta análise cobre 8 estados com dados de latrocínio disponíveis no Crime Brasil. Juntos, eles somam aproximadamente 94 milhões de pessoas — cerca de 45% da população brasileira.

Os 19 estados restantes não estão aqui por motivos variados:

Rio de Janeiro e Minas Gerais: o Crime Brasil tem dados amplos dessas duas UFs, mas os registros de ocorrência disponíveis não separam latrocínio como tipo distinto com confiabilidade suficiente. Estão nos dados como parte de categorias mais amplas de roubo.

Estados do Norte e Nordeste sem dados individuais: para estados como CE, PE, MA, PA, e outros, o Crime Brasil só tem dados agregados SINESP, que não detalham latrocínio por município. Esses estados figuram no Anuário do FBSP com seus índices de MVI, mas não no nível de detalhamento de tipo de crime deste levantamento.

Piauí: o banco tem um único ano de dados com latrocínio (2018, 19 casos). Sem série temporal útil, não entra nas comparações.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) publica anualmente um levantamento nacional de latrocínio com dados de todas as 27 UFs — a edição de 2025 (dados de 2024) registrou 867 latrocínios no Brasil. Para uma análise de cobertura nacional completa, essa é a fonte primária recomendada.

O que esta análise acrescenta ao Anuário: granularidade municipal (para os estados cobertos), séries mensais e dados mais recentes (2025), cruzamento com outros tipos de crime por bairro e município.

3.45% da população coberta — o restante precisa do Anuário FBSP

Os 8 estados com dados de latrocínio no Crime Brasil somam ~94 milhões de habitantes, aproximadamente 45% do Brasil. Para visão nacional completa (27 UFs), o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) é a fonte indicada. Este levantamento complementa com granularidade municipal e séries mensais.

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metodologia e limites

Metodologia e fontes de dados

Fontes primárias:

  • SSP/RS (Rio Grande do Sul): registros individuais de ocorrência, dados abertos via Lei 15.610/2021. Latrocínio identificado via tipo_enquadramento LIKE '%ROUBO%MORTE%' (inclui ROUBO COM MORTE, ROUBO A RESIDENCIA COM MORTE, ROUBO A PEDESTRE COM MORTE, ROUBO DE VEICULO COM MORTE, ROUBO A ESTABELECIMENTO COMERCIAL COM MORTE, ROUBO A MOTORISTA COM MORTE). Série: 2022–2025.

  • SSP/SP (São Paulo): portal de transparência ativa ssp.sp.gov.br, arquivo SPDadosCriminais_<ANO>.xlsx, campo natureza_apurada = 'LATROCÍNIO'. Série: 2022–2025. Ingestão via app.ssp_sp_dados_criminais no banco Crime Brasil.

  • SSP/AC (Acre): registros individuais, campo tipo_fato LIKE '%ROUBO SEGUIDO DE MORTE - LATROCÍNIO%'. Série: 2018–2025.

  • SSP/AL (Alagoas): registros individuais, campo tipo_fato = 'Roubo com Resultado Morte'. Série: 2012–2025.

  • SSP/BA (Bahia): registros individuais, campo tipo_enquadramento LIKE '%ROUBO COM RESULTADO MORTE - LATROCÍNIO%'. Série: 2024–2025 (cobertura disponível no banco).

  • SSP/MT (Mato Grosso): registros individuais, campo tipo_fato = 'Roubo seguido de morte (latrocínio)'. Série: 2018–2025 (sem dados de latrocínio em 2023 — absorvido em categoria genérica "ROUBO" naquele ano).

  • SSP/PI (Piauí): registros individuais. Série: 2018 (único ano disponível com classificação específica).

  • SSP/RN (Rio Grande do Norte): registros individuais, campo tipo_fato = 'ROUBO SEGUIDO DE MORTE - LATROCÍNIO'. Série: 2022–2025.

  • SSP/TO (Tocantins): registros individuais, campo tipo_fato = 'ROUBO SEGUIDO DE MORTE - LATROCÍNIO'. Série: 2020–2025.

Populações: IBGE Censo 2022, via population.json do backend Crime Brasil. Acre: 884.372; Alagoas: 3.220.848; Bahia: 14.870.907; Mato Grosso: 3.893.659; Rio Grande do Norte: 3.455.236; Rio Grande do Sul: 11.233.263; São Paulo: 46.081.801; Tocantins: 1.586.859.

Taxas: calculadas como (casos / população) × 100.000.

Verificação: todos os números foram consultados diretamente no banco PostgreSQL Crime Brasil em 20/05/2026. Os dados de SP são atualizados mensalmente via systemd timer na instância de produção.

Limitações:

  1. Latrocínio é classificado de formas distintas entre estados (alguns usam "roubo seguido de morte", outros "roubo com resultado morte"). A identificação segue o padrão documentado de cada SSP.
  2. A comparação nacional (27 UFs) está fora do escopo deste levantamento — para isso, o Anuário FBSP é a fonte correta.
  3. O pico do Acre em 2023 (58 casos vs. média de ~17) não tem explicação documental disponível neste levantamento e deve ser tratado com ressalva até confirmação com a SSP/AC.
  4. Dados de 2025 são parciais e não foram usados para comparações de taxa.

Para referência sobre a definição legal: Código Penal Brasileiro, Decreto-Lei nº 2.848/1940, art. 157, §3º, inciso II (com redação da Lei nº 13.654/2018).

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Como citar esta página

CRIME BRASIL. Latrocínio no Brasil: estatísticas, evolução e os estados com maiores taxas. Disponível em: https://crimebrasil.com.br/analises/latrocinio-brasil-estatisticas. Acesso em: 4 out. 2026.

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Vinícius Mendes
Repórter · Olhar Direto (Cuiabá · MT)

Repórter da editoria de Reportagem do Olhar Direto, portal de notícias de Cuiabá (MT), com cobertura de segurança pública e casos policiais no estado. Usou o dado do Crime Brasil para reportar a queda de roubos e a alta de estelionatos em Mato Grosso.

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Jair Gonçalves
Fundador · Portal Atibaia News

Fundador do Portal Atibaia News, veículo de notícias de Atibaia (interior de São Paulo). Publicou com o dado do Crime Brasil o ranking de ocorrências por bairro da cidade.

“Parabéns à Crime Brasil pelo excelente trabalho de jornalismo de dados! As informações disponibilizadas possibilitaram ao Portal Atibaia News produzir uma importante matéria sobre os números de ocorrências policiais por bairro em Atibaia, levando informação e transparência aos nossos leitores. Muito obrigado.”
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Artigo assinado · Paraná

Artigo de opinião do editor do Crime Brasil: a queda de homicídios no Paraná esconde a alta em mortes no trânsito, suicídios e feminicídios — com o dado da plataforma.

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O Eco
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Reportagem · Amazônia

Reportagem sobre violência fundiária e baixa punição de crimes ambientais na Amazônia, cruzando dados do Crime Brasil com CPT, Ibama, CNJ e MapBiomas.

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Goiânia · edição impressa

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